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This Jacket Has Completely Changed My Life — E Outras Suposições

A vaidade não é mais do que um maço Marlboro, guardado no bolso de uma camisa branca.

João Salazar Braga · 2023-06-01 11:16 · 0 claps · 3.2 min read
#seinfeld #maio #pop-rock #crónica #português
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This Jacket Has Completely Changed My Life — E Outras Suposições

A vaidade não é mais do que um maço Marlboro guardado no bolso de uma camisa branca.

Entro no comboio e sento-me num lugar à janela. A carruagem, que é a primeira, está estranhamente vazia; pode ser que mais passageiros entrem ao longo do caminho. A verdade é que já não é muito cedo — o relógio está perto do ponteiro das 8. No entanto, o céu engana. Ainda não me habituei a estes horários cheios de luz.

Abro o livro que tenha andado a ler, e tento progredir na história, que é moderadamente interessante, mas estou profundamente distraído, não conseguindo prestar atenção à narrativa, que se passa na favela da Rocinha, porque os meus ouvidos estabeleceram uma relação obsessiva com a música dos The Style Council — em particular, com a para sempre doce e nostálgica “You’re The Best Thing”. É caso para dizer que este tema também é uma das melhores coisas que ofereci aos meus canais auditivos, ao longo das últimos meses.

Como querem que eu esteja concentrado a ler quando estou preso a esta canção, que tão bem representa o fim de tarde do último dia do mês de maio? Neste momento, não acredito que possa existir uma canção superior a esta. (É esta a música que Deus escuta enquanto prepara, todas as manhãs, o seu café de cafeteira.)

No exterior do transporte, o tempo não está nem muito quente, nem muito frio. Dir-se-ia que está a temperatura ideal. Se não estivesse de casaco vestido, julgo que estaria desconfortável, já que, no ar, corre uma aragem fresca; no interior do comboio, cujas janelas estão excepcionalmente abertas, o termómetro deverá assinalar, também, a dita temperatura ideal.

Agora, o meu casaco branco, de lona, é o meu maior bem — e não ignoro o bom livro que tenho nas mãos, nem a música que o meu telemóvel reproduz. Ainda assim, reconheço que tamanha vaidade é desnecessária; é problemático quando o brio se transforma em vaidade, que é, provavelmente, um dos substantivos mais tóxicos da língua portuguesa. A vaidade não é mais do que um maço Marlboro guardado no bolso de uma camisa branca — também mata.

De repente, deixo de prestar atenção à música que escuto, e lembro-me de um take de Seinfeld sobre blusões. Se calhar, não é hoje que morro de vaidade, visto que fui salvo pela cultura pop. Considerem este still:

Também eu me sinto mais forte por estar com este casaco branco, de lona, vestido. Gostava de explicar porquê, porém. Não sei se consigo. Pode ser que esteja já a entrar numa fase avançada da doença que vitimou o belo Narciso.

Tenho para mim que toda a gente possui uma peça de roupa que funciona como uma espécie de capa de super-herói. (Se estivesse a ouvir Black Country, New Road, iria, muito provavelmente, considerar que os meus *sunglasses* dão-me o dom da invencibilidade.) Tantas questões de vaidade. Temos de ter cuidado. (Eu tenho.)

Entretanto, a viagem segue tranquila. A banda-sonora mudou, mas os meus ouvidos permanecem em Inglaterra, na década de 1980. (Têm passado muito tempo em terras de Sua Majestade. O pop-rock britânico é a verdadeira jóia da Coroa.) Agora, escuto Everything But The Girl, e rio-me ao assimilar o significado do nome da banda, cuja música foi sempre demasiado avant-garde para o seu tempo. Rio-me. A minha face é um grande sorriso. Uma rapariga olha para mim, mas desvia logo a cara, porque, calculo, não quer estabelecer contacto visual com um maluco. Gal, não sou maluco, mas apenas uma pessoa feliz, que encontra conforto em músicas quentes.

Entre canções, vou olhando pela janela, e observo o rio, que, em breve, fundir-se-á com o mar, e sei que está tudo bem, porque maio está para acabar — e dará lugar a junho — ; porque o Sol, hoje, decidiu brilhar; e porque, daqui a pouco, estarei em casa.

Nem sempre concordo com os todos os takes de Seinfeld, mas peço-vos para considerarem só mais este:

Hoje é definitivamente um dia bom — daqueles que me fazem sentir absolutamente maravilhado por estar vivo. Por esta altura, o livro já está fechado, e descansa no banco do comboio, mas a minha vida está bem aberta. As possibilidades são tão extensas como a linha do horizonte.


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