“US” e o levante do avatar
Uma interpretação do filme de Jordan Peele pela ótica da desumanização da contemporaneidade digital
“US” e o levante do avatar
Uma interpretação do filme de Jordan Peele pela ótica da desumanização da contemporaneidade digital

Pôster alternativo (não oficial, com compra aqui)
Jordan Peele em “US” (2019) realizou uma obra de de vingança por um duplo, excluído, movido pela ideia de ocupar o lugar daquele quem se espelha na superfície. Mas é possível que caiba também um recorte sobre a contemporaneidade digital e sua escala de desumanização, escondida por meio de uma estrutura subterrânea, entre túneis e portas secretas, que se ligam a superfície, tal qual um formigueiro real.
Na superfície-mundo-real, uma TV apresenta a campanha midiática verdadeira, de 1986, do mesmo criador da música We Are The World e da fundação USA for Africa. O nome dele? Ken Kragen, homem branco, diga-se. A campanha publicitária chamava-se Hands Across America, pedia para as pessoas garantirem seu lugar (pagando, obviamente) na maior corrente humana e humanitária já realizada, de Nova Iorque a São Francisco. Mais que uma utopia publicitária, um negócio evidentemente. Foi um fracasso, o que não impediu que a casta de fomento a caridade aos excluídos não deixasse de crescer, principalmente na década de 90.
Mas voltando as entranhas dos túneis do filme, nesses espaços indefiníveis ali, “foucaultianos”, ora reformatórios, ora escolas, ora hospitais, ora jaulas, hermeticamente fechados (salvo por backdoors), hiper controlados, residem um vasto universo de duplos, corpos excluídos, frutos de experiências desse extracampo escondido, profundeza que opera tal qual um rizoma. As experiências nos duplos (e em animais) aparentam apontar a uma espécie de modelo linguístico-operacional, executadas por meio de extrema violência e repetição. A eles a submissão pela automação ou a dor numa extrapolação do que se esconde, não sobe a superfície.
Os duplos já são usados com recorrência não apenas na literatura mundial mas também no universo hollywoodiano como em “Invasores de Corpos” (que possui três versões), mas principalmente na versão original, na qual o fantasma do comunismo assombrava o público em forma de invasão alienígena. Em “Eles Vivem”, filme de John Carpenter, não pode-se afirmar que há um duplo, mas algo que está entre nós, humanos, mimetizando nossas formas (seres alienígenas também, exercendo um domínio invisível, enquanto estimulam o consumo). Ambos os filmes evidenciam a paranoia como cerne do ethos ocidental mas principalmente estadunidense.
Em “US” a duplicidade pelo espelhamento não se dá apenas nos corpos dos duplos mas também nos campos espaciais e temporais de carga opositora simbólica: superfície/subterrâneo, sol/sombra, linguagem/automação, liberdade/aprisionamento.
O pensamento revolucionário de Maturana e Varela, mostra o rizoma como parte de uma sustentação não apenas conceitual mas biológica da formação dos sistemas autopoiéticos. Na autopoiese pressupõe organismos e seres autônomos por meio de seus cordões relacionais, dinâmicos, sejam eles internos ou externos. Muito resumidamente é algo que se aproxima por uma espécie de linguagem ou por meio de um “olhar”. O cosmólogo e filósofo Luiz Alberto Oliveira resume bem essa linguagem (autopoiética) entre um tamanduá e o formigueiro, que “convida” o mamífero não apenas a comer suas formigas, mas a ser parte do formigueiro, quando “agradece ao tamanduá pela refeição”, dando-lhe as mãos. Um ato de autonomia e criação que parte de uma relação. Nunca uma usurpação.
Mas que acontece quando os duplos do filme saem de seus formigueiros einvadem a superfície, nossa rotina? Não se colocam como refeição. Ao contrário, eles vêm a eliminar a todos nós para ocupar os nossos lugares. Não há espaço para convivência.
Em um primeiro olhar, observa-se clara insurgência de classe (castas?), em como esses corpos excluídos, frutos de uma experiência violenta de segregação e submissão, se libertam e sobem. Mas no âmbito da contemporaneidade digital essa leitura pode ir além: “Us” apresenta o duplo como um avatar: alguém que assume nossa identidade e viverá por nós. Um avatar hoje extrapola as profundezas do anonimato digital e ocupa nosso lugar de forma violenta para praticar a violência. O avatar digital é um filho subterrâneo, reativo, que se apresenta ao mundo pela violência e desumanização. É um modelo impositivo, primitivo, que ressuscita o “poder de morte do soberano” de Foucault. A este avatar só importa a conquista.
E a insurgência dos duplos não apenas no filme mas no histórico da nossa contemporaneidade digital é silenciosa porém viral. Oriundos do universo capilar de fios, cabos e túneis abaixo da superfície, os avatares foram reproduzidos por anos como coelhos, motivados em sua superfície, pela promessa midiática de conexão e alteridade, pela qual daríamos as mãos em prol de um sistema cooperativo e autopoiético, o que nunca se realizou porque jámais estenderam-se as mãos: nós e tampouco nossos avatares, cujo propósito para além da anonimidade é a plena substituição violenta que vir-se-á impor por completo. Por falar em substituição, é imperativo atentar-se ao fato de que parte da paranoia atual que traz força ao discurso extremista branco ocidental e cristão da Europa e EUA se convenciona pela ideia da “Grande Substituição”, método pelo qual a pureza branca e cristã está sendo devorada por peles escuras e de outras religiões, que não seja a de Cristo.
Portanto seguindo a interpretação desse recorte proposto por meio da digitalidade atual, o filme parece simbolizar discussões importantes hoje: o rompimento das utopias digitais e principalmente das barreiras da anonimidade, que agora se apresentam seus autores ao ar livre, com rosto e nome, verdadeiros psicopatas atuando com os recursos violentos pelos quais foram programados, com tráfego livre em vias privadas e rizomáticas de algoritmos.
O que restará desta violência? Nenhuma construção. Nenhuma autopoiese. Nem linguagem. Nenhuma boa vibração. Apenas domínio. E muitos dados sobre isso.
메타데이터
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