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ESG na cotonicultura: saiba como a adoção da onda sustentável impulsiona a cadeia produtiva do…

Da capital baiana até o Oeste do estado, o longo percurso revela aos poucos as belezas do Cerrado. Entre o clima seco no inverno, os…

UFBA — Prêmio Abapa de Jornalismo · 2023-09-19 02:20 · 0 claps · 7.1 min read
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ESG na cotonicultura: saiba como a adoção da onda sustentável impulsiona a cadeia produtiva do algodão no Oeste da Bahia

Comprometimento com o desenvolvimento social, ambiental e econômico são pilares para a produção do algodão responsável que tem alavancado a agricultura baiana

(Foto: Larissa Almeida)

(Foto: Larissa Almeida)

Por Larissa Almeida

Da capital baiana até o Oeste do estado, o longo percurso revela aos poucos as belezas do Cerrado. Entre o clima seco no inverno, os arbustos, os galhos tortuosos e as gramíneas — que caracterizam a vegetação predominante do bioma –, uma quantidade expressiva de flores alvas e fofas de algodão se destacam na paisagem. É nesse cenário que a cotonicultura baiana, segunda maior produtora de algodão do país, consegue fincar raízes e alavancar o agronegócio no estado. Só na safra 2022/2023, a região Oeste produziu 305,8 mil hectares em área plantada e a região Sudoeste produziu 6,7 mil hectares.

De acordo com o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o algodão foi o principal responsável pelo crescimento da agricultura baiana em 2022, quando a Bahia teve aumento de 12,2% em relação ao ano de 2021 e faturou R$42,3 bilhões graças a essa cultura agrícola. Para conseguir se manter como principal centro de produção do segmento na Bahia, o Oeste tem investido em práticas que visam a integração do ESG (sigla em inglês que, em tradução para o português, reúne os pilares da sustentabilidade moderna: ambiental, social e governança) na produção do algodão.

Nesse sentido, a educação e a execução de programas com compromisso ambiental são os principais instrumentos utilizados para a adoção de uma agenda sustentável, que tem como intuito a preservação do meio ambiente, a capacitação das pessoas envolvidas na cadeia produtiva e a redução de custos.

Em Luís Eduardo Magalhães, cidade que abriga a sede da Associação Baiana dos Produtores de Algodão (Abapa), o compromisso com a pauta ESG está presente tanto nas fazendas locais quanto nos ambientes internos da entidade que representa os produtores da commodity. Segundo Luiz Carlos Bergamaschi, presidente da Abapa, isso reflete a necessidade de adequação de todos os atores envolvidos na cotonicultura. “Nós precisamos fazer a coisa direito e esse é primeiro ponto. É uma necessidade, porque se somos melhores, somos mais competitivos. No final, o ESG beneficia todo mundo”, ressalta.

Luiz Carlos Bergamaschi, presidente da Abapa (Foto: Reprodução/Abapa)

Luiz Carlos Bergamaschi, presidente da Abapa (Foto: Reprodução/Abapa)

Educação profissional e inclusão

Uma das principais provas do comprometimento com a pauta ESG se dá na busca pelo desenvolvimento social e profissional. No Centro de Treinamento & Tecnologia da Abapa, que oferta cursos e treinamentos gratuitos para a comunidade, mais de 80 mil pessoas foram beneficiadas ao longo de 3,7 mil treinamentos que somam, ao total, cerca de 56 mil horas de carga horária.

Em breve, o C&T da Abapa vai contar com um espaço voltado exclusivamente para a capacitação de mulheres. A iniciativa, de acordo com Douglas Fernandes, coordenador do Centro de Treinamento, ocorre para dar oportunidade para aquelas que entenderam que a atuação junto ao agronegócio é possível para além das organizações sociais, e também para oferecer um ambiente acolhedor àquelas que desejam ascender profissionalmente.

