«Um dia, hei de fazer as pazes com a minha capa»
Porque o tempo pode ser cruel na luz que derrama sobre memórias e experiências, mas também porque sabe apaziguar

«Um dia, hei de fazer as pazes com a minha capa»
Porque o tempo pode ser cruel na luz que derrama sobre memórias e experiências, mas também porque sabe apaziguar
«Já passaram 19 anos…» Parado no trânsito do seu Porto natal e olhando distraidamente o movimento de capas negras à sua volta, João aguardava que o semáforo concedesse, mais uma vez, alguns instantes de verde escapatória, quando tomou consciência de que passaram mais anos desde que entrou para a universidade do que aqueles que tinha de vida quando iniciou esse capítulo fulcral da sua existência. Parecia que estas quase duas décadas tinham passado mais depressa do que o tempo que demorava a traçar a capa nas primeiras vezes que usara o traje académico — era um gesto novo, requeria prática para que o resultado fosse irrepreensível. A capa e a batina, assim como os demais símbolos da hierarquia que, ano após ano, se deixava conquistar, proclamaram com mal-disfarçado orgulho, durante os vários anos que passou na cidade do Mondego, a pertença à vetusta Academia coimbrã. Foram anos de orgulho temperados com convicções incertas que hoje recorda tingidas de uma ingenuidade confrangedora.
«Está verde! É melhor sair daqui rápido.» Por alguma razão, para João, estar na presença de grupos de estudantes trajados a praxar os recém-chegados tornou-se, a poder dos anos, algo cada vez mais difícil de suportar. Provoca-lhe semelhante irritação que apenas a custo se consegue impedir de lhes gritar: «Têm noção do que estão a fazer? Acordem e deixem-se dessas merdas de mandar e ser mandado! Pensem pelas vossas cabeças e ajam por vocês mesmos! E, já agora, façam alguma coisa proveitosa em vez de se comportarem como selvagens!».
Lá por baixo, vagueiam duas sensações que apenas se insinuam: um repúdio pelos miúdos de agora, com quem se cruza diariamente aos magotes e que não sabem o que deve significar o traje e a praxe; e uma certa mágoa por ter alinhado tão cegamente nesses rituais de praxe e traje convicto de que em Coimbra apresentavam uma outra aura, mais autêntica, mas que hoje no Porto, e de modo generalizado em Portugal, se mostram degenerados, desprovidos de sentido.
«Porque mexe tanto comigo?» Esta interrogação não era nova. A cada vez, João sacudia-a rapidamente do seu espírito evitando deixar-se enlear nela. Um não declarado temor. Mas naquele dia, estranhamente, demorou-se a vontade de tentar perceber a história desta transformação. Seria aquela mudança de perspetiva decorrente da sua visão do mundo mais amadurecida, mais distanciada do mundo das capas ao qual já não pertence? No fim de contas, é já outra geração aquela contra a qual os seus brados silenciosos se dirigem.
Ou será que, nada guardando contra a ‘sua’ praxe coimbrã, é uma aversão motivada pela maneira diferente de a praticar no Porto? Pois que, acaso vivesse ainda em Coimbra, seria com nostalgia e uma completa identificação que olharia para a praxe, os usos, costumes e excessos dos estudantes universitários?
«Mas, então, isso significa que…?» Hesitante, João deixou-se levar. Às questões sucedem-se questões e às questões sucedem-se reflexos. De si mesmo, no presente e num passado que, sim, agora é distante. Num deles, depara-se com a imagem de um homem de bem com a vida e com o mundo, feliz no amor, relativamente satisfeito no trabalho, ativo na comunidade, saudável e próspero. A imagem de um homem que, descobre, pertence de facto a uma geração que já é sucedida por outra; de um homem que, suspeita, padece do que antigamente sempre lhe parecera estranho: um mal-estar, uma certa fobia às gerações mais novas.
A outra hipótese devolve a um João incrédulo um reflexo que o confronta com um arrependimento, nunca assumido e que poderá não ter nada a ver com o Porto, de ter feito parte daquele universo — regras, hierarquias, uniformização, autoridade — de que a capa preta não é senão o mais importante símbolo. Um arrependimento que macula as memórias que guarda de inúmeros momentos especiais partilhados com tantos e tantos nomes que fazem parte da sua história, da sua vida, do seu presente.
«Será possível?» Ambas as sensações difíceis de acolher. Novamente obrigado a parar por um semáforo, um vermelho redentor dá uma oportunidade a João de cerrar os olhos e forçar estas imagens a desvanecerem-se do seu pensamento. A resposta correta não se deixar descortinar. Poderá até ser uma mistura das duas. Mas prefere não chegar a uma resposta, porque qualquer uma delas mostra um João que não lhe agrada constatar. E, por não querer encontrar uma resposta que feche este assunto, vai permanecer na angústia de o ter em aberto. Um círculo vicioso sem sentido.
Como que para desanuviar o espírito, João formula um esperançoso voto com que remata uma meditação que havia, afinal, razão para tantas vezes evitar. Retoma a marcha e impede-se de perceber que, no fim de contas, quem mudou foi ele. «Um dia, hei de fazer as pazes com a minha capa.»
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