Já disse, e repito, nunca fui um leitor de “livros devocionais”*.
Há exceções? Há. Raríssimas. Uma dessas joias no mar de chorume da “literatura devocional” é a “Celebração da Disciplina: O Caminho do…

**Já disse, e repito, nunca fui um leitor de “livros devocionais”***. Eles são superficiais, repletos de positividade tóxica, alienante ou imbecilizante, repetindo clichês e chavões, apresentando fórmulas prontas para tudo e qualquer um, para leitores tratados como ingênuos, ignorantes ou infantilóides. Indo direto ao ponto: “livros devocionais” são chatos pra cacete!
Há exceções? Há. Raríssimas. Uma dessas joias no mar de chorume da “literatura devocional” é a “Celebração da Disciplina: O Caminho do Crescimento Espiritual” [1978], do teólogo quaker Richard James Foster [1942]. E arrisco dizer o porquê: a possibilidade de ler o livro como se lê a realidade em toda sua mundanidade, por exemplo:
“Na sociedade contemporânea nosso Adversário se especializa em três coisas: ruído, pressa e multidões.” Não importa quem é o “Adversário”; não importa onde estamos; não importa se é 1978 ou 2025; não importa que esta seja a abertura do Capítulo 2, “A Disciplina da Meditação”; ruído, pressa e multidão ainda são nossos inimigos (de estimação).
A bem da verdade, eles são piores hoje, em nossa sociedade mediada por telas, do que eram há 47 anos. E são piores, porque reconhecemos o perigo que o ruído, a pressa e a multidão representam para nós, e como ameaçam nossas relações, e nossas estruturas espirituais, afetivas e mentais, mas, ainda assim, doentiamente, nos sentimos confortáveis e seguros.
E o que nos incomoda, e o que nos apavora, é a quietude, e não, o ruído e o barulho, que distrai e que insensibiliza; é a serenidade, e não, a pressa, a instantaneidade, a transitoriedade, a rotatividade; é a solitude, e não, a multidão, a despersonalização, a solidão. No ruído calamos todas as vozes e sons. Na pressa não damos tempo a pessoa ou coisa alguma. Na multidão nos escondemos de nós mesmos até que nos percamos de nós.
Quietude, serenidade e solitude são de desconfortável e insegura fruição. Elas exigem desapegos e desinstalações que não queremos operar. Nos desafiam a nadar contra a corrente. Nos propõem a ressignificação artesanal de como nos relacionamos e nos movemos. E nos consolam e encorajam a um viver fértil, florescente e frutificante, como ainda possível.
*Pra você que não domina o evangeliquês — um dos dialetos do crentês —, explico: “livros devocionais” são os livros de autoajuda dos crentes, ou seja, livros de altoajuda espiritual. RS!
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