“Desde 2010, quando o Centro de Treinamento desenvolveu as primeiras turmas, nós já tínhamos mulheres presentes. A particularidade é que elas compreenderam que ocupar esse espaço era possível ao longo dos anos, então criamos um projeto focado no público feminino porque entendemos que era necessário compreender a característica efetiva de como essas mulheres se comportavam ao longo dos treinamentos. Quando elas estavam em uma turma somente composta por um público feminino, elas se sentiam muito mais acolhidas e automaticamente era um grande sucesso”, destaca Douglas Fernandes.

Atualmente, a presença feminina é predominante na cadeia têxtil, onde 75% das pessoas empregadas são mulheres. Desse modo, para ampliar o leque de oportunidade de atuação, os cursos disponíveis no C&T contemplam o aprendizado em Mecanização Agrícola, Irrigação, Educação Continuada, Movimentação de Cargas, Aviação Agrícola, Contábil, Transporte Rodoviários e áreas afins.

A ampla oferta para profissionalizar os trabalhadores envolvidos na cadeia do algodão não se limita somente a área urbana. Desde 2019, na Fazenda Santa Izabel, do Grupo Franciosi, são oferecidos bolsas de até 50% e cursos para os empregados que ainda não têm educação superior formal. A ação faz parte da política de governança da empresa.

Para Daniele Pavanelo, gestora de Recursos Humanos do Grupo, a medida é essencial para o desenvolvimento do negócio. “Desenvolver as pessoas é algo muito importante para o Grupo, porque ele não cresce sem que as pessoas se desenvolvam e cresçam com ele. Para tocar tudo isso, já que são mais de 80 mil hectares que o Grupo abarca, são mais de 1.500 pessoas no total. É um desafio para nós do RH e da empresa, mas temos conseguido”, celebra.

Sustentabilidade

As boas práticas agrícolas que resultam em sustentabilidade ganharam força com a implementação do programa Algodão Brasileiro Responsável (ABR), que é fundamentado pelos pilares do ESG e tem respaldo nas legislações Ambiental e Trabalhista do Brasil. Desde que o programa foi iniciado na Bahia, em 2011, a área classificada como sustentável saltou de 21,1% na safra 2021/2022 para 86,1% na safra 2022/2023.

Para Yanna Costa, coordenadora de Sustentabilidade da Abapa, toda fazenda e usina de algodão deve ter a certificação para garantir o selo de sustentabilidade. “Hoje, várias marcas não compram o algodão se não provar que o produto passou pelos pilares da sustentabilidade. Então, essa é a realidade hoje. Minha dica para os produtores que ainda não têm suas fazendas ou usinas certificadas é: adeque-se. Basta eles procurarem a Abapa. Nós fazemos o diagnóstico e indicamos o caminho”, diz.

Yanna Costa coordena o setor Projeto de Sustentabilidade da Abapa (Foto: Reprodução/Abapa)

Yanna Costa coordena o setor Projeto de Sustentabilidade da Abapa (Foto: Reprodução/Abapa)

O primeiro passo é entrar em contato com o Projeto de Sustentabilidade da Abapa e agendar uma visita para diagnóstico da propriedade. Depois do diagnóstico, é feita uma avaliação e é dado um prazo para correções. Por fim, é feita uma auditoria para averiguar as condições para o recebimento ou não da certificação.

Outro programa sustentável de destaque da Abapa é a Patrulha Mecanizada, que surgiu em 2013, como um projeto para aquisição de máquinas, insumos e veículos auxiliares para reverter as más condições dos 7 mil km de estradas vicinais do Oeste da Bahia, por onde a safra é escoada até as rodovias e por onde chegam os insumos.

Desde sua criação, a Patrulha já asfaltou mais de 230 km de rodovias, assim como já fez a manutenção de mais de 6 km em estradas. O projeto, mantido pelo Instituto Brasileiro do Algodão (IBA), pela Associação de Agricultores e Irrigantes da Bahia (Aiba) e por produtores, auxilia na gestão da água na região ao permitir o aproveitamento da água das chuvas e ao ajudar a recarregar os lençóis freáticos por meio das barraginhas e bacias de contenção, construídas em pontos estratégicos nas estradas.

