Em mim existiu uma ilha chamada Ítaca
Todos nós sabíamos o significado daquela manhã, muito embora tenha sido um dia comum de novembro para os que não viviam o que vivíamos e…
Em mim existiu uma ilha chamada Ítaca
Todos nós sabíamos o significado daquela manhã, muito embora tenha sido um dia comum de novembro para os que não viviam o que vivíamos e não sentiam o que sentíamos.
Aquela manhã era o marco de um fim declarado, como uma rua solitária que se despede a cada passo que te conduz para uma outra. Aquela manhã era uma despedida anunciada a todos os que deixariam o que estávamos prestes a deixar.
Na lousa não havia nada escrito, não teve aula, o violão e o pandeiro permaneceram no canto da sala, e as mochilas nas carteiras. Calma. Andei pelo colégio como se o estivesse experimentando pela primeira vez. Saboreei as conversas no chão da quadra, peguei na mão do meu primeiro parceiro de quadrilha. Me calei pela primeira vez na biblioteca e fofoquei com a moça da enfermaria. Entrei em todos os quadros da sala de inglês e senti o cheiro da horta que ajudei a montar na primeira série. Brinquei na bagunça da sala de artes e me perdi nos acordes dos violões da sala de música, procurei moedas no chão com o moço das obras e catei as amoras de abril.
“É fim de um ciclo e o início de outro” disse a coordenadora para melhorar os ânimos, ela presenciara tantas outras turmas irem, que pensava ter desenvoltura para distribuir consolos. Mas já sorríamos como adultos convencidos de um triste fato imutável, não cabíamos mais ali, e apesar de ser algo facilmente assimilável, essa racionalidade não nos pertencia naquela manhã. O fato era que 7h30 não esperei que o sinal tocasse logo, não ansiei pelo intervalo das 10h15 e muito menos pelo o término das aulas.
Sentamos no pátio com essa tímida alegria com cheiro de saudade, estávamos lá afinal de contas, no nosso último dia como estudantes do colégio Ítaca. Amanhã bruscamente não seríamos mais o que éramos hoje. Estávamos em uma ilha que se aproximava lentamente da costa, onde teríamos contato com outro mundo que insistia em se fazer presente.
Observamos aquela manhã se acabar na tarde. Se juntos nos construímos naquele lugar, era sozinhos que nos despedimos do que foi nosso e, quando chegou a hora, atravessamos. Atravessamos cada um do seu jeito naquela infinita tarde de novembro.
메타데이터
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