A grotesca imagem da cultura e a arte de fazer perguntas [Parte 1]
Este texto tem origem numa interrogação fundamental que cerca a pesquisa do Acontecimento no campo da Educação: como pesquisar com Gilles…
A grotesca imagem da cultura e a arte de fazer perguntas [Parte 1]

Este texto tem origem numa interrogação fundamental que cerca a pesquisa do Acontecimento no campo da Educação: como pesquisar com Gilles Deleuze? Falar do Acontecimento remete, imediatamente, à filosofia da diferença e suas implicações. Filosofia que também pode ser entendida como das superfícies, pois com Deleuze, abandona-se a clássica questão filosófica de pensar em termos de altura e profundidade. Estas dimensões se mesclam perdendo sua consistência e poder de sobredeterminação quando a superfície é o que importa (Garcia, 1999, p. 10). Deleuze afirma a imanência absoluta do pensamento ao mundo existente, a recusa categórica a toda forma de pensamento que transcenda o Ser das coisas ou qualquer espécie de extrassensível. Trata-se, como afirmou Badiou (1997, p. 47), de uma antidialética, pois não se deve pensar por categorias ou mediações. A negação da dialética visa um pensamento que, articulando multiplicidades, ultrapasse o tempo na produção do novo, do impensado: o pensamento como Acontecimento.
Acontecimento que não deve ser confundido com o que acontece (acidente), mas que se expressa no que acontece. Ele é o que deve ser querido, o que deve ser compreendido, o que deve ser representado no que acontece (Deleuze, 1998, p. 151).
Neste sentido, a pesquisa do Acontecimento caracteriza-se por uma natureza empirista transcendental; não busca um significado fora dela mesma, nem o conhecimento acerca de um determinado fenômeno educacional, como se pesquisar fosse a passagem do saber ao não saber. Justamente o contrário: o que anima esta atividade é o processo de desmontagem de todos os modelos anteriormente praticados.
Efetuar este exercício de demolição é chocar-se com o já feito, é estranhá-lo. E para que isto ocorra, é fundamental compreender a crítica radical que Deleuze estabelece, com base em Nietzsche, sobre o que é a Imagem do Pensamento. Para Deleuze, há um paralelismo entre o Ser e o Pensamento, que o levou a desenvolver toda uma doutrina. O ato de pensar presume um começo, um início, estando em jogo pressupostos objetivos e subjetivos. São forças que nos constrangem a pensar de determinado modo, segundo um estilo, um regime de produção. Por exemplo, o cogito cartesiano: “Penso, logo existo!”. Pressupõe-se, sem definição, que cada um saiba, sem conceito, o que significa eu, pensar, ser. Estas premissas são tomadas por universais — o que ser e pensar querem dizer — e ninguém pode negar que duvidar seja pensar e, pensar, ser, instaurando-se a forma da representação.
Deleuze quer acabar com esta inclinação natural do ato de pensar que faz com que a filosofia pareça começar sem pressupostos. Esta Imagem é um desenho, um plano, um traçado não filosófico, pré-filosófico, em que a filosofia se faz. Nietzsche já denunciava o caráter moral desta Imagem, a suposta boa vontade da filosofia, sua afinidade natural com o Verdadeiro e o Bem. Por isso, o filósofo francês a denomina Imagem Dogmática do Pensamento. Ela é baseada no reconhecimento, na correlação entre, de um lado, o intelecto (a faculdade do pensamento) e, do outro lado, o objeto externo. Portanto, para esta Imagem, pensar significa responder corretamente à pergunta: “o que é?”. Pensar, assim entendido, quer dizer conhecer. O pensamento partiria de ideias inatas e, no contato com as coisas, ele as reconheceria. Através desse reconhecimento, reencontra-se o de sempre: o Eu, o Mundo, a Escola etc.
Além de criticar radicalmente a Imagem Dogmática do Pensamento como o modelo do que seja pensar, ele anuncia uma nova imagem do pensamento, que, em Diferença e Repetição, chama de pensamento sem imagem. No caso, trata-se de abolir uma imagem preconcebida do que seja pensar, capaz de orientar e formatar previamente o pensamento, eliminando qualquer modelo. O pensamento é visto como um encontro com o fora, o diferente de si, com os signos que forçam e o obrigam a pensar, rompendo com a doxa (a opinião, o senso comum) e acolhendo as coisas como elas verdadeiramente são. Pensar, neste sentido, não é reconhecer, não é um exercício da boa vontade, não é a correta aplicação de um método, não tem a ver com a verdade, nem quer saber sobre a essência das coisas.
