Fim
Agarrava à porta como uma tabua de salvação. Ele me olhava nos fundos dos olhos, como se estivesse me despindo. Queria sumir.
Fim
Agarrava à porta como uma tabua de salvação. Ele me olhava nos fundos dos olhos, como se estivesse me despindo. Queria sumir.
Tinha passado a festa inteira fugindo de suas investidas. Ele me dava as mãos, me abraçava, passeava pelos meus cachos. Afinal estávamos namorando. Era o primeiro. Minhas irmãs olhavam de longe com risinhos maliciosos sem se importar com minha face vermelha de vergonha.
Até aquele momento tinha conseguido evitar o beijo. Como imaginei aquele momento por tantos anos nas conversas com as amigas. Naqueles papos eu dizia que iria agarrar o amado, puxar seu rosto para junto de mim e devorá-lo como lia nas revistas Bianca e Sabrina.
Onde estava minha coragem? Ele como quem não quer nada me chamou para acompanha-lo até a portaria. Desci junto da prima que aguardava o pai busca-la. Achei que teria sua companhia por bastante tempo . Ledo engano. O pai já esperava e me vi só com com o namorado.
Alberto sorriu. Agarrei a porta . Não foi empecilho. Delicadamente pegou minhas mãos e aproximou-se do meu rosto tocando os seus lábios nos meus. Era assim que eu lia nas revistas amorosas, agua com açúcar em que as mocinhas apaixonavam-se pelos vilões e no final descobriam que eram príncipes.
Em que hora os sinos tocariam, as flautas e violinos ressoariam pelo salão?
Eu não ouvia nada. Minha cabeça rodava e tive nojo daquela boca melada, daquela língua que me entrava pelo céu da boca. Eu só queria parar. Foi com alívio que Raimundo chegou dando uma tossezinha conveniente.
Dei Graças a Deus e despedi rapidamente.
Agora naquele exato momento só pensava que essa história que eu passava mentalmente pela minha cabeça estava escrito no meu diário. Naquele que ela, a irmã que ria maliciosamente da caçulinha com o primeiro namorado, segurava em suas mãos.
Ela, além de segurá-lo e balança-lo na minha cara , ria enquanto repetia pausadamente
EU SEI DOS SEUS SE GRE DOS.
Ah, sentiu nojinho.
Nessa hora agarrei seus cabelos e puxei meu tesouro de suas mãos.
Voltei pro meu quarto aos prantos.
Lá piquei folha por folha.
O primeiro beijo;
A primeira menstruação.
A briga com a melhor amiga,
A angustia que não entendia
O olhar diante do espelho
As poesias pra ele
Não ficou nem uma letra pra contar história.
Janex2
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