Eu odeio todos os perfeccionistas do mundo. Inclusive eu mesma.
Sobre começos, perfeccionismo e o jeito mais sofisticado de não fazer nada.
**Eu odeio todos os perfeccionistas do mundo. Inclusive eu mesma.**
Sobre começos, perfeccionismo e o jeito mais sofisticado de não fazer nada.

Se não fosse claramente AI, poderia ser eu. Até o frizado do cabelo é parecido.
- Qual é o seu maior defeito?
Eu facilmente poderia dizer um zilhão, afinal, eu me conheço melhor que ninguém. Sou desatenta, manipuladora, talvez tenha traços narcisístico, passo com 100% de acerto em qualquer prova para doença mental de internet, sou péssima com relacionamentos humanos, pior ainda cuidando de plantas…
Prefiro gatos a cachorros.
Mas a gente vai responder qualquer uma dessas coisas para a moça do RH na nossa frente?
Claro que não.
Ela te olha com um sorriso leve, balançando a caneta na mão direita, enquanto espera a resposta.
Troca a posição das pernas e você sabe que deve responder rápido porque já passou mais segundos que o necessário numa pergunta que todo mundo já sabe a única resposta aceitável:
- Sou um pouco perfeccionista.
Respondo com um sorriso que esconde aquela sensação de culpa por ter mentido que está descendo na sua garganta me fazendo pensar valeu a pena.
Mas eu sou só mais uma vendida nesse sistema capitalista que precisa de um salário no fim do mês.
Então valeu a pena mentir, não é?
Valeu a pena fazer esse elogio disfarçado, não é?
Valeu a pena continuar na segurança das convenções sociais, não é?
Valeu a pena controlar a imagem que outra pessoa tem sobre a gente, não é?
Não é?
Porque agora a moça do RH, vai pegar aquela caneta balançante e vai escrever que nós somos melhores, mais cuidadosos, mais detalhistas…
Mais corretos.
Então valeu a pena não falar a verdade.
Que não somos um pouco perfeccionistas.
Somos perfeccionistas pra caralho.
Não me entenda mal, eu realmente achava que ser perfeccionista era incrível.
E, convenhamos, perfeccionismo tem uma boa reputação.
Novelas e seriados fazem pessoas bem sucedidas serem perfeccionistas quase a ponto de terem TOC.
Lá, esses personagens são incríveis no alto de suas torres, em escritórios grandes, escuros, trabalhando até tarde. Não importa se é mocinho, vilão, personagem secundário… O bem sucedido é limpo, organizado e perfeccionista.
E o ser humano não é burro.
Se uma vez te é mostrado algo, você olha para aquilo como um detalhe daquele personagem.
Mas se te mostram em diversos personagens bem sucedidos, em zilhões de perspectivas diferentes, você vai detectar um padrão e quanto mais te mostram aquilo, mais você começa a ligar os pontos a ponto de pensar que sucesso está diretamente conectado com aquele detalhe.
Perfeccionismo não é o sucesso, mas tudo indica que leva as pessoas ao sucesso.
Fora isso, você vê pessoas no seu dia a dia que são caprichosas, detalhistas e fazem um trabalho melhor e são recompensadas primeiro.
Mas você não tem acesso à história de vida dessas pessoas, só tem acesso às histórias dos personagens que são construídos para a gente se apegar a eles, para querer acompanhar a história. São milimetricamente projetados para a gente admirá-los.
E um traço do ser humano é querer se parecer com algo que a gente admira.
Talvez tenha sido essa mistura de informação que gerou um pensamento perigoso na mente de algumas pessoas: “talvez eu devesse ser mais perfeccionista se eu quiser ser bem sucedido”.
Não detalhista, não caprichoso: perfeccionista.
Agora imagina isso acontecendo com milhares de pessoas ao mesmo tempo.
E os que conseguem esse traço de caráter vão evoluindo mais cedo e mais rápido na carreira, porque o perfeccionismo traz traços realmente importantes: seriedade, detalhismo, disciplina, comprometimento com a qualidade, senso de responsabilidade e busca constante por melhoria…
E isso reforça ainda mais a ideia na mente das pessoas:
Perfeccionismo não é o sucesso, mas tudo indica que leva as pessoas ao sucesso.
