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[2] Apresentação Sucinta da Minha Posição Sociopolítica

O objetivo deste blog é pensar a sociedade ‘para além do Estado’, a organização do trabalho sob os moldes da autogestão/cooperativas e a…

Cartas ao Remanescente · 2026-05-13 23:09 · 0 claps · 5.2 min read
#filosofia #sociedade #economia #anarquismo #história
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[2] Apresentação Sucinta da Minha Posição Sociopolítica

O objetivo deste blog é pensar a sociedade ‘para além do Estado’, a organização do trabalho sob os moldes da autogestão/cooperativas e a justiça social aliada à liberdade econômica. Para cumprir com esse objetivo, usaremos do conhecimento acadêmico relevante em diversas disciplinas científicas e, em algumas instâncias, traçaremos relações com a economia e história brasileiras e da região amazônica.

Defendo aqui uma forma de anarquismo individualista e mutualista. Enquanto esta posição ampare a crítica social em que nos engajaremos, é importante destacar que levarei em conta como os três elementos acima colocados podem ser pensados mesmo em separado e de forma menos radical que sob a leitura anarquista por mim endossada. Entretanto, penso que o anarquismo individualista e mutualista (aliado a um anarquismo sem adjetivos) oferece um horizonte que liga esses pontos entre si da melhor forma possível, em uma crítica incisiva à autoridade e à dominação.

“[O anarquista individualista é] um resistente permanente a todas as tentativas de subordinar a singularidade do indivíduo à autoridade do coletivo.” (Sidney Parker, “My Anarchism”, 1981)

Elementos importantes da crítica social feita a partir do individualismo anarquista dizem respeito a estruturas sociais que sufoquem a independência pessoal, que roubem seu sentido de pessoa peculiar com uma vida que cabe a ela viver, que imponham sacrifícios unilaterais baseados em uma retórica de “abstrações coletivas indefinidas” (como A Nação, O Bem Comum, etc.), que o induza a dominar ou ser dominado em relações difusas de poder relativas a gênero, classe, raça, assimilação cultural e linguística, etc. Isso conduz a sérios problemas com regimes como o comunismo soviético, o fascismo e o nazismo. Mas também com os sistemas capitalistas de produção, com as distinções de status social que caracterizam as classes dominantes ou estratos socioeconômicos mais elevados, e com as “culturas” do consumismo e da ostentação.

“Houve e continuam a haver muitas tentativas de levar uma vida fora da economia capitalista de Estado, orientadas para o ideal da troca equitativa, que é a pedra angular econômica, a meu ver, do individualismo anarquista. As experiências atuais em cooperativas urbanas e rurais, que tentam eliminar o ‘intermediário’ e substituí-lo por uma troca ou escambo de serviços, estão a um passo da substituição da moeda corrente pelas ‘notas de trabalho’ proposta por Warren.” (Mark A. Sulivan, “A reply to friend Parker”, 1976)

A postura individualista, assim, funda-se na capacidade de resistir à pressão social, de não se deixar levar pelas pressões do grupo, de poder “ir embora” e “se desassociar” à vontade, de não abrir mão da independência de caráter e/ou das peculiaridades mesmo sob possíveis vantagens em status social, e de se unir a outros sob a base de não abrir mão disso, interagindo com base em acordos voluntários e costumes espontâneos. Busca-se o quanto possível disso nas circunstâncias concretas, uma vez que o máximo possível provavelmente só seria obtido por viver isoladamente, o que também é uma opção válida, mas não obrigatória.

Daí a importância do mutualismo como forma de pensar a organização econômica do trabalho autogerido e do livre mercado genuíno, liberto dos monopólios coercitivos do poder político e econômico, como o da propriedade da terra sem respaldo em ocupação e uso legítimos (vide “Anarquismo e Socialismo de Estado: até onde que concordam e em que diferem”, de 1886, por Benjamin Tucker, anarquista individualista e mutualista). Veremos, inclusive, como a assistência social e serviços públicos governamentais desse ponto de vista devem ser entendidos como indenizações por tais monopólios (monopólios estes que prejudicam especialmente os menos favorecidos). Indenizações bem-vindas nesse sentido, especialmente o quanto menos interfiram na liberdade de troca econômica e na organização espontânea da sociedade em suas bases de baixo pra cima, mas apenas parciais e potencialmente enganadoras: deve-se ter o cuidado de não se deixar persuadir de que sejam benesses incapazes de serem providas pela própria sociedade auto-organizada!

Periódico Liberty, eminente publicação anarquista individualista e mutualista de Benjamin Tucker, veiculada de 1881 até 1908. Com a frase clássica de Proudhon, “[A liberdade] não é a filha, mas a mãe da ordem”.

