A Chuva
Um texto escrito nestes episódios de angústia. No cotidiano dos que dependem dos próprios pés para chegar onde necessitam ir.
A Chuva

Fotografia capturada por Pedro Miranda nas ruas molhadas de Ouro Preto — MG; 2024.
É diante do som do portão a se fechar que iniciava mais uma caminhada no rumo do meu destino. O início da noite por qual me guiava diariamente, hoje, não era tão diferente quanto os demais. Me permitia seguir com os mesmos costumes das noites anteriores, com as mesmas expectativas comumente identificadas, nos mesmos passos que antes dera naquela mesma cidade com essa íntima sensação de que sempre há o inevitável.
Caminhava a deslumbrar-me naquelas montanhas distantes, cobertas em nuvens que se tingem num cinza escuro que só se vê por aqui. Percorria ruas já deixadas pelo movimento das pessoas que retornavam de suas obrigações diárias com o cansaço de anos acumulados. As casas já estavam iluminadas pelas luzes das presenças fantasmagóricas, aquelas presenças misteriosas que ali sempre estavam e atraíam minha despercebida atenção. Entendia que de tantas vidas não identificadas, algumas me encontravam pelas ruas das quais caminhávamos; nas vielas e escadarias, nos caminhos cruzados que com poucos segundos se perdiam na minha frágil memória.
Meus olhos, entorpecidos em lassidão, observavam. Examinavam a cidade montanhosa e suas luzes que formavam ondas morro acima; a igreja e os badalares do sino; a movimentação tranquila da árvore suspensa num barranco a aguardar o dia de sua queda. A escuridão da noite que chegava cobria com cuidado o verde dominante, aspecto do dia que retornaria no primeiro raio de sol; ali também estavam, visíveis no breu horizontino. E mesmo que não pudesse encontrar tantos detalhes a olho nu, era dotado da consciência de que eles ali estavam, me levava a acreditar nisso, era necessário imaginar a beleza no mundo que me faltava em alma.
Olhos que observavam tudo o que podiam, acompanhados do sentimento estranho de que daquele vento gélido que me causava arrepios, algo a mais me aguardava. E era desta mesma visão que me intrigava, por trás do topo daquele pico que nos dias limpos tornava-se o cartão postal da cidade, que as nuvens escuras se destacavam na medida em que meus passos se apertavam e algo em mim era pressionado de forma a fazer-me desejar o passado como um resguardo melancólico e nostálgico. Carregadas das lágrimas celestes, retumbavam as formas grandiosas; imponente era o brilho que cruzava os céus tão rápido quanto meus olhos — bons observadores — poderiam acompanhar. Passos rápidos haviam de me tirar das ruas antes daquele fenômeno, mas meu destino ainda estava distante, e o que havia de fazer senão esperar pelo melhor? Uma destas coisas que apenas o tempo seria capaz de responder; um exemplo claro de uma pequenez tão sutil; de uma vulnerabilidade tortuosa. Mas eu tinha a minha preferência muito bem definida… Uma pena, já que os céus, comumente, não davam ouvidos.
Nas ruas principais se ouviam os carros, a cidade pode ser mais movimentada que o comum, principalmente momentos antes do inevitável. Como se escapassem de um monstro que assola vossas vidas pessoais repletas de uma dor aguda disfarçada de rotina, caminham em passos rápidos e dirigem seus veículos em alta velocidade na medida em que o trânsito permite. A impaciência toma o espaço de todas suas demais prioridades; busca seu objetivo primeiro, assim como o meu: o destino final: um local seguro, um espaço onde possam se livrar da possibilidade de se lidar com aquilo que é implacável. E se são capazes de sobreviver a tal ocorrência, não posso dizer já que a sobrevivência também me corrói as entranhas.
