O Mito da IA e a obsolescência programada do emprego
Enquanto algumas empresas acham que estão na vanguarda por usarem a inteligência artificial para automatizar tarefas, outras já entenderam…

O Carro de Feno, de Hieronymus Bosch. Copyright ©Museo Nacional del Prado
O Mito da IA e a obsolescência programada do emprego
Enquanto algumas empresas acham que estão na vanguarda por usarem a inteligência artificial para automatizar tarefas, outras já entenderam o real significado da IA como ferramenta para amplificar resultados sem sacrificar os profissionais.
Quando eu tinha 7 anos, vi um disquete pela primeira vez. Ouvi minha mãe e uma colega de trabalho rirem da camisinha para disquetes, uma pequena fita adesiva preta colocada sobre um orifício para impedir a gravação do disquete e uma possível infecção pelo vírus do momento, o “Sexta-Feira 13”. O diabo do vírus, cujo nome canônico era Jerusalem — por ter sido descoberto na Universidade Hebraica de Jerusalém, em outubro de 1987, era responsável por destruir os arquivos executáveis .exe e .com infectados que fossem abertos em uma sexta-feira 13.
Vivi para ver a informática acabar com a função dos datilógrafos. Vi o bug do milênio ser evitado depois de anos de preparação e, ainda assim, virar piada porque a catástrofe prevista não aconteceu. Vi a computação distribuída ganhar escala e, depois, a computação em nuvem transformar a forma como empresas operavam sua infraestrutura. Da internet discada depois da meia-noite ao ADSL, do bitcoin às redes neurais artificiais, participei, em maior ou menor escala, de todos os grandes eventos da computação moderna.
Na década de 2010, a IA começou a adquirir a forma pela qual as pessoas passaram a enxergá-la, na onda do Machine Learning. Os pioneiros eram algo como uma mistura de tecnologias como reconhecimento de voz, compreensão de linguagem, classificação de intenção e extração de entidades, com a Siri em 2010–2011 e a Alexa em 2014.
Não pretendo reconstruir aqui a história da inteligência artificial. Isso nos levaria a quase 100 anos de história, passando pela máquina de Turing, pelos perceptrons, pela linguagem Lisp e por muitos outros marcos. Meu foco é algo concreto: pessoas sem conhecimento dessa história passaram a rotular a IA como uma coisa extremamente moderna e assustadora, uma assassina de empregos e um moedor de carne.
Em meu penúltimo emprego, em uma empresa americana, houve a adoção em massa dos modelos de IA da Anthropic. A ideia era melhorar a produtividade. O que aconteceu a partir desse ponto foi uma sucessão de erros de gestão que transformaram a empresa em um verdadeiro inferno.
Em poucos meses, a cobrança por produtividade passou a ter como medida “métricas de mercado” tiradas das vísceras digestivas de um gestor assustado. Havia cobrança por resultados que eram apenas números, sem qualquer efeito prático. Havia reuniões motivacionais nas quais se falava abertamente em substituir pessoas que não estivessem entregando o esperado.
A produtividade aumentou. As entregas ocorriam em uma velocidade espantosa, quase tão veloz quanto a atualização dos currículos e perfis do LinkedIn desses profissionais.
Quando fui demitido dessa empresa, fiquei realmente aliviado. Senti como se um demônio tivesse sido exorcizado. Pela primeira vez em meses, dormi tranquilo, sem medo da próxima reunião.
Levei duas semanas para me realocar. Foi bem menos do que eu esperava. Essa nova empresa respira IA. Tudo, até o produto, roda sobre LLMs, e quase não existe espaço para o trabalho manual não guiado por IA.
Exceto por um ponto: a gestão enxerga a IA como uma ferramenta. Nada mais.
Quando tentei automatizar um teste não determinístico, fui orientado a não seguir por esse caminho. Era mais importante o meu feedback enquanto humano do que um relatório em Markdown.
Essa empresa é uma startup construída ao redor de LLMs. Talvez, por isso, ofereça uma ideia de como outras empresas trabalharão nos próximos anos. O que vejo nela é um time com programadores, designers, QA (prazer, eu), e outros profissionais que lembram muito os de uma empresa tradicional.
E a IA, a ferramenta.
A produtividade é enorme. Tarefas que antes demoravam dias podem ser concluídas em horas. Mas o medo de ser substituído não existe aqui.
Meu CLAUDE.md tinha uma diretiva para garantir a qualidade da entrega a qualquer custo, mesmo que discordando de mim e assumindo a responsabilidade pelo resultado. Quando mostrei ao meu gestor, esperando ouvir um “nossa, como você é inteligente”, ouvi dele que aquele prompt estava errado. Que a IA, enquanto ferramenta, não era dona de nada. Que eu era o verdadeiro motor por trás do que ela fazia.
Refiz meu prompt. Lembrei, depois de meses, que sou humano e que fui contratado para fazer aquilo que sei.
A IA não tornou meu trabalho obsoleto. Na primeira empresa, ela foi usada para tornar pessoas descartáveis e inflar números, escondendo uma péssima gestão incapaz de responder ao mercado. Na segunda, é usada para remover trabalho mecânico e permitir que as pessoas façam aquilo que sabem fazer.
A obsolescência programada do emprego não acontece quando uma máquina aprende a executar uma tarefa. Ela acontece quando uma empresa redefine o trabalho de modo que nenhum ser humano pareça produtivo o bastante. Quando metas, métricas e expectativas são ajustadas até que o profissional esteja sempre atrasado, sempre devendo e sempre ameaçado pela ferramenta que deveria ajudá-lo.
A IA não é a assassina de empregos. Ela também não é a salvadora do trabalho. É uma ferramenta. Só uma ferramenta. E quem decide o que ela amplifica ainda somos nós.
메타데이터
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