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As maquinarias

Sem nuvens, o céu límpido desagradava os olhos do menino. Desde muito pequeno, ele gostava de olhar as maquinarias do firmamento e pensar…

Lucas Alvez · 2025-07-03 12:39 · 1 claps · 3.1 min read
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As maquinarias

Sem nuvens, o céu límpido desagradava os olhos do menino. Desde muito pequeno, ele gostava de olhar as maquinarias do firmamento e pensar qual seria a próxima invenção a resplandecer acima da sua cabeça. Muito embora estivesse frustrado, a tarde não estava perdida porque a relva acariciava o seu corpo por inteiro e aquilo era o sinal da aventura. Quando o véu da sua visão baixou, o menino decidiu voar para longe.

— Que tá fazendo, moleque? — disse uma voz vindo do alto. Alguém tapava o sol, deixando sua sombra projetada em cima do garoto.

— Tô brincando, papai — respondeu abrindo os olhos.

A fisionomia dos dois entregava o parentesco, entretanto as semelhanças se esgotavam nos traços físicos. “Que moleque estranho, não tem um amigo pra brincar”. Para o pai, faltava ao filho o ímpeto da masculinidade, o desejo de desbravar o mundo e se arriscar por uma aventura qualquer. Ao longe, o homem divisou um rapaz robusto rodeado por algumas meninas. Aquele sim era o seu orgulho, não podia ver um rabo de saia que ia logo atrás. “Cuide das suas cabra que o meu bode tá solto”, pensou com um largo sorriso no rosto. Chamou o seu filho mais velho com um aceno e foi prontamente atendido.

A sombra do irmão também se projetou pelo corpo delgado do menino, mas o pequeno nem percebia. Com os olhos novamente fechados, ele já se preparava para o seu voo até que sentiu uma dor no ombro. “Bora, levanta”, ouviu alguém falar. Mais uma vez o seu voo foi interrompido, agora pelo seu irmão. Seguiram juntos até o pequeno campo de futebol da praça e se sentaram num banco. Era o banco de jogadores reservas.

Dois times se rivalizavam, chutando a bola de um lado a outro. A areia tomava conta do campo e subia pelo ar, transformando-se num estorvo para quem, como o menino, queria ver o céu. “Ele é o próximo”, gritou o irmão para os jogadores, que nem deveriam chegar à altura do seu peito. Sem mais nada dizer, ele se levantou e saiu em direção à sua turma de garotas.

O menino ficou quieto no banco, deixando a vista percorrer o trajeto da bola, que se arrastava em meio àqueles pés sujos. As risadas se misturavam à raiva e aos gritos entre os adversários, bem como entre os integrantes do time perdedor. O jogo avançava para três gols a zero.

— Vou mais não — gritou um dos jogadores. — Bando de povo ruim. Ele fica no meu lugar, pronto.

O dedo em riste apontava para o menino e, por um instante, o banco de reservas pareceu-lhe um precipício. Aquele jogo o desagradava muito mais que o céu coberto de areia. O céu coberto de areia ao menos era o céu. Levantou-se e voltou correndo para o lugar de onde nunca deveria ter saído, para a grama. Mal deitando entre as flores, o seu pai apareceu bem à sua frente. A forma como o homem o fitava já dizia mais que qualquer palavra. Estava de castigo.

O menino foi levado pelas orelhas até à sua casa, o pai irritado puxava sem o mínimo sentimento de pena. O pequeno desconhecia os motivos, só escutava os resmungos entredentes e se entristecia pelo céu. Lá no alto, as nuvens começaram a surgir e exatamente agora ele estaria preso em seu quarto.

Não, não estaria. De castigo, mas decidido a se aventurar, o menino fugiu às escondidas pela janela do quarto. Correu o mais rápido que pôde de volta para a praça e o seu pai só se deu conta do sumiço depois de muito tempo.

“Pelo menos o moleque não é tão frouxo como eu acreditava”. Enquanto observava a janela aberta, viu ao longe o seu filho deitado sobre a grama. Bufou de raiva, tamanha petulância. Fugir para se aventurar é uma coisa, mas para se deitar na grama? Consumido pela fúria que lhe subia o corpo, o homem saiu de casa às pressas. A cólera só se esgotaria quando a sua mão golpeasse aquele moleque.

— Vê se aprende a ser homem, se levanta dessa grama! — gritou o pai arrancando o cinto de sua calça.

— Não dá, papai. Eu já estou voando.

Ninguém parecia ser capaz de entender. Naquele lugar, ao olhar para as nuvens, o menino testemunhava a invenção de um pássaro, produzido pelas maquinarias do firmamento. Enquanto isso, se alguém se dispusesse a ver bem, testemunharia nas costas do menino a invenção de duas asas produzidas pela maquinaria da imaginação. Ele não podia aprender a ser homem porque agora ele era um pássaro.


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