E isso analisando só a parte que veio do entretenimento. Poderíamos chegar à mesma conclusão pegando qualquer outra perspectiva do século passado e vendo como a cultura fez todo mundo chegar à ideia de que perfeccionismo é uma coisa boa.
No fim, a equação parece fechada:
Perfeccionismo = disciplina = sucesso.
E isso reforça mais a ideia:
Perfeccionismo não é o sucesso, mas tudo indica que leva as pessoas ao sucesso.
Faz sentido.
O problema é que não é bem assim que funciona. Ou pelo menos, pra mim funcionou de um jeito bem diferente.
O ano era 2012 quando eu resolvi criar um blog…
Outra mentira. O ano era 2005. A época em que a internet era mato e precisava ser desbravada.
Todo mundo queria um fotolog. Todo mundo chegava da escola e ligava o MSN. Os blogs começavam a fazer sucesso e o Orkut expunha a vida de gente comum
Até no design, tudo era colorido, transparente e exposto.
E o que eu via era potencial. Naquela época eu tinha 14 anos e uma capacidade embrionária de previsão de tendências e futuro. Ainda estava arranjando pauzinhos para criar o que mais tarde seria a minha tendinha de advinhação (depois vocês vão entender sobre isso).
E eu sabia que a internet era o futuro.
Criei um blog. Que nunca foi pro ar. Afinal: quem iria querer ler algo de uma adolescente descabeceada? Cujo maior dilema da vida era ir para a escola ou decidir se vai ficar viva por mais um dia?
Melhor me aperfeiçoar como ser humano.
Em 2012, eu comecei a trabalhar, via que o Youtube estava em alta, quis me expor… Mas falar sobre o quê?
Melhor me aperfeiçoar como profissional.
2015, 2017, 2018… E estamos em 2026.
E por motivos que vamos explorar nas outras partes dessa série, eu resolvi fazer um Medium.
Não uma marca pessoal milionária, nem uma revista.
Só um lugar pra escrever sobre comportamento humano, tendências, sobre o mundo indo pro buraco de formas muito interessantes.
E aí o que aconteceu?
Oxi, eu escrevi o texto. O que mais podia ter acontecido?
E depois reescrevi, vi que não tava bom, joguei ele fora, fiz a arquitetura de outro texto, escrevi de novo e continuava chato. Joguei tudo fora.
Fiz uma automação para criar os textos pra mim e todos ficavam ruins. Imperfeitos.
E eu pensei seriamente em desistir.
Porque se não for pra ser bom, pra que começar?
Mas… eu não sou assim em outros cantos também?
Eu não demorei 3 dias para decidir qual peça iria pro meu portfólio? Eu já não demorei uma hora pra escrever uma mensagem? Uma hora. Numa mensagem. Pra um desconhecido.
Em geral, demoro cinco dias pra qualquer coisa miserável que eu decida fazer.
E eu sempre achei que isso era porque eu era exigente. Caprichosa. Detalhista.
Perfeccionista, no bom sentido.
Será que eu não sou apenas… controladora?
Se eu controlar tudo o suficiente, nada dará errado.
Essa é a promessa que o perfeccionismo vende. Como diz o ditado: o golpe tá aí, cai quem quer.
Muita gente quer. Porque, convenhamos, a outra opção dói pra caramba. Errar, ser criticado, ser rejeitado… Vai dizer que isso não dói?
Então o perfeccionismo aparece com uma proposta sedutora:
“Você não precisa correr riscos. Só precisa se preparar mais um pouco.”
Sedutor, não?
O curioso é que o perfeccionismo raramente se apresenta como medo.
Ele chega vestido de responsabilidade, profissionalismo, qualidade, comprometimento.
Ele chega num sapatinho de algodão sussurrando no seu ouvido: “não é medo de falhar, é só porque ainda não está pronto.”
E é aí que mora o golpe.
Porque na prática o que queremos é a excelência. Achamos que estamos em busca dela. Que somos melhores por buscar ela.
E viramos pessoas que querem controlar tudo.
Ah, não, desculpa, não podemos chamar de controle, temos que chamar de: perfeccionismo.
Excelência quer criar algo bom. Você não. Eu não.
Excelência e perfeccionismo parecem irmãos. Mas não são.
Um quer criar algo bom, é orientado para resultados, aceita risco, executa, erra.
O outro quer impedir. Incertezas, erros, rejeição.
Só que existe um pequeno detalhe inconveniente: ninguém nunca vai ser perfeito porque ninguém nunca vai ser completo.
