crime e castigo — o nascimento da transgressão (uma análise)
brevitas
crime e castigo — o nascimento da transgressão (uma análise)
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‘‘O único psicólogo com quem aprendi alguma coisa foi Dostoiévski’‘ (Friedrich Nietzsche).
Neste dia, à quarta hora da tarde, finalizei minha segunda leitura de Crime e Castigo. Não é uma finalização qualquer. Também não é uma releitura qualquer.
É a finalização de uma releitura que, a despeito de suscitar impressões vívidas de muita assertividade, impele-me a avaliá-las somente na dimensão extática do tempo. O tempo foi, inclusive, analiticamente importante à conclusão deste livro: demorei três meses para finalizá-lo — começando em 15 de janeiro, terminando em 14 de abril.
De qualquer forma, é-me impossível não apenas desaperceber as impressões, como também não exteriorizá-las de algum modo. Para isso, optarei por uma estilística livre — um blurting das principais ideias e observações.
A segunda leitura foi, vale notar, totalmente diferente da primeira: meu exemplar da Ed. 34 está repleto de anotações nas margens (à lápis e à caneta), grifos de diferentes cores, detalhamento ativo dos personagens; pensamentos, intuições e impressões pessoais, correlações que estabeleci com outras obras da literatura, com a psicologia, com autores que são inegociáveis no meu pensamento — e até mesmo com temas heterodoxos ao aspecto literato da obra: economia, sociedade, romantismo. Até pela pluralidade do que foi pensado (muito sendo de natureza particular), compartilhá-lo ao calor das impressões do dia do término, seria fazer uma desonra à experiência.
Crime e Castigo? O nome engana. Não é um livro sobre crime, e a parte do castigo pode surpreender a interpretação mais incauta. É um livro que nos ensina algo sobre pessoas e personalidades: sempre nos depararemos com dois tipos de pessoas — variando, tão somente, em intensidades. Nietzsche nos diz: aquele que combate monstros deve ter cuidado para não se tornar um monstro, pois quando se olha para o abismo, ele olha de volta para você.
Devo ser francamente honesto: em nenhum momento do livro, mesmo em seus aspectos mais brutais, senti que Ródion era esse monstro. Em verdade, vi malícia no rebanho que julgara Marmiéladov, depauperado e em má condição financeira, no início do romance. Raskolnikov cala, mas sente — é o único que não julga, mas empatiza com o marginalizado.
Vi maldade no meio do romance: num dos personagens mais insuportáveis de toda a literatura — Lújin, o homem de uma visão cínica da existência; burguês por excelência, de nível intelectual mediano, mas repleto de pompa. Diria Paulo Bezerra: “espécime detestado e caricaturado por Dostoiévski”. Sua linguagem denuncia apenas interesses financeiros; possui uma visão moralista ainda que egoísta — é obtuso, aproveitador, interesseiro, narcisista, manipulador. Arauto de sua própria impotência, sob uma vontade de poder reativa e medíocre, trabalha para minar e julgar o caráter de Raskolnikov.
E vi monstruosidade patente em Svidrigáilov — este dispensa comentários. Ele, sim, parece ser o homem que cruzou a linha que Ródia não cruzou: não apenas comete crimes. Ele vai lá: não sente, não ressente; não pensa, não se afeta. Raskolnikov ainda é, seguramente, do tipo ‘‘melancólico-introspectivo’’: pensa muito, conjectura muito, racionaliza excessivamente — e, evidentemente, sente remorso. Ródia: não um psicopata, mas um humano, demasiado humano — como eu você — buscando algum caminho genuíno de liberdade (ainda que de maneiras extremas). Não um bárbaro: mas um nômade.
Mas também, é claro, não alguém no lado do ‘‘bem’’ — mas um homem ordinário, cruzando a ponte — steping across (Преступление) — ao que é extraordinário — .
Paulo Bezerra, novamente citado aqui, é mais uma vez sagaz numa análise:
“Tem sido uma constante em muitas análises de Crime e Castigo, sobretudo naquelas de cunho psicanalítico, a insistência num sentimento de culpa em Raskolnikóv. Contudo, sua resposta à irmã, uma declaração essencial para o entendimento do romance, produz de fato uma redução zoomórfica da velha, cujo fim é eliminar a ideia de crime. Ele não matou uma pessoa humana, matou um inseto. Portanto, não houve crime, logo, não há culpa, não há remorso. E Raskolnikóv ainda pode se considerar um justiceiro, pois matou um ‘piolho que sugava a seiva dos pobres’.”
Subscrevo. Mas acrescento algo — e esta é a minha leitura: parece que ele não se arrepende, de fato, e a leitura psicanalítica emerge nuam aparência (Schein) de arrependimento (que é ilusória: não é realitas). Externa a impressão de que se arrepende, e a errônea leitura psicanalítica parte do pressuposto de que o faz. Entretanto, o que realmente parece estar mais oculto nas diversas camadas de profundidade do texto — mas ainda no texto — é o seguinte: Raskolnikov prefere se entregar por fraqueza. Seu aparente arrependimento, na verdade, é mera falta de força. Falta de força para lidar. Ródion não quer ter de lidar com aquilo que não consegue suportar.
