João Cabral é o poeta honorário do Aborto Vicário
Um poeta “sem Alma”
Poesia, ateísmo, música
João Cabral é o poeta honorário do Aborto Vicário
Um poeta “sem Alma”

Preciso começar este texto com uma confissão: eu não conhecia João Cabral de Melo Neto.
Não sou especialista em sua obra, não estudei profundamente sua poesia e não pretendo, neste texto, ocupar o lugar de quem dedicou anos à pesquisa sobre o poeta. Meu contato com Cabral aconteceu de maneira bastante circunstancial: fiquei sabendo de forma quase aleatória.
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E vou participar com o Aborto Vicário.
Foi justamente a preparação para essa participação que me levou a pesquisar Cabral. E aconteceu algo que considero bastante curioso: quanto mais eu conhecia sua concepção de poesia, mais percebia uma proximidade inesperada com aquilo que venho fazendo no Aborto Vicário.
Não porque Cabral fosse punk. Não era.
Não porque escrevesse sobre os mesmos temas que nós.
Mas porque existe uma afinidade muito mais profunda: a maneira de compreender a própria construção poética.
A poesia não caiu do céu
Uma das coisas que mais me chamou atenção em João Cabral é sua rejeição daquela imagem romântica do poeta como alguém que recebe uma inspiração quase sobrenatural e simplesmente coloca no papel aquilo que lhe foi revelado.
Cabral valorizava o trabalho, a técnica, a construção, a precisão.
O poeta, nesse sentido, se aproxima muito mais de um artesão ou de um engenheiro do que de um profeta.
E isso me interessa particularmente.
Porque existe uma ideia muito disseminada de que a arte possui alguma espécie de conexão privilegiada com o transcendental. Como se a música, a poesia e a literatura fossem territórios naturalmente ligados à alma, à espiritualidade ou à revelação.
Cabral mostra que não precisamos aceitar essa premissa.
Podemos começar pela matéria.
Pela palavra.
Pelo ritmo.
Pelo corpo.
Pela pedra.
Pelo rio.
Pela lama.
Pela morte.
E construir alguma coisa a partir daí.
Isso não significa que Cabral tenha formulado uma teoria segundo a qual “a poesia é racional”, ou que poesia seja simplesmente uma espécie de matemática. Seria uma simplificação. O que me parece mais correto dizer é que ele desmistificou o processo poético, enfatizando o trabalho consciente de composição.
E isso conversa diretamente com o Aborto Vicário.
Um poeta ateu
Outro aspecto me chamou particularmente a atenção: João Cabral era ateu declarado.
Ele falou sobre isso em entrevistas. Sua formação religiosa no Colégio Marista foi uma experiência da qual posteriormente se afastou, e ele chegou a falar explicitamente sobre seu “desencontro com Deus”.
Há uma declaração particularmente significativa para mim: Cabral comentou que não costumava sequer utilizar a palavra “Deus” em seus livros.
Isso não significa que sua poesia precise ser classificada simplesmente como “poesia ateísta”. Essa seria outra simplificação.
O que me interessa é algo mais profundo: Cabral demonstrou, na prática, que é possível produzir uma poesia profundamente humana sem precisar recorrer à transcendência como fundamento.
E isso é extremamente importante para o projeto do Aborto Vicário.
Usar religião não significa acreditar nela
Existe aqui uma questão que considero importante esclarecer.
João Cabral utilizou imagens, referências e estruturas religiosas em sua obra. O Aborto Vicário também utiliza — e utiliza muito.
Isso não é uma contradição.
Existe uma diferença fundamental entre usar uma imagem religiosa e acreditar naquilo que ela representa.
Um ateu pode escrever sobre Deus, anjos, inferno, pecado, santos, crucificação, oração ou ressurreição sem acreditar em nenhuma dessas coisas.
A religião não é apenas uma crença. Ela também é cultura, história, linguagem, símbolo e iconografia.
E nós vivemos em uma sociedade profundamente marcada pelo cristianismo.
O Brasil possui uma história majoritariamente cristã. Nossa literatura, nossa arquitetura, nossa música, nossa pintura, nossas festas populares, nossa linguagem e até nossa maneira de falar sobre morte e sofrimento foram profundamente influenciadas pelo cristianismo.
E isso vale para o Ocidente de maneira ainda mais ampla.
Portanto, não vejo qualquer contradição em um artista ateu utilizar esse repertório.
Pelo contrário.
O artista não precisa acreditar em um símbolo para utilizá-lo.
Um crucifixo pode ser utilizado para falar de sofrimento, violência, poder, sacrifício ou resistência sem que o artista acredite que aquele objeto tenha qualquer poder sobrenatural.
Uma imagem de Nossa Senhora pode ser utilizada para falar de maternidade, submissão, gênero ou cultura.
Uma Bíblia pode aparecer como objeto literário, histórico ou político.
Um santo pode ser personagem.
Uma oração pode virar música.
Um altar pode virar cenário.
E tudo isso pode ser feito por um ateu.
É exatamente o que o Aborto Vicário faz.
Nós não abandonamos os símbolos cristãos porque somos ateus.
Nós nos apropriamos deles porque eles fazem parte da cultura que queremos questionar.