Todo ano sai atualização do seu produto favorito porque o anterior faltava algo.
E nem é só por capitalismo: é porque você está em constante movimento, sua vida muda, e o que em algum momento foi perfeito, agora não serve mais.
Até o universo tá em expansão!
E se vida é movimento, a perfeição nasce morta. Por padrão, a perfeição é algo que jamais vai existir ao longo do tempo.
Porque perfeição exige imobilidade. E o tempo não para.
O que cria uma situação curiosa:
Se você não produz algo imperfeito, você não produz nada.
No fim, o perfeccionismo é uma das formas mais socialmente aceitas de ficar parado.
Procrastinação ganha o nome bonito de “ser criterioso”. Paralisia vira refinamento. Medo? Jamais! É cuidado.
Muito conveniente.
E sabe o que é pior nisso tudo?
O fracasso de um projeto dói. Mas ele dói uma vez. Já o perfeccionismo dói todos os dias.
Toda vez que você olha para algo que poderia existir e não existe somente porque ainda não está bom o suficiente.
Como eu disse… era 2012 quando eu pensei em fazer um blog.
Tic. Tac. O relógio não para.
E a vida não faz acordos.
Então a solução é tacar o foda-se
Sim, isso mesmo… Prossigamos.
Não, sério. É só isso. E eu poderia terminar aqui se fosse tão fácil quanto eu estou falando. O problema real são alguns dilemas que acontecem na mente do perfeccionista.
Eu não posso te dizer sobre a sua, mas na minha, no momento são esses os problemas:
- Quero começar e quero parecer competente ao mesmo tempo.
- Quero aprender e quero evitar erros ao mesmo tempo.
- Quero ser autêntica e quero controlar como sou percebida ao mesmo tempo.
E essas coisas não coexistem.
Você não pode aprender sem parecer iniciante. Não tem como. O aprendizado é, por definição, um processo público de incompetência temporária.
Não existe aquela história de “modo caverna” onde você sai de lá como CEO bilionário protagonista de minidrama chinês masculino.
Você não pode ser autêntica e controlar totalmente sua imagem ao mesmo tempo.
Todo começo exige sacrificar um pouco da própria reputação.
E o perfeccionismo é exatamente a estratégia que o cérebro encontrou pra nunca ter que fazer esse sacrifício.
Se eu não começo, eu não posso ser julgada.
Se eu não publico, ninguém pode dizer que está ruim.
Se eu nunca apareço como iniciante, ninguém vai me ver errar.
Lindo, não é?
Admirável a criatividade do nosso cérebro pra nos sabotar de um jeito que parece virtude.
E só tem um jeito de resolver isso. Advinha qual é?
O motivo real de eu odiar perfeccionistas.
Se você achou que o título era clickbait, errou!
É verdade.
E tem vários motivos de eu odiar perfeccionistas.
O de hoje… Bem, vou falar do traço humano pelo qual a gente não consegue odiar coisas abstratas e por isso redireciona esse ódio a pessoas que simbolizam aquilo.
O do próximo post vai ser pela covardia.
E também tem o motivo de que eu simplesmente acordei pensando em odiar algo hoje e escolhi aleatoriamente os perfeccionistas. Amanhã serão os gurus de produtividade ou os visionários. Talvez os otimistas…
Não somos preconceituosos, odiamos todos por igual, apenas em dias diferentes.
Se bem que sim, você foi meio enganado, porque esse falatório todo começou porque eu tinha um inimigo pessoal chamado folha em branco, ao qual matei escrevendo “Primeiro dia de Medium, oi, pessoas, tudo bem?”
Depois disso, o perfeccionismo atacou e resolvi criar um texto que mostrasse quem eu sou, sem me apresentar.
Mas na prática, eu só queria dizer coisas simples como:
Esse Medium vai ser imperfeito.
Vamos falar sobre comportamento humano, mercado e pra onde o mundo está caminhando. Provavelmente de cabeça pra baixo, mas com estilo.
E vai ter raciocínio pela metade, ideias mal resolvidas, parágrafos que deveriam ser cortados.
E vai existir.
E vai ser humano.
E eu vou ser uma iniciante em blogs, em público. Me processe por isso.
Beijos da Trib.
PS: alguém sabe como mexer nisso? To meio que perdida kkkkk
메타데이터
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- 2026-06-15 20:49:13