Ainda no que diz respeito ao meio ambiente, a Patrulha Mecanizada ajuda a evitar a erosão, lixiviação e empobrecimento do solo. Mas os benefícios vão além: há diminuição do tempo de trânsito e redução de custos com manutenção de caminhões, o que reflete no valor do frete; também há maior segurança e rapidez no transporte, o que gera melhores condições de trabalho.

Legado de gerações

Apesar de ser um tema tratado com ênfase na atualidade, os pilares do ESG não são produto do presente. É que, desde 1999, quando a cotonicultura passou a ser desenvolvida em larga escala e com ampla tecnologia para se recuperar da crise ocasionada pelo bicudo do algodoeiro na década de 90, as práticas voltadas para o desenvolvimento conjunto da sociedade, meio ambiente e da economia foram fundamentais para colocar o Brasil na prateleira dos maiores produtores e exportadores de algodão do mundo.

Criada no seio da Fazenda Santa Izabel, a administradora treinee Ana Paula Franciosi, 24 anos, lembra do cuidado que seus pais tinham com a natureza às margens da fazenda, quando ainda não havia nenhum estatuto para determinar a preservação do meio ambiente. “Veio deles esse cuidado com as matas ciliares e com o leito do rio ao redor da fazenda”, conta ela, sem esconder o orgulho.

Por outro lado, quando o tema é governança, Ana Paula admite que o agronegócio, de modo geral, deixa a desejar. É por isso que ela, enquanto uma das sucessoras do Grupo Franciosi, vê como continuidade do legado que tem sido deixado por seus pais a melhoria desse aspecto. Conforme afirma, esse tem sido um dos principais objetivos do Grupo desde 2016. “Tivemos um maior investimento em pessoas através de investimentos em planos de saúde, na profissionalização e educação. Para muita gente, essa onda está vindo agora, mas para nós já começou há muito tempo”, diz.

Ana Paula Franciosi é sucessora e administradora trainee do Grupo Franciosi (Foto: Reprodução/Abapa)

Ana Paula Franciosi é sucessora e administradora trainee do Grupo Franciosi (Foto: Reprodução/Abapa)

Filho dos lavadores Eliosina Ribeiro, 75 anos, e Dionísio Ribeiro, 78 anos, o gerente administrativo do Grupo Franciosi, Edinaldo Ribeiro, 36 anos, ainda tem memórias de seus pais colhendo algodão na mão, em uma época em que todo o trabalho da cadeia produtiva do produto era predominantemente manual. Como resultado do trabalho de décadas, o investimento na educação dos filhos foi o legado que possibilitou Edinaldo a obter a formação para o desenvolvimento da sua atual profissão.

“Eu entendi que meus pais se esforçaram muito porque eles queriam que nós tivéssemos uma educação para poder trilhar o caminho deles, mas em outras vias, com mais educação e possibilidades. Hoje eu tenho um filho de 4 anos e trago ele com frequência para conhecer e ver o pé de algodão. Na escola, ele consegue dizer com que o pai dele trabalha. É uma das minhas atividades zelar pelo meio ambiente, especificamente dos rios e das veredas que nós temos aqui na fazenda”, relata Edinaldo.

Edinaldo Ribeiro é gerente administrativo do Grupo Franciosi e faz parte da segunda geração de produtores da sua família (Foto: Larissa Almeida)

Edinaldo Ribeiro é gerente administrativo do Grupo Franciosi e faz parte da segunda geração de produtores da sua família (Foto: Larissa Almeida)

Primeira vice-presidente da Abapa, Alessandra Zanotto enfatiza que o agronegócio, hoje, é feito por gerações e aponta benefícios nisso. “Fazendas e empresas que são formadas por várias gerações tendem a ter muito mais sucesso do que empresas e fazendas que conta com executivos de fora. Eu atribuo isso ao amor. Meus pais contam a história deles com amor e é fantástico. Daí a importância de fortalecer a história para que as gerações futuras carreguem isso, independente da mudança cultural e inovações”, conclui.

Publicado no dia 18 de setembro de 2023


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