E, nesse aspecto, existe uma proximidade interessante entre Cabral e o Aborto Vicário.
O suposto monopólio religioso da arte
Existe, dentro do movimento ateísta, uma discussão recorrente sobre a necessidade de produzir e divulgar mais arte, literatura e poesia não religiosas.
Eu entendo essa preocupação.
Durante séculos, a religião ocupou um espaço enorme na produção artística. Não apenas porque muitos artistas eram religiosos, mas porque a própria religião fornecia uma linguagem para falar sobre morte, sofrimento, amor, culpa, esperança, natureza e existência.
O problema começa quando essa constatação histórica se transforma numa conclusão filosófica:
“A arte precisa da religião.”
Não.
A arte pode utilizar a religião como tema.
Pode questioná-la.
Pode defendê-la.
Pode ironizá-la.
Pode ressignificá-la.
Pode abandoná-la.
E pode simplesmente não precisar dela.
É nesse ponto que João Cabral se torna particularmente interessante para mim.
Ele não precisou transformar toda a sua poesia em uma cruzada contra Deus.
Ele simplesmente demonstrou que era possível olhar para o mundo — para a matéria, para o sofrimento, para a morte, para a desigualdade, para a natureza — e construir poesia sem colocar uma divindade entre o observador e aquilo que está sendo observado.
É por isso que João Cabral é o poeta honorário do Aborto Vicário
“Poeta honorário do Aborto Vicário” é obviamente uma brincadeira minha.
Cabral não tem nenhuma relação histórica com a banda. Não era punk, não conheceu o Aborto Vicário e certamente não escreveu pensando em uma banda digital ateísta décadas depois de sua morte.
Mas, simbolicamente, eu reivindico essa homenagem.
Porque encontro nele uma espécie de ancestral estético inesperado.
O Aborto Vicário fala de morte, religião, poder, desigualdade, sofrimento, corpo e existência. E Cabral passou boa parte de sua obra olhando para a realidade concreta da existência humana.
Ele não precisava transformar tudo em transcendência.
Às vezes havia apenas uma pedra.
Um rio.
Um corpo.
Uma pessoa.
Uma morte.
Uma vida tentando sobreviver.
E isso já era suficiente para fazer poesia.
Uma música especialmente para Cabral
Para a live de hoje, preparei uma composição inédita do Aborto Vicário inspirada justamente nessa dimensão materialista e ateísta de Cabral.
Não utilizei versos de João Cabral. A música é uma composição original.
O que fiz foi tentar dialogar com algumas características que descobri em sua obra: a concretude, a secura, a reflexão sobre a morte, a ausência de transcendência e a ideia de que a poesia pode ser construída a partir da própria matéria.
A música parte de uma pergunta simples:
quando alguém morre, por que continuamos sentindo sua presença?
Talvez a resposta não esteja em um espírito.
Talvez esteja na memória.
No cérebro.
Naquilo que ficou de uma pessoa dentro de outra.
A morte pode ser compreendida sem que precisemos inventar uma porta para outro mundo.
E é daí que nasce a música.
Mas a homenagem não ficará restrita à composição inédita. Também vou apresentar duas músicas que já faziam parte do repertório do Aborto Vicário.
Quando comecei a estudar Cabral, percebi que essas duas composições, embora não tenham sido escritas pensando nele, dialogavam fortemente com temas que aparecem em sua obra.
Isso tornou a experiência ainda mais interessante.
Não estou tentando transformar João Cabral em um “poeta punk”.
Estou fazendo o contrário: estou tentando descobrir por que um poeta brasileiro do século XX, que eu praticamente desconhecia até agora, parece conversar tão bem com uma banda que nasceu décadas depois dele.
O Aborto Vicário não precisa de Deus para fazer poesia
Talvez essa seja a principal razão pela qual eu tenha gostado tanto de descobrir Cabral.
O Aborto Vicário não quer apenas produzir músicas contra a religião.
Isso seria pouco.
O desafio maior é mostrar que não precisamos da religião para produzir arte, poesia, música, beleza, indignação, reflexão ou sentido.
Podemos falar sobre a morte sem céu.
Sobre o amor sem alma.
Sobre a moral sem Deus.
Sobre a existência sem propósito cósmico.
Sobre a dor sem pecado.
Sobre a esperança sem promessa sobrenatural.
E podemos fazer isso utilizando a própria matéria-prima da experiência humana.
A palavra.
O corpo.
A memória.
A música.
O chão.
Talvez seja justamente aí que João Cabral encontre o Aborto Vicário.
Não na religião.
Não na ausência dela.
Mas na possibilidade de transformar o mundo concreto em poesia sem precisar de uma explicação sobrenatural para torná-lo significativo.
É por isso que, pelo menos durante esta homenagem, João Cabral ganhou um título honorário dentro do universo do Aborto Vicário:
João Cabral de Melo Neto, poeta honorário do Aborto Vicário.
Hoje, às 20 horas, estarei ao vivo no Poeticom, no canal de Marcos Cavalcanti, levando o Aborto Vicário para essa homenagem.
Eu cheguei a João Cabral por causa da live.
E talvez a melhor homenagem que eu possa fazer seja justamente esta:
continuar aprendendo com ele.
메타데이터
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