Periódico Liberty, eminente publicação anarquista individualista e mutualista de Benjamin Tucker, veiculada de 1881 até 1908. Com a frase clássica de Proudhon, “[A liberdade] não é a filha, mas a mãe da ordem”.

O reexame da literatura anarquista (não só a individualista e mutualista, como também de outras vertentes) e de casos concretos de aplicação a ser feito aqui será relacionado com: 1) o liberalismo e o socialismo (com especial enfoque no liberalismo novo-clássico/neoclássico da escola do Arizona, no socialismo de mercado e em casos concretos do modelo de cooperativas de trabalhadores)no socialismo de mercado e em casos concretos do modelo de cooperativas de trabalhadores); 2) o potencial progressista embutido em certas tradições culturais (caras ao conservadorismo); 3) o conhecimento científico e acadêmico robusto como produzido nas áreas pertinentes (sociologia, antropologia, economia, historiografia, ciência política, psicologia, biologia, etc. cuja integração filosófica abordo em detalhe no meu blog principal “Escrevendo o Livro do Mundo”, contínuo à minha carreira como filósofo acadêmico); 4) a economia e história brasileiras e da região amazônica (para pensar tanto o quadro nacional como regional que me é mais próximo, e examinar em detalhe figuras e movimentos importantes em nosso panorama, como por exemplo a anarquista individualista brasileira Maria Lacerda de Moura na 1ª metade do século XX).

O título deste blog homenageia a noção de remanescente discutida pelo teórico georgista e individualista Albert Jay Nock em “The Isaiah’s Job” (“A Missão de Isaías”), de 1936: mesmo se as potencialidades mais radicais que aqui serão articuladas forem impalatáveis ao discurso público dominante, ainda há um remanescente que poderá fazer o contrapeso e que precisa ser alcançado. Nock mesmo não esperava que suas ideias seriam realizadas, mas pensava dever registrá-las mesmo assim (independente de alguma utilidade) e ainda considerando que sempre haveria pensadores independentes para encontrar e levar à frente esse tipo de discussão (e acrescento: bem como as práticas pessoais e sociais que, já aqui e agora, emergem de forma paralela à organização estatal da sociedade, possibilitando esferas do “viver sem autoridade/sem dominação” que caracterizam uma definição de anarquismo no presente). Esta chama precisa continuamente ser acesa e renovada.

Para aqueles dispostos a alterar o contexto social de sua vida, é possível resistir por meio do isolamento/vida solitária, do movimento de “regresso à terra” [em direção à zona rural] para se tornar o quanto autossuficiente possível (assim saindo da corrida tecnológica disruptiva), ou da vida comunitária em comunidades alternativas “oásis num deserto de homens”. Para aqueles que não estejam dispostos a isso, não é possível escapar por inteiro do quadro dominante, mas ao menos pode-se (por meio de práticas que dependem de cada um conforme suas próprias circunstâncias) impor-lhe certa fricção, participar desse mundo social mas sem ser inteiramente dele, isto é, um exílio interno ou exílio interior em que vivemos em sociedade, mas sem sermos dela (Sidney Parker, em resenha do livro “Go Ahead and Live!”, edição 8 da Revista *Minus One: an Individualist Anarchist Review, 1965). O que pode ser fortalecido se houver a chance para empreendimentos em autogestão, cooperativas, viver do artesanato, hortas urbanas e comunitárias, [manufaturas open-source](https://www.opensourceecology.org/), crédito mútuo, moeda social, shadow libraries etc. construindo fragmentos de uma experiência social alternativa e paralela nas fendas da sociedade que existe. (Veja também “Anarquismo e Vida Cotidiana”, 2017, pelo anarquista ‘sem adjetivos’ português Mário Rui Pinto e “[Libertarian Municipalism: Networked Cities as Resilient Platforms for Post-Capitalist Transition](https://c4ss.org/content/50407)*”, 2018, pelo anarquista mutualista Kevin Carson)

“Meu anarquismo, portanto, assume a forma de negar a legitimidade de qualquer reivindicação de autoridade sobre mim, não de negar que ainda existam ‘forças sociais’ mais poderosas do que eu, capazes de me compelir a acatar suas exigências, mesmo que eu não lhes conceda tal autoridade. A anarquia, assim, torna-se não um lugar futuro, mas um ‘estado de espírito’ presente, uma perspectiva individual, não uma prática social futura. Contudo, se não tenho o poder de derrubar essas ‘forças’ que reivindicam autoridade e/ou exigem submissão, irei evitá-las sempre que possível, afirmar minha individualidade quando puder e, quando tudo mais falhar, refugiar-me-ei no que James Joyce descreveu como “silêncio, exílio e sutileza astuta” [silence, exile and cunning]. (Sidney Parker, “Anarchism, Authority and Power”, 1976)


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