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Uma noite em Forte Tiuna

Imagina sexta-feira. Você decide ir dormir, ou jantar com calma, comendo o que sobrou da ceia do ano novo, ver um filme, relaxar. O ano…

Rafaella Coury · 2026-05-15 03:44 · 1 claps · 2.4 min read
#venezuela #bombing #lutas-sociais #unidad
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Wiki topics: 🔒 · Cybersecurity 🎬 · Film & Television

Uma noite em Forte Tiuna

Imagina sexta-feira. Você decide ir dormir, ou jantar com calma, comendo o que sobrou da ceia do ano novo, ver um filme, relaxar. O ano acabou de começar e, considerando tudo, está tudo bem.

Quem está acordado ouve um silvo. Do nada. Serão fogos de artifício? O chão está tremendo. Será um terremoto? E um estrondo. É um trovão? O que está acontecendo?

“Estamos sendo bombardeados.” O grito em castellano se espalha por Ciudad Tiuna, uma comuna venezuelana construída no local de um antigo forte militar em uma realização do ex-presidente Hugo Chávez.

São mais de 30 prédios, quase 20 mil pessoas, e crianças, adultos, homens, mulheres, idosos, cachorros e gatos se desesperaram ao sentir, ouvir e ver o que estava acontecendo.

Este tipo de coisa não acontece na América Latina da modernidade. Os ataques são outros. São midiáticos, são sanções, são influências, são bloqueios. Não são ataques físicos. Não acontecem em cima do povo, em áreas civis. O que está acontecendo? O que fazer?

Uma menina de dez anos perguntou à mãe se estava acontecendo ali o mesmo que acontece na Palestina — afinal, essa é sua referência recente de guerra. Sua mãe disse a ela que não. E nos disse que vai lutar por toda sua vida para que isso nunca aconteça. Já é difícil o suficiente ver o sofrimento de milhares de pessoas do outro lado do oceano, isso não pode acontecer do lado de cá também.

O que está acontecendo? O que fazer?

91 apartamentos tiveram seus vidros quebrados pelo estrondo. Pessoas se feriram com os estilhaços. A energia acabou e os moradores dos apartamentos, desesperados, desceram correndo 15 lances de escadas, caindo, fraturando partes do corpo, se machucando, assustados.

Perguntavam às lideranças, que não são poucas, e em sua maior parte são mulheres — e isso é inspirador —, o que fazer? Para onde vamos? Muitos deles foram treinados pelo seu antigo comandante a lidar com situações assim, porém, quando elas acontecem, ninguém sabe exatamente o que fazer, quem socorrer primeiro, o que pegar, para onde correr.

Afinal, os drones ainda estavam à espreita. Quem disse que acabou? Será que sair de casa é seguro? O que fazer com idosos, crianças, pessoas com dificuldade de locomoção? O que fazer com os cachorros, os gatos? Qual a prioridade? Para onde ir? Eles vão voltar?

Quatro meses depois de uma noite inédita de muito, muito terror, as pessoas — principalmente mulheres, novamente — contam suas histórias. Traumatizadas, mas abertas. Honestas. Os sentimentos são muitos: há lágrimas de tristeza, gritos de raiva, motivação para a luta. Há uma unidade espantosa. Há esperança, há patriotismo. Há dor, há medo, mas há uma vontade surreal de vencer. De superar. De não deixar isso acontecer nunca mais.

Digam o que quiserem. Essa não é uma história sobre disputas políticas internas. Sobre contos, mitos e preconceitos. É uma história de um povo que foi atacado por um império que se considera dono de todo o mundo e causa destruição por onde passa. É a história de bombas que chegaram perto demais, atingindo pessoas que não têm nada a ver com qualquer disputa que seja. É o mais perto que chegamos de uma história que não é nossa, mas poderia ser. Por isso, é importante saber. E, também, porque é pelas histórias de lutas e resistência que vivemos — e sobrevivemos.

(texto escrito com base nos relatos do 3 de janeiro em Ciudad Tiuna, escutados em 14 de maio de 2026)


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