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HOLLYWOOD NÃO QUER MAIS SABER DE AMOR. Como isso afeta nossas comédias românticas?

Saudades dos romances, bicho :/

Lucas Miguel · 2026-07-31 03:55 · 0 claps · 4.8 min read
#cinema #filmes #ensaio #comédia-romântica
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Wiki topics: CUL · Culture & Media 💑 · Relationships 🎬 · Film & Television

HOLLYWOOD NÃO QUER MAIS SABER DE AMOR. Como isso afeta nossas comédias românticas?

Saudades dos romances, bicho :/

É cada dia mais difícil não ser a pessoa que fala “na minha época era melhor” quando o assunto é cinema. E longe de mim ser o crítico pedante que vai ao cinema pronto para ter uma sessão colorida e desagradável. Eu gosto de um bom filme de ação. Alguns diretores da atualidade me arrancam um ingresso sem nem me mostrar um trailer. Mas, se tem uma coisa que traz o que há de mais amargo em mim, são as comédias românticas feitas diretamente para o streaming, OU PIOR: são feitas para o streaming mas ainda dão um jeito de exibi-las na telona, como se fossem arte ou algo do tipo. Não são.

A maioria esmagadora do que é produzido no gênero hoje é adição de catálogo. É conteúdo. E isso me deixa triste, pois houve um tempo bom. Um tempo em que as comédias românticas eram valorizadas, criadas milimetricamente para te vender pipoca e refrigerante. E dos combos grandes, por favor. Hoje, elas não servem nem pra levantar discussão. “Ah, é? A Dakota Johnson desistiu do Pedro Pascal para ficar com o Chris Evans? Que barra, hein. Menina sem-noção”. O papo acaba por aí. Não tem mais nada pra mastigar, pra dissecar, pra debater. Não tem Team Edward vs. Team Jacob, nem “Qual seu grande ato de amor favorito do último ano?”. NADA. As comédias românticas não nos dão mais nada. Mas, o que aconteceu para que ficassem tão estéreis, tão sem tesão, tão água de salsicha? Já te adianto: a culpa é um pouco nossa. E do capitalismo, claro. Sempre ele.

“Meu ano em Oxford” (2025)

“Meu ano em Oxford” (2025)

De nossa parte, eu acredito que tem um pouco de cinismo em relação ao amor, graças a um apego desmedido à realidade. Antes, a gente aceitava o estapafúrdio e ria dele concordando ou não com aquilo tudo. “É só um filme”, é sempre só um filme. Na telona, a Princesa vai sempre se apaixonar pelo Repórter que a leva num tour por Roma. A lua vai te deixar maluca pelo padeiro mal-humorado. O homem de negócios vai se apaixonar pela risada da garota de programa. A regra da comédia romântica não é ser real. É ser infecciosa, apaixonante, gerar suspiros. O nosso problema é ter crescido com esse referencial e confundir os reflexos. Passamos a querer na vida o que tinha no cinema e querer no cinema o que tínhamos na vida. Pouco a pouco, os romances estão nos escritórios de publicidade, o mocinho é bom por ser minimamente decente e o ato romântico é aceitar que a menina extremamente alta é bonita. A “esquisitinha” também. Uau, essa senhora de idade no alto de seus 50 anos também. É gente normal, com trabalhos normais e dilemas normais. É o caso do até que legal AMORES MATERIALISTAS, da minha querida Celine Song. Na esteira do sucesso do excelente drama romântico VIDAS PASSADAS, ela quis dar um verniz realista no gênero da comédia romântica. O resultado é, exatamente, uma comédia romântica realista. Eba! Você sai da sessão meio que sem entender. As convenções absurdas foram todas trocadas pela realidade factual. Quem quer ver isso?

Dia após dia no mundo real, a gente desacredita no romance, ao mesmo tempo que deseja que o amor seja grandioso. Mas, hoje em dia, nem os filmes de herói se afastam do que é “possível”, por que as comédias o fariam? É aí que entram os problemas de viver no que há de pior neste mundo capitalista: o cinema nem te deixa sonhar mais.

A real é que as comédias românticas são tudo o que os estúdios de cinema abominam: filmes de médio orçamento, voltados para o público majoritariamente feminino e com bilheterias que nunca bateriam bilhões de dólares. Então, em vez de contratar bons roteiristas, atores, cenógrafos, diretores, diretores de fotografia, figurinistas e diretores de som para fazer você se acreditar no amor, vale mais a pena não contratar ninguém e fazer um filme de herói na tela verde, com alguns editores que não dormem há anos editando tudo na pós-produção dos efeitos especiais.

achou que tava liberado sonhar. Volte ao trabalho, desgraçado!

achou que tava liberado sonhar. Volte ao trabalho, desgraçado!

Os grandes estúdios, estão fora. Então, os streamings vão acolher esse público sedento, né? Mas, a Netflix não está particularmente interessada em fazer um filme que você AME. Ela só quer que você assista enquanto mexe no celular, ache mediano e dê play em outro filme. Que pode, aliás, ser um que você já ama, de décadas atrás. Tanto faz. As novas comédias românticas têm a única função de serem… novas.

Onde estão os roteiristas e diretores especializados no gênero, como a Norah Efron, Garry Marshall e Nancy Meyers? Você nem precisa gostar de tudo deles, mas algum vai te pegar. Não tem como odiar “Mensagem pra você”, “Sintonia de Amor” e “Harry e Sally” (a não ser que você odeie MUITO o amor). Eles sabiam brincar com as convenções, as regras, os clichês. Não existem também atores que querem viver e consagrar esses mesmos arquétipos durante anos de suas carreiras. Ninguém tá ali para forçar os limites e empurrar o gênero para outro caminho, nos desafiar a acreditar no amor improvável de novo. Se você assistir metade, já tá bom.

Não é como se Hollywood tivesse desaprendido completamente. “Splitsville”, de Michael Angelo Covino, traz um pouco da maluquice de volta ao brincar com a falsa liberdade dos “amores livres” de seus personagens, que não necessariamente querem tanta liberdade. “O convite”, da Olivia Wilde, é um dos melhores do ano ao nos mostrar pessoas que desaprenderam a amar o outro quando deixaram de amar a si mesmos. Porém, novamente, ainda é tudo meio cínico com o amor. O sentimento é realista demais. Duro demais.

Aliás, o problema não é só Hollywood. Os musicais franceses também não são mais sobre amor, mas sobre líderes transgêneros de cartéis mexicanos (?????). Comédias românticas no Brasil tem como foco a ponte-aérea Rio-São Paulo, dois dos aeroportos menos sexys já construídos.

apaixonante…

apaixonante…

A realidade é uma epidemia global e, enquanto não questionarmos isso, o cinema vai continuar se esforçando pouco. Eu sou mais do time da Olive Penderghast, de A mentira. Eu também quero alguém com uma boombox na minha janela, com os punhos para cima sabendo que me conquistou. Eu quero voltar a sonhar com o amor irreverente, acreditar nos efeitos da maré alta sobre meus sentimentos, rir do perfume mágico que faz qualquer um se apaixonar, mas que é usado no alvo errado.

Precisamos exigir mais do amor e das comédias românticas. Vá ao cinema quando puder e deixe a realidade na porta. Abrace o romance que explode em música e não para de ficar mais colorido. A gente merece ser feliz com o clichê pelo menos no escurinho do cinema.


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