Sobre o Outro
Um dia desses eu estava pesquisando a respeito de policiamento em terras indígenas para fazer um parecer no trabalho e me deparei com esse…
Sobre o Outro

Um dia desses eu estava pesquisando a respeito de policiamento em terras indígenas para fazer um parecer no trabalho e me deparei com esse texto aqui. Ele não tinha muito a ver com o que eu estava precisando para completar o parecer, mas achei super curioso porque ele aborda temas que me atraem demais: relações interpessoais e a nossa visão do Outro. Gostei em especial de um trechinho que vou colar:
A possibilidade de enxergar o mundo pelos olhos do outro é privilégio de poucos iniciados. Mas não é missão impossível, caso contrário o preparo técnico seria inviabilizado. É tranquilo fazer o policial aqui ou alhures compreender a necessidade de atenção diferenciada para grupos vulneráveis.
Nossa experiência de trabalho em centros de formação e aperfeiçoamento profissional nos confere relativa autoridade, apesar do complicador, relativo a aceitação de determinados grupos vulneráveis como merecedores de atenção especial e de procedimentos, por conseguinte, peculiares às suas necessidades.
A dificuldade não se restringe aos povos indígenas. Estende-se aos negros, aos homossexuais e demais minorias sociais que, já no século XXI , ainda lutam para terem garantidos direitos fundamentais.
Esse texto que eu citei fala sobre o que policiais militares tiveram que enfrentar, sem nenhum treinamento específico, quando foram realizar policiamento ostensivo (aquele policiamento normal da Ronda no Bairro) em território indígena no Pará. Um dos maiores problemas pra eles, pelo que eu entendi, foi o próprio preconceito que eles sentiam pelos índios. Eles falavam, e eu acredito piamente nesse relato porque já o vi sendo falado ao vivo por diversas pessoas, que os indígenas eram preguiçosos e que não faziam nada o dia inteiro. O texto não citou, mas posso dizer com 98% de certeza que alguns policiais também acreditavam que os indígenas não deveriam ter um território designado a eles, que deveriam se integrar a civilização e deixar para trás a sua cultura “retrógrada”, “que nada traz de benefício a sociedade” (deixei em aspas porque é algo que já ouvi e li umas poucas 100 vezes no Facebook).
De fato, uma das coisas mais difíceis de aprender é enxergar o mundo pelos olhos do outro. Para fazer isso, você tem que se despir das suas vivências, sair da sua caixa e perceber que o seu modelo de vida é somente um dentre os vários possíveis. Pior, que o seu modelo de vida não é o melhor e nem o mais perfeito. Tem gente que nunca consegue aprender essa lição e passa a vida frustrado, até porque ninguém consegue se enquadrar 100% nem no modelo que sonhou para si. As caixas que servem para nos categorizar e nos dar títulos também nos sufocam e nos aprisionam.
Acho curioso, porém, que esse conceito de Outro não é utilizado somente para definirmos as outras pessoas, qualquer um que não é o Eu. Como diz o textinho citado ali acima, o conceito de Outro também serve para se falar de um grupo de pessoas diferentes do meu grupo, um grupo de pessoas com quem não consigo me identificar. Esse texto aqui fala bem sobre isso e eu copiei algumas citações dele para me fazer entender melhor:
Os judeus são “outros” para o anti-semita, os negros para os racistas norte americanos, os indígenas para os colonos, os proletários para as classes dos proprietários. Ao fim de um estudo aprofundado das diversas figuras das sociedades primitivas, Levi Strauss pôde concluir: “A passagem do estado natural ao estado cultural define-se pela aptidão por parte do homem em pensar as relações biológicas sob a forma de sistemas de oposições: a dualidade, a alternância, a oposição e a simetria, que se apresentam sob formas definidas ou formas vagas, constituem menos fenômenos que cumpre explicar os dados fundamentais e imediatos da realidade social”. Tais fenômenos não se compreenderiam se a realidade humana fosse exclusivamente um mitsein baseado na solidariedade e na amizade. Esclarece-se, ao contrário, se, segundo Hegel, descobre-se na própria consciência uma hostilidade fundamental em relação a qualquer outra consciência; o sujeito só se põe em se opondo: ele pretende afirmar-se como essencial e fazer do outro o inessencial, o objeto. Simone de Beauvoir, O segundo sexo, pp. 11–12.3
É curioso a gente pensar que só conseguimos nos definir, só conseguimos nos identificar como Eu se há alguma oposição a outras pessoas. Essa oposição acaba desumanizando o outro, o colocando muitas vezes como inferior e faz com que a gente erga um muro psicológico que faz com que a gente não consiga nem mesmo perceber que o outro tem dificuldades que não temos e que devemos trabalhar para que a vida dele também seja cada vez melhor.

A Simone, que citei acima, ainda falou uma coisa mais curiosa em relação ao Outro, cuja citação segue aqui abaixo:
Na medida em que a mulher é considerada o Outro absoluto, isto é — qualquer que seja sua magia — o inessencial, faz-se precisamente impossível encará-la como outro sujeito. As mulheres nunca, portanto, constituíram um grupo separado que se pusesse para si em face do grupo masculino; nunca tiveram uma relação direta e autônoma com os homens. Simone de Beauvoir, O segundo sexo, p.90.
Esse entendimento da Simone me fascina porque o vejo em outras leituras, quando converso com outras pessoas, lapidado no muro do mundo real. A diferenciação biológica e psicológica entre homens e mulheres, na forma que os criamos atualmente, faz com que a mulher seja vista como o não-homem. Ela só é lida e identificada no que o homem não é. Para as mulheres negras a vida é ainda pior:
Nesse esquema, a mulher negra só pode ser o outro, e nunca si mesma. […] Mulheres brancas tem um oscilante status, enquanto si mesmas e enquanto o “outro” do homem branco, pois são brancas, mas não homens; homens negros exercem a função de oponentes dos homens brancos, por serem possíveis competidores na conquista das mulheres brancas, pois são homens, mas não brancos; mulheres negras, entretanto, não são nem brancas, nem homens, e exercem a função de o “outro” do outro. Grada Kilomba, Plantation Memories: Episodes of Everyday Racism. p.124.
Interessante onde uma leitura para o trabalho acabou indo parar. Percebendo que nós todos somos o outro para alguém, deveria ser mais fácil aceitar as diferenças, respeitar o princípio da igualdade, não criticar ou subjugar o outro apenas porque ele não é igual a mim. Como diz o primeiro texto:
Assim, seria possível escutar o comandante da operação dizer: “os Tembé podem ter certeza de que seus direitos não serão violados”, em lugar de ouvir: “estamos aqui para proteger os moradores de Capitão Poço dos Tembé, que pintados e armados para guerra ameaçam invadir a cidade.”
Só que parte desse exercício é reconhecer que o outro também tem valor e que o fato de ele ter direitos não diminui os direitos que eu já possuo. O diálogo e o respeito são chaves para o entendimento, tanto em áreas de conflito como a dos Tembé quanto em áreas em que convivemos com os diferentes.
Ou seja: em todo lugar.

메타데이터
- post_id
- ecc501fbbbc7
- slug
- sobre-o-outro-ecc501fbbbc7
- url
- https://medium.com/@qq1tabom/sobre-o-outro-ecc501fbbbc7
- canonical_url
- https://medium.com/@qq1tabom/sobre-o-outro-ecc501fbbbc7
- author_url
- https://medium.com/@qq1tabom
- status
- ok
- fetched_at
- 2026-07-30 03:42:02