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Quando nos Acostumamos às Rachaduras

Walter Felix Cardoso Junior

Walter Felix Cardoso Junior · 2026-04-09 22:04 · 0 claps · 3.4 min read
#janela #63º-btl-infantaria #abandono #rachadura-moral #perda-de-referência
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Quando nos Acostumamos às Rachaduras

Walter Felix Cardoso Junior

wfelixcjr3.carrd.co

Em 1997, no meu segundo ano de comando do 63º BI — o velho Batalhão Fernando Machado, em Florianópolis — , uma preocupação aparentemente modesta ocupava parte do meu tempo: as janelas envelhecidas dos pavilhões.

Depois de solicitar recursos ao escalão superior, a ajuda veio. Com ela, iniciamos a aquisição das máquinas necessárias para montar uma pequena marcenaria e enfrentar o problema. Não era pouca coisa. Tratava-se de um conjunto de edificações da década de 1930, distribuído em cinco pavilhões do estilo Pandiá Calógeras, já marcados pelo desgaste dos anos, da maresia e do uso continuado.

Havia muitas janelas danificadas. Muitas. E, como quase sempre acontece no mundo real, o tempo era curto, a mão de obra especializada era escassa e os limites eram maiores do que a vontade. Conseguimos recuperar algumas. Apenas algumas.

Lembro-me até hoje da preocupação com aquelas “janelas meiatrês”, que nos exigiram pesquisa, improviso e certo zelo artesanal para que o serviço não virasse mero remendo fantasiado de solução. Foi nessa época que conheci a teoria da janela quebrada: quando uma janela é quebrada e ninguém a conserta, ela começa a dizer algo a quem passa. Diz que ninguém cuida. Diz que ninguém vigia. Diz que ninguém se importa. E, quando essa mensagem se instala, outras quebras tendem a vir. O abandono, afinal, também educa.

Os anos passaram. A imagem, não.

Hoje, olhando para a condição moral da Força Terrestre, não consigo evitar a associação. Não falo de ruína geral, nem me parece honesto posar de profeta do desabamento. A grande casa continua em pé. Os símbolos continuam em pé. Os ritos continuam em pé. Mas há sinais de fraturas visíveis, toleradas e repetidas — pequenas quebras que, por não serem reparadas, vão ensinando ao ambiente que certas quedas de padrão já não escandalizam como antes.

E isso, numa instituição que se apresenta como guardiã de patriotismo, lealdade, probidade, disciplina, hierarquia e fé na missão, pesa mais do que pesaria em qualquer repartição comum. Porque ali o discurso não deveria ser ornamento.

A primeira dessas janelas quebradas talvez seja a da incoerência. Os valores continuam proclamados com firmeza, como convém. Permanecem nos discursos, nas solenidades, nos documentos, nas referências doutrinárias. Mas, aqui e ali, já não orientam com a mesma nitidez o comportamento dos que mandam. E, numa instituição militar, quando o discurso marcha para um lado e o exemplo para outro, a rachadura já não é estética. É moral.

A segunda é a da seletividade moral. Não é apenas o erro que corrói. É a percepção de que certos erros pesam muito, enquanto outros são absorvidos com prudência, relativizados pela conveniência ou abafados pela utilidade do momento. Numa casa hierárquica, isso envenena devagar o espírito de corpo. A tropa aprende, sem que ninguém precise explicar, qual é o verdadeiro critério em vigor.

A terceira janela quebrada é a do silêncio pedagógico. Os mais jovens observam muito mais do que falam. E aprendem rápido. Aprendem o que pode ser dito, o que não convém dizer e quais verdades cobram caro demais para serem nomeadas. A disciplina, então, corre o risco de deixar de ser ordem interior para virar simples adaptação defensiva.

A quarta talvez seja a mais grave: a perda de referência no topo. Em estruturas verticais, a quebra moral mais destrutiva raramente sobe de baixo para cima. Ela desce. Começa quando o alto deixa de irradiar clareza, firmeza e coerência perceptível. E, quando isso ocorre, o dano simbólico se espalha sem alarde, mas com notável eficiência corrosiva.

Mas talvez a pior de todas seja a quinta: a normalização do desalento. Não o escândalo aberto, não o colapso teatral, mas o ambiente em que a decepção vira rotina, o cinismo vira mecanismo de defesa e a esperança de correção vai secando. A casa continua de pé. As bandeiras continuam hasteadas. Os ritos continuam soberbos. Mas alguma coisa invisível começa a se retirar. E Forças Armadas vivem precisamente dessa nuance abstrata, invisível.

É isso que mais inquieta.

Uma casa honrada não deixa de ser honrada porque tem defeitos. Nenhuma casa humana escapa deles. O problema começa quando os defeitos visíveis deixam de ser tratados como urgência moral; quando a janela quebrada permanece ali por tanto tempo que já não se sabe se ainda provoca vergonha ou se foi incorporada à paisagem como detalhe sem importância.

Não escrevo isso com prazer acusatório, muito menos com espírito de revanche. Ao contrário. Só fala assim quem ainda guarda respeito suficiente pela casa para sofrer ao vê-la trincada. O verdadeiro desamor não está em apontar a rachadura. Está em conhecê-la, conviver com ela e chamar de normalidade aquilo que deveria convocar reparo.

Aprendi, lá atrás, entre pavilhões antigos e janelas cansadas, que consertar uma janela nunca é apenas ajeitar madeira, vidro ou esquadria. É dizer ao ambiente que alguém cuida. Que alguém zela. Que alguém ainda distingue ordem de abandono.

Talvez seja justamente isso o que esteja faltando agora em nossa honrada casa: menos retórica sobre valores e mais disposição moral para reparar tantas janelas quebradas.


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