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A casa.

Deputado Carneiro de Campos, 289. O endereço onde "se tudo der errado, eu volto pra lá". Era também o endereço que eu informava em…

Tenile Vicenzi · 2021-12-23 17:19 · 4 claps · 3.6 min read
#impermanencia #casa #minimalismo #desapego
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Wiki topics: 🏠 · Home & Living

A casa.

Deputado Carneiro de Campos, 289. O endereço onde "se tudo der errado, eu volto pra lá". Era também o endereço que eu informava em cadastros diversos, porque nessa dinâmica meio nômade que vivo há uns 10 anos, todos os outros eram muito temporários. Esse não, esse era o permanente.

Passei grande parte da minha vida morando nesta casa. Tenho uma lembrança do que senti na primeira noite que dormi no meu quarto. No auge dos meus 9 anos de idade, ele me parecia enorme, e um tanto quanto frio — ainda sem móveis, só com um colchão no chão, meio solto e flutuante em um espaço, que de tão grande e vazio até fazia eco. Tava tão bom naquele apartamento que era pequenininho, eu me sentia mais próxima da minha mãe, do meu pai e do meu irmão. Não entendia muito bem porque a gente precisava dessa casa tão grande.

Mas não demorou nada pra eu me acostumar com a minha nova casa. E aqui, fazendo as contas, entre idas e vindas, vivi por uns 18 anos. Apesar das minhas idas, o meu quarto nunca deixou de ser meu quarto. Os álbuns de fotos de uma vida, cartinhas da época de escola e diários de adolescente, ursinhos de pelúcia, livros, apostilas de estudos, umas roupas que ainda gosto (mas não o suficiente pra levar embora comigo), utensílios de cozinha e de decoração de quando eu era casada — tudo enfiado nos armários do meu quarto.

E a primeira pergunta que fiz foi pra minha mãe foi: - Mãe, mas no teu apartamento novo vai ter um armário pras minhas coisas, né?- Não, os quartos são pequenos.

Parece que finalmente estou sendo convidada a sair simbólica e definitivamente da casa da minha mãe, com todas as minhas memórias afetivas. Hora de praticar o desapego. Levanto a bandeira do minimalismo, mas de fato, ser minimalista com as tralhas de uma vida na casa da mãe não é exatamente a melhor prática.

E pra ser sincera, nesta casa nunca fomos muito minimalistas. Tinha muito espaço, e nele fomos enfiando coisas. Mas talvez, o melhor uso que fizemos do espaço, foi encher ele de gente. Minha mãe sempre amou ver essa casa cheia, palco de tantos e tantos encontros. Jantares, almoços, festas de aniversário, formaturas, Natal, e muitas, mas muitas festas “sem motivos”.

Reuni aqui as diferentes tribos das quais fiz parte em toda a minha vida. Dos lugares onde trabalhei: da Bronx (as festas da Bronx tinham um nome, o famoso Choppeidança), da Renault e da Volvo. Dos lugares onde estudei: do Santa, da PUC, da FGV, da SBDG, do Germinar. A galera da Grande Roda de Tambores, do Maracatu, do curso de cinema na FAP, da Conscienciologia… Eu tinha esse costume de aglutinar pessoas, de juntar os diferentes grupos em um único espaço, e o espaço era esse. Essa casa foi um pouco de todo mundo.

E se ela pudesse falar, quantas coisas contaria. Um filme me vem à mente. As histórias felizes, as celebrações de tantas conquistas. Das histórias tristes, a mais marcante, quando os meus pais se separaram e ficamos só nós 3: minha mãe, eu e meu irmão. Pensando bem, essa casa também foi palco de muitas despedidas. Aquelas que aconteceram quando fui embora pra SP, pra Itália, pra Ásia, pra vida. A cada despedida, não voltei a mesma pessoa.

Despedidas de mim mesma se deram por aqui. Quantas Teniles se foram, nestas transformações constantes pelas quais passei, da infância até os dias de hoje, que foram em parte acompanhadas pelos diferentes grupos e pessoas que vieram e se foram, e também marcada pela minha versão que por um tempo não tinha grupo nenhum e gostava de ficar sozinha no quarto.

Sutis, quase imperceptíveis foram essas despedidas nos momentos em que aconteciam. Sempre teve uma última vez em que alguém veio aqui. Teve uma última vez em que eu era alguém, que de repente deixei de ser. Pensar no que vivi aqui ajuda a contar a história da minha vida.

Agora é hora da despedida da casa. E a gente não poderia se despedir de outro jeito, se não, reunindo pessoas. Celebramos na nossa futura ex-casa o Natal com a família inteirinha reunida: meus avós, pais, irmão, tios, primos. Não tenho palavras pra descrever o quentinho no coração. Com a minha turma da PUCPR, celebramos 19 anos de formados. Essa mesma turma que esteve aqui comigo, todos os anos, desde a minha festa de aniversário de 18 anos. Além de um encontro especial com as minhas amigas do Santa, a escola onde estudei a vida toda.

Me sinto pronta pra esvaziar meus armários. Transbordando gratidão pelo privilégio de uma vida com tanto conforto. Por ter me sentido protegida, cuidada e amada aqui. Essa casa, que parecia enorme aos olhos da menina de 9 anos, na verdade só era grande o suficiente pra caber tanta gente querida que faria parte da minha vida dali por diante.

Me despeço do meu endereço permanente, lembrando que ele nunca foi permanente, só foi temporário por mais tempo. Assim como tudo que na vida nos dá a falsa sensação de permanência. Celebro a transitoriedade, o movimento, os fins dos ciclos — a vida acontecendo.

E para os novos habitantes dessa casa, um desejo sincero: que sejam tão felizes quanto eu fui, quanto fomos todos nós, que aqui estivemos por mais ou menos tempo, em eternos momentos efêmeros.


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