PAÍS DO FUTEBOL DE CEGOS
Por Allana Fonseca e Andressa Simões
PAÍS DO FUTEBOL DE CEGOS
Por Allana Fonseca e Andressa Simões
Foto: Ana Patrícia Almeida/CPB
O quanto vale ser campeão? O quanto vale entrar para a história do seu país? O quanto vale representar seu país? Quais os sacrifícios que existem? O que custa sair do seu conforto para ir para zona de confronto? E ser reconhecido pelo o que você faz? Por quem você é?
Atualmente, o Brasil é uma das maiores potências paralímpicas do mundo. Na última edição dos Jogos, em Paris 2024, foram 85 medalhas, conquistando o quinto lugar no quadro geral. O futebol de cegos é uma das maiores hegemonias existentes, desde o surgimento da modalidade lá em Atenas 2024 até Tóquio 2020. São cinco ouros para a Seleção e cinco títulos mundiais. Dentre eles, dois de cada foram sob o comando do técnico Fábio Vasconcelos, que ficou 11 anos à frente da equipe. Em Paris 2024, venceram por 1 a 0 a Colômbia e garantiram a medalha de bronze.
A importância desse esporte vai além das suas conquistas oficiais: o futebol de cegos serve como meio de inclusão e de conquista da independência por parte de seus atletas.
DAS QUADRAS AOS BASTIDORES
A história de Fábio Vasconcelos com o futebol de cegos é longa. Começou em 2003, como goleiro pela equipe da Apadevi, de Campina Grande. Sua habilidade o levou à seleção brasileira, onde atuou por dez anos antes de se tornar técnico em 2013. Após as Paralimpíadas de Paris, deixou as quadras e assumiu a coordenação de seleções da Confederação Brasileira de Desportos de Deficientes Visuais (CBDV).
Foto: Wander Roberto/CPB
Fábio conta que aceitou o convite da Confederação Brasileira de Desportos de Deficientes Visuais (CBDV) para um cargo de gestão por seu desejo de novos desafios. Ele explica: “Fiz três ciclos como goleiro e três como treinador. Queria parar na hora certa e sempre pensei em somar e ajudar. Como surgiu essa oportunidade, abracei.”.
Em todos esses anos dedicados ao futebol de cegos, o coordenador percebe mudanças positivas, principalmente na estrutura dada aos atletas. Atualmente, há equipes multidisciplinares — preparador físico, fisiologista, nutricionista e psicólogo — por trás da preparação dos profissionais. Em anos anteriores, eram o técnico e o auxiliar responsáveis por todas as áreas.
Agora na nova função, Fábio possui perspectivas quanto ao futuro do Brasil no futebol de cegos: “Temos um bom grupo vindo das Seleções de base. E a gente espera que o Brasil esteja onde sempre esteve, que é brigando por medalhas, por novas conquistas. Acredito que este novo ciclo não será muito diferente.”.
MORAL FORTE FRENTE À DIFICULDADE
“Os impactos, primeiramente, é a coragem, a iniciativa de aprender a me virar sozinho. E poder conhecer pessoas diferentes, ser mais independente. A liberdade que o futebol de cegos me proporciona para conseguir superar os desafios.”
Foto: Alessandra Cabral/CPB
Jonatan Silva, 26 anos, ficou cego aos 7, devido a complicações por descolamento de retina e catarata. Aos 16 anos, o jogador natural de Canoas (RS), conheceu o esporte e começou a treinar em uma associação de sua cidade, a Adevita. O atleta foi convocado para a Seleção de base pela primeira vez em 2015 e se orgulha de ter sido medalhista de bronze em Paris 2024.
O seu maior desafio na sua trajetória foi ter que mudar de cidade. “A gente, do futebol, sempre almeja jogar em casa, mas não tive tanta oportunidade e acabei me mudando de cidade, fiquei longe da família.”. Atualmente, o atleta joga pela equipe do Apace, pela qual conquistou o terceiro lugar no Campeonato Brasileiro de Futebol de Cegos, disputado em outubro de 2024.
DA PERDA COM 14 AO GANHO DE 7
Segundo o IBGE, o Brasil conta com 6,5 milhões de pessoas com deficiência visual, sendo 500 mil cegas. Nesse cenário, histórias como a de Cássio demonstram o esporte como inclusão. O jogador expressa que, devido à sua carreira recheada de conquistas, se sente reconhecido e percebe um olhar diferente da sociedade sobre ele.
Cássio Reis, aos 14 anos, perdeu a visão após um deslocamento de retina seguido de catarata. O atleta se mudou de Ituberá (BA), onde nasceu, para a capital Salvador, onde conheceu esportes paralímpicos e, dentre eles, o futebol de cegos.
Foto: Alessandra Cabral/ CPB
“Foi uma transformação, um alicerce em meio à perda da minha visão encontrar no esporte uma forma de dar a volta por cima. O esporte tem essa relação direta com a minha superação diante da perda da visão que tive na adolescência.”.
Agora aos 35 anos, o experiente ala defensivo é, entre outros títulos, sete vezes campeão brasileiro pelo ICB (Instituto de Cegos da Bahia) e sete vezes campeão regional também pelo ICB, além de tricampeão paralímpico.
“Hoje, sou um representante da pessoa com deficiência capaz de ser utilizado como exemplo.”.
O JOGO: COMO FUNCIONA
O futebol de cegos é disputado em uma quadra de 20m x 40m, seguindo as medidas de uma quadra de futsal, com cinco jogadores por equipe. A bola, que contém um guizo, não sai pelas laterais e as partidas são silenciosas. A torcida, dentre os dois tempos de 15 minutos, só pode se manifestar após os gols. Os jogadores jogam vendados e devem falar “voy” (palavra em espanhol para “vou”), ao se aproximarem da bola, caso o juiz não ouça, é marcada falta. Nas Paralimpíadas, a modalidade é disputada apenas no naipe masculino.
Apesar do nome, o futebol de cegos não é disputado exclusivamente por pessoas com deficiência visual. Dentre os jogadores em quadra, o goleiro é o único que possui visão total. Para ser guarda-redes do futebol de cegos, o atleta não pode ter participado de competições oficiais da Fifa nos últimos cinco anos.
No Brasil, o futebol de cegos é gerido pela CBDV. No âmbito internacional, a modalidade está sob a responsabilidade da Federação Internacional de Esportes para Cegos (IBSA — em inglês).
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