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“Um coração simples”, Gustave Flaubert

Sthefane Boecker · 2025-04-27 01:16 · 1 claps · 2.9 min read
#literatura #gustave-flaubert #resenha #livros
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“Um coração simples”, Gustave Flaubert

No cânone há pouco espaço para os textos curtos; as novelas, os contos. Pessoalmente, isso não é um incômodo, pois são poucas as ficções registradas fora do romance que considero tão marcantes. Poderia citar alguns contos de Machado que me marcaram; apenas um de Clarice entre os poucos que li; um da contemporânea Fran Bernardes, e a lista terminaria aí. Embora não seja uma leitora assídua de contos e novelas, quando me proponho a ler uma obra desses gêneros, sempre vou ciente de que a experiência nunca será tão arrebatadora quanto é a de ler um bom romance. A meu ver, romances apenas bons muitas vezes são mais agradáveis que contos e novelas considerados sensacionais. Trata-se de uma preferência completamente pessoal. Mas Um coração simples, de Gustave Flaubert, rendeu uma experiência diferente.

A obra gira em torno de Félicité, uma empregada submissa que vive na casa de sua patroa, uma viúva com duas crianças para criar, embora quem as crie seja a empregada, nossa protagonista. Félicité é, como sugere o título, uma moça de bom coração, marcada pela pobreza e pela violência sofrida na infância, a qual, no espaço permitido pela novela, não ganha grande realce. Mas não é porque tem bom coração que Félicité é uma personagem simples, na verdade, é bastante complexa, complexa demais para uma novela. A jovem é corajosa a ponto de enfrentar um touro para salvar a patroa e os filhos desta. Sua vida é de dedicação e serviço, sua história de muitos fracassos, e seus amores demasiado intensos. Todos a quem ama morrem ou partem, mas ela sofre só o suficiente, apesar de em vida ter dedicado a eles todo seu tempo e disposição. Seu primeiro amor casa-se com outra por dinheiro, seu sobrinho morre, assim como a filha da patroa e a própria patroa, mas é apenas a morte de seu papagaio que a tira do eixo.

O surgimento dessa figura curiosa no texto beira o cômico. Sua aparição é repentina e aparentemente regada de nenhuma importância, mas logo ele se torna a principal atração tanto da obra quanto de Félicité, que idolatra o papagaio como se ele fosse um deus. É como se o papagaio fosse símbolo de um luto não elaborado; de dores recalcadas; de perdas que a protagonista legou ao segundo plano. O pássaro surge como que para representar o amor que Félicité dedicava aos outros que perdeu. Ele é um substituto. Apesar dessa interpretação soar absurda — como pode uma moça amar um papagaio tanto quanto amou seu sobrinho seu noivo, uma amiga? — , a sugestão ganha ares de verdade especialmente no trecho em que a personagem revê todas as suas dores por meio da perda de seu amigo animal:

“Então uma fraqueza a deteve; e a miséria de sua infância, a decepção do primeiro amor, a partida do sobrinho, a morte de Virginie, como as vagas da maré, voltaram todas de uma vez, e, subindo-lhe à garganta, a sufocaram.”

Um coração simples é uma novela em que a vida de Félicité não é o principal, mas seu caráter, seu interior, suas dores. Acontecimentos marcantes passam pelos períodos curtos como se não fossem nada. O sentimento que a perda da filha da patroa causa nesta é resumido em um único período: “O desespero da Sra. Aubain era ilimitado.” O anúncio do adoecimento de Virginie também: “Virginie enfraquecia.” A morte do sobrinho de Félicité é apresentada de forma semelhante, em dois períodos curtos: “Estava morto. E não diziam mais nada.” Essa parece ser a forma de o narrador nos dizer: “Que se danem os acontecimentos, quero que olhem para Félicité; ela que importa aqui!”. As perdas, doenças e partidas são o pano de fundo para o que acontece dentro da protagonista. Essa rapidez em que as coisas se desenrolam, os curtos períodos e parágrafos para contar a história de uma vida, nos chama atenção para o fato de que Um coração simples não é uma história que poderia ser contada em um romance, os acontecimentos jamais nos pareceriam tão banais se contados de outra forma. A novela, portanto, parece-me o único meio pelo qual Félicité poderia marcar tanto o leitor.

Publicada já no final da vida de um dos maiores escritores franceses, apenas três anos antes de sua morte, o livro poderia muito bem ser considerado uma obra prima, não fosse o problema do cânone em aceitar textos curtos como dignos de nota. Não posso julgá-los, este texto começou com a apresentação da minha vergonha, mas posso afirmar que, no caso de Um coração simples, é um grande equívoco.


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