Crônica de uma morte anunciada
Nas planilhas de excel, o Flamengo das cifras bilionárias segue imbatível, mas as quatro linhas, aquelas cujos espaços têm dois gols e um…
Crônica de uma morte anunciada
Nas planilhas de excel, o Flamengo das cifras bilionárias segue imbatível, mas as quatro linhas, aquelas cujos espaços têm dois gols e um meio-campo, gritam

Tite e Matheus Bachi (Foto: Paula Reis / Flamengo)
Uma cínica vitória contra o Athletico foi o último passo dado por Tite à frente do comando técnico do Flamengo. Um triunfo à imagem e semelhança do que foram as últimas semanas de Adenor, que se retira do Flamengo pelas portas dos fundos, com o amargo sentimento de que deveria ter feito mais. Uma passagem que foi definhando com o tempo e sentenciada da maneira mais agônica possível: com eliminação na Libertadores e xingamentos.
Da euforia inicial à contratação daquele que um dia foi dado como salvador da pátria e esperança de dias melhores na Seleção Brasileira à gradativa queda futebolística semanal, Tite não somente larga um clube novamente frustrado por decepcionantes derrotas nos momentos decisivos como também coloca em xeque sua própria sabedoria tática.
Porque é notório e evidente que, por mais que o seu Brasil não fosse o suprassumo do encantamento, ele teve solidez e consistência que entregaram ao trabalho uma rara unanimidade dentro de um ciclo de Copa do Mundo. Eliminações à parte, a sensação era de que esse “porém” não seria suficiente para tirar de Tite o fardo de “melhor técnico do Brasil”. Virou clichê dizer por aí que “Tite não tem a cara do Flamengo”, mas não deixa de ser uma verdade que a obsessão pela ordem que ele carrega poderia acalmar e satisfazer uma arquibancada exigente. Não foi assim.
E não foi muito porque a defesa, a tão comentada e conhecida “defesa instransponível de um time de Tite”, também não deu as caras. Pois se a falta de ousadia no ataque já era minimamente esperada, que ao menos a retaguarda garantisse um certo conforto aos torcedores. Passou longe. Com repetitivos erros, principalmente nas bolas aéreas, o Flamengo raramente terminou um jogo sem sofrer gols.
Se a fantasia flamenguista reivindica um futebol que se assemelhe ao dos meses mágicos (e cada vez mais distantes) com Jorge Jesus, o técnico gaúcho sequer conseguiu emular o funcionamento quase que perfeito da linha de zaga alta, com movimentos naturais e atrativos, da equipe de 2019. No fim, Tite não foi nem um, nem outro; não foi capaz nem de ser ele próprio.
É verdade que a utópica particularidade do rubro-negro, que pleiteia por 90 minutos de ataque e encara qualquer substituição que não seja seis por meia dúzia como tentativa de retranca, tem a fácil capacidade de minar trabalhos. Contudo, não dá para tirar a razão do torcedor insatisfeito que não viu uma ínfima dose do tal “equilíbrio” (ou e-qui-lí-bri-o) que Tite propaga rotineiramente.
Mas Tite (ou Sampaoli, ou Vítor Pereira, ou Paulo Sousa) é somente a ponta do iceberg. A negligência da diretoria com o futebol do clube, como se excelência fosse única e exclusivamente conquistada através das bilionárias cifras que Landim e seus blue caps exaltam, continua(rá) sendo castigada. Nas planilhas de excel, o Flamengo segue imbatível, mas as quatro linhas, aquelas cujos espaços têm dois gols e um meio-campo, gritam.
Chega a ser agoniante pensar que o máximo responsável pelo futebol rubro-negro nessas horas se divide (?) entre uma tentativa barata de se reeleger vereador (usando o Flamengo como catalizador de votos, uma degradação moral, acima de tudo) e como fazer para solucionar os problemas do time. Onde está a cabeça de Marcos Braz: no Ninho do Urubu ou na Câmara Municipal? Uma derrota dupla, esportiva e da sociedade.
E o Tite? Bom, a certeza é que definitivamente seu nome não estará no Campos Elísios flamenguista. Uma etapa insossa, sem nada para reaproveitar. Caiu abraçado às ideias que nitidamente não estavam dando certo, convicto de que, em um passe de mágica, alteraria o rumo do caminhar. O outrora técnico mais midiático do país é hoje somente um espectro. Para sua sorte, o campo e a bola costumam ser benevolentes, mas Tite vai precisar começar do zero. De novo.
메타데이터
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