Os oito postulados: o princípio da cogitatio natura universalis, o ideal do senso comum, o modelo da recognição, o elemento da representação, o negativo do erro, o privilégio da designação, a modalidade das soluções e o resultado do saber integram a Imagem Dogmática do Pensamento. Eles formatam o ato de pensar impondo uma imagem que é a do Mesmo e do Semelhante na representação, traindo o que significa pensar. Abordarei, neste artigo, a grotesca imagem da cultura que nos rodeia, sendo a escola responsável por iniciar as crianças em suas formas canônicas. A arte de formular os problemas e suas soluções (o sétimo postulado) representa um dos pilares da cultura que molda a mente. Os educadores manifestam por esta arte um apreço especial, pois incentivam de várias formas o desenvolvimento desta capacidade em seus alunos, desde que as soluções por eles encontradas sejam as previamente esperadas.
Porém, seria uma ingenuidade de minha parte considerar que os mestres assim procedem por má intenção. Trata-se, como afirma Deleuze (1998, p. 259) no início do sétimo postulado, de uma grotesca imagem da cultura presente nos testes, nos programas de sucesso da TV, nos concursos em geral e na educação, onde cada um é convidado a escolher livremente, desde que esta escolha coincida com a de todos. Há um apelo para que o indivíduo exerça automaticamente sua individualidade, desde que esta seja uma mesmice. A Imagem Dogmática do Pensamento, portanto, apoia-se em exemplos psicologicamente pueris, socialmente reacionários (os casos de recognição, os de erro, os de proposição simples, os de resposta e solução), a fim de prejulgar o próprio pensamento e o sentido do verdadeiro e do falso. Sob esta Imagem, só se pergunta o que se pode responder. Desse modo, a atividade de pensar fica reduzida à busca do verdadeiro e do falso, de soluções. Evidencia-se aí um preconceito social que, para Deleuze, tem o objetivo de nos infantilizar, que nos impele a resolver problemas vindos de outro lugar, que nos distrai e nos conforta ao afirmar que ganharemos se soubermos a resposta.
Integra esta imagem da cultura a ideia de que os problemas são dados já feitos e que eles desapareceriam nas respostas e soluções, sendo apenas ilusões da mente. A atividade de pensar, portanto, se esgotaria na resolução de problemas, com o verdadeiro e o falso concernindo unicamente às soluções. Deleuze (1998, p. 262) denomina ilusão filosófica este esforço de levar a prova do verdadeiro e do falso até os problemas, fazendo com que a verdade dos problemas dependa de lugares-comuns, ou seja, da possibilidade lógica de receber uma solução. O método cartesiano, amplamente utilizado pelas ciências naturais, é um exemplo, pois pressupõe a resolução dos problemas tidos como dados. Não é um método de invenção, utilizado para a formação e a compreensão dos problemas.
No entanto, como é explicado por Deleuze (1998, p. 260) no sétimo postulado, todo mundo reconhece que os problemas são o que há de mais importante. O ato de pesquisar, o método científico, está baseado na sua formulação. Ouve-se nas escolas uma máxima pedagógica: mais importante do que memorizar conteúdos é saber pesquisar! Nesse sentido, iniciam-se, no Ensino Fundamental, tentativas de formar um aluno pesquisador. E como isto vem ocorrendo na prática do ensino?
Referências
BADIOU, Alain. Deleuze: o Clamor do Ser. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 1997.
CORAZZA, Sandra Mara. Notas de aula: Exercício do pensamento: ideias problemáticas e pedagogia da besteira, 2002. CORAZZA, Sandra Mara. Pesquisar o Acontecimento: estudo em XII exemplos, jan. 2004.
DELEUZE, Gilles. Diferença e Repetição. Rio de Janeiro: Graal, 1998.
DELEUZE, Gilles. Lógica do Sentido. São Paulo: Perspectiva, 1998.
GARCIA, Raul. La Anarquia Coronada. La Filosofia de Gilles Deleuze. Buenos Aires: Ediciones Colihure S.L.R., 1999.
MAGDALENA, B.; PERNIGOTTI, J. Projeto Amora, Porto Alegre, dez. 1996.
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