Não tão diferentes assim
Personagens de produções da Netflix parecem únicos, mas são comuns como na vida real
Não tão diferentes assim
Personagens de produções da Netflix parecem únicos, mas são comuns como na vida real
O filme “Felicidade por um Fio” (2018), indicado por uma amiga que se sentiu representada em uma fase de sua vida, me fez perceber que a Netflix está abordando assuntos atuais, muitas vezes polêmicos, e com personagens da vida real.
A produção conta a história de uma mulher negra que sofre a pressão do padrão de beleza e alisa os cabelos antes mesmo de se levantar da cama. Cansada de se privar de coisas simples da vida, como entrar na piscina no verão, ela decide raspar o cabelo e começar uma transição capilar, deixando os fi os afros naturais crescerem. Além do papel principal ser interpretado por uma mulher negra, a representatividade aumenta quando se trata de assumir os cabelos naturais, tema em alta e retrata uma questão do cotidiano.

Era comum ver nas telonas mulheres, em sua maioria, com cabelos lisos, sempre altas e magras. Aos poucos os tipos “diferentes” ou da vida real vão ganhando cada vez mais espaço, mostrando outros tipos de cabelo, corpo e belezas. Independente das características físicas, esses personagens não são tão diferentes, pois são inspirados em pessoas reais.
Pensando nisso, comecei a observar em outros filmes que se encaixam nesse perfil. A produção francesa “Eu Não Sou um Homem Fácil” (2018), além de trazer à tona o machismo implícito na sociedade, discute a sensibilidade dos homens ao mostrar que não existe certo ou errado quando se demonstra os sentimentos.
Os longa-metragens “Dumplin” (2018) e “Megarromântico” (2019), também originais da Netflix, colocam atrizes plus size em posição de destaque. Ao inserir personagens gordos fora do estereótipo explorado pelo gênero comédia, essas produções fazem com que o espectador se identifique e se sinta representado.
Esse tipo de abordagem e de produção ganha cada vez mais público por encenar a vida como ela é, por estar cada vez mais próxima do cotidiano e por priorizar a representatividade social.
Segundo a antropóloga e professora da Universidade Guarulhos (UNG), Ana Cláudia Fernandes, o desejo de identificação com personagens por parte do espectador muitas vezes vem da necessidade de se ver e até mesmo de enxergar o que gostaria de ser. “As representações são importantes para mostrar que aquela característica, seja ela física ou mental, é normal e não tem nada de diferente nisso”, conta.
Apesar das produções e das abordagens estarem mudando aos poucos, ainda existe um público que não foi representado nos originais Netflix, como aqueles que possuem doenças crônicas e de pele, por exemplo, o vitiligo. Esses personagens se encaixariam perfeitamente nessa nova leva de filmes, que retratam pessoas reais, com sentimentos, problemas e preconceitos, e que, em um futuro próximo, podem protagonizar e representar uma sociedade em uma produção cinematográfica.
Matéria publicada na Revista Cultcom #3: https://issuu.com/jornalismoung/docs/revista_cultcom_ed3_i?fbclid=IwAR2yH9Ut-mqJw6H5P8aiw6SjYcorysRgX1YBw7Ml9LuEjhoG7QkXGJ6gHzo
Ilustração: Matheus Deiró https://www.instagram.com/math.com.h/ (@math.com.h)
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