Ele ainda suporta — entre muitas aspas, é claro, pois sua frustração com todas essas coisas é o leitmotiv do crime — a pobreza, a miséria, o malogro, a gentalha. No entanto, ir até o final, conseguir matar, tomar o dinheiro, sustentá-lo e ainda fugir — essa é uma linha que poucos cruzam. Nem mesmo o criminoso comum a cruza; muitas vezes, ele simplesmente se dá mal.
Crime e Castigo, contudo, nos oferece uma sugestão inacabada e implícita: não a moral, que define nossa aversão ao crime — mas o castigo: aquilo que não conseguimos suportar.
Esta interpretação, cabe notar, não é original. Em segunda análise, pude verificar que Strákhov nota que Dostoiévski parecia simpático a Ródion. Steven Cassedey, por sua vez, argumenta que Crime e Castigo é duas coisas (quase como uma dualidade, similar, a de Ródion): uma tragédia em sentido grego (com todo o aspecto de aceitação radical do destino que ela implica); em segundo lugar, uma história cristã de ressureição e vida (vida em sentido cristão).
Outro exemplo é o título original em russo. «Преступление и наказание» — não é o equivalente direto do título inglês Crime and Punishment, tampouco de Crime e Castigo. «Преступление» (Prestupléniye) traduz-se literalmente por “uma transgressão”. O tema da transgressão, como muitos já devem saber, é fulcral em Bataille — e parece sê-lo igualmente em Dostoiévski, sobretudo em seus efeitos psicológicos.
Tudo mais eu poderia dizer; imagino que algo mais percuciente será digerido com o tempo. A finalização em ritmo intenso — li hoje 80 páginas em uma sessão — permite-me, no entanto, uma breve observação: é o melhor livro que já li na vida. E adquiri essa perspicácia somente na releitura.
O que seria uma energia tão grande e abrupta para um único livro? Diria Nietzsche: “ — a voz do sangue [como denominá-lo de outro modo?] fez-se ouvir de imediato e minha alegria não teve limites!” (sobre M.D.S.).
Adendo: sobre o Cristianismo, e o que seria a ‘‘Moralia’’ de C&P.
Pequenos lampejos de Cristianismo repontam ao final da obra. Fica uma pergunta em aberto: nada foi definido quanto à nova concepção de vida que Raskolnikov embarcaria com Sônia. A redenção, sim, é uma redenção pelo amor — mas parece ser o amor do Eros, não o da ágape. Não parece ser um falso humanismo: não o reconhecimento de uma dignidade equivalente a todos os seres humanos, incluindo a burguesa usurária. Raskolnikov é assertivo: sua consciência está tranquila.
Qual seria, então, a lição última de Crime e Castigo? Não está no nome — tão redundante que parece clamar propositalmente por uma inversão: não um problema de crime, mas de consciência e transgressão.
É um livro que nos ensina: nessa vida, sempre nos depararemos com dois tipos de pessoas — variando, tão somente, em intensidades. O amor, talvez o melhor afrodisíaco, pode nos inebriar a ponto de fazer esquecer; pode ter esse efeito, é verdade, um tanto ilusório (é neuroquimicamente similar ao ópio). A religião pode ser um mundo imaginário ainda mais potente. Mas nada, absolutamente nada, é mais real e vital — nada se sente mais forte na carne — do que a dor, do que a pobreza; a fome, a miséria, o sofrimento, o absurdo de certas situações, e o que se passa na cabeça de um homem que não as aceita. Um livro que entrevê isso, implícita e explicitamente, sempre será escandaloso — sempre terá o teor de algo “proibido”, por mais fábulas que os beletristas das ideias o circunscrevam, projetem-no, e tentem contorná-lo.
I wrote [this chapter] with genuine inspiration, but perhaps it is no good; but for them[,] the question is not its literary worth, they are worried about its morality. Here I was in the right — nothing was against morality, and even quite the contrary, but they saw otherwise and, what’s more, saw traces of nihilism … I took it back, and this revision of a large chapter cost me at least three new chapters of work, judging by the effort and the weariness; but I corrected it and gave it back.
— Carta de Dostoiévski a A.P. Milyukov
Existencialista cristão? Talvez Dostoiévski seja, na verdade, como muitos antes e depois dele: um pensador do profundo.
“E por que o meu ato lhes parecia tão vil? — dizia de si para si. — Por ter sido uma perversidade? O que significa a palavra ‘perversidade’? Minha consciência está tranquila. É claro que foi cometido um crime comum; é claro que foi violada a letra da lei e derramado sangue, mas tome minha cabeça por letra da lei… e basta! Claro, neste caso até muitos benfeitores da humanidade, que não herdaram mas tomaram o poder, deveriam ser executados ao darem os seus primeiros passos. No entanto, aqueles homens aguentaram os seus passos e por isso estavam certos, mas eu não aguentei e, portanto, não tinha o direito de permitir esse passo.”
— Dostoiévski, Crime e Castigo, p. 555
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