As ruas ficam repletas de suas marcas, deixam para trás suas possibilidades, esperanças, desejos e desgraças. Calçadas sujas pelos rastros de seus passos largos e desenfreados que esperam encontrar no olhar alheio o pequeno sinal de que, talvez, não mais ocorreriam infortúnios e estaríamos livres das paixões dos próximos dias. E são nestes olhares perdidos que muitas coisas ocorrem, que corações se estremecem, que horrores vem à tona, que cumprimentos sejam entregues. Os curiosos se exploram, buscam vida no próximo, aquela que não tem em si. Por vezes encarei muitas destas pessoas, deixando que meus olhos explorassem o fundo de suas almas. Tentava imaginar como fora seus dias, o que lhes aguardava em seu destino e como sobreviviam na mesma condição em que eu estava. Uma mulher, meia idade, olhos baixos, pensativa. Não havia dito uma palavra, mas fora possível traduzir tudo aquilo que ela emanava — um trabalho ruim, uma casa infeliz, a obrigação moral de estar com seu marido e filhas enquanto seus sonhos que a muito tempo, deixados, se distanciavam. Se lembrava de os ter apenas nos atos falhos de suas conversas onde o desejo batalhava para surgir na superfície, não tendo tempo o suficiente antes de ser levado de volta para as profundezas do inconsciente na esperança de que algum dia pudesse ser realizado. Um homem, destes que dizem ser um mal encarado. Trajava roupas sujas e seu cheiro me lembrava os tecidos que haviam sido esquecidos na máquina de lavar por dias sem suspeita; mas seus olhos ao me encontrarem transmitiam mensagens sucintas de que ele ainda possuía resquícios de esperança, como se pudesse ouvir seu desabafo na medida em que caminhava naquelas ruas pouco iluminadas: queria ainda acreditar que poderíamos ter vidas mais satisfatórias, que nossos passos por estes ladrilhos da calçada, por vezes esburacados e carentes da capina, nos levariam a um futuro próspero onde a liberdade não seria um problema humano. Seu coração era incompatível com o que lhe era premeditado, pois se as pessoas atravessavam a rua para evitar o contato com sua inevitável miséria, ainda preferia o encarar em sua verdade, aceitando o fato de que esta era apenas mais uma alma desamparada desta cidade. Sua busca era a mesma de todas as outras ambições, e diria confiar mais em seu coração que naquele que, dizendo ser bom, atirara xingamentos ao indefeso. Pois haviam ainda as pessoas verdadeiramente ruins, daquelas que os encontros são raros. Não as via nessas caminhadas com frequência, poucas foram as vezes que pude as notar já que a maioria transitava em seus veículos exorbitantes. Para ser verdadeiramente ruim é necessário pagar um alto valor, o qual estes vultos abandonados pelas ruas não podem pagar.
Deixei-me levar ainda com esperança, me distanciando dos devaneios que olhares alheios antes trouxera. E mesmo que notasse os raios no céu, gostaria de acreditar que chegaria ao meu destino sem muitos problemas, mas ainda me faltava mais passos dados, estes que me guiavam pelo mundo como quem busca por algo. E busco! Assim como todas as outras existências que posso processar.
Passei por este cruzamento onde se notava os aspirantes a viventes no ponto de ônibus, atrás dele uma parede de pedras com seus musgos a gotejar ainda úmidos. Mas não me recordo de algum dia em minhas observações ter presenciado tais musgos sem suas gotas intermináveis. Pingam sobre o teto da estrutura metálica onde conversas sobre os mais diversos assuntos afloram, enquanto do outro lado da rua, por onde caminho e os observo, há também um bar onde se esquecem as obrigações do dia e se embriaga em busca de algum tipo de satisfação. E talvez possa ter satisfação na embriaguez do álcool. Eu, no entanto, me embriago nas fantasias; no desfrutar do mundo que me promete liberdade. Levado para fora de mim na experiência estética que é constituída pelo simples contato com um universo um tanto quanto curioso.
Caso pudesse dizer algo aos bêbados, não diria. Que aproveitassem suas vidas como preferissem. Mas o que seria se não tivessem de esconder por detrás dos sorrisos desconcertados, suas lamúrias para com a vida? Como as gotas que escorrem pelos musgos da grande parede de pedra, suas lágrimas enfeitavam seus rostos nas noites em que o álcool não mais podia os salvar.
Inevitável, cada pessoa que caminhava por estas ruas possuía suas formas de sobrepor as dores. Mas não nego ser bonito entender que mesmo em terras tão sombrias, encontrariam motivos para despencar em risos e ímpetos de alegria. Talvez seja esta a razão da felicidade ser tão encantadora, a sua escassez.
Fui levado pelo vento que parecia mais forte, empurrando meu corpo por mais daquelas ruas escuras, não havendo com que contar já que as nuvens bloqueavam qualquer resquício do satélite natural que poderia me iluminar. Passei a sentir as primeiras gotas que caíam, talvez eu não tenha mesmo sorte, ao menos nesta noite, o sucesso de chegar ao meu destino antes da chuva cair não me fora garantido. Me restava aceitar, ter a crença de que não passaria de gotas e que meu caminhar lento e distraído não havia de me atrapalhar. Aumentei o ritmo dos passos e pude os ouvir ecoar, sentia que estavam distorcidos e precisei olhar para trás para notar que havia uma mulher a poucos metros de mim. Reduzi a velocidade, nunca gostei que ficassem a me acompanhar, aquela pressão no peito me pedia para parar e eu o fazia aguardando que, em sua tranquilidade, aquela que me ultrapassava se fosse com o tempo e caísse em meu esquecimento enquanto me distraindo com a visão das torres do centro que, daquele mirante, pareciam tão pequenas. Este momento que eu não soube administrar, diminuindo o ritmo que a pouco havia aumentado, parando sobre as gotas que caíam, ali dei o sinal para os céus que se descarregassem sobre mim, que eu era sua vítima indefesa e estava entregue aos teus julgamentos. Em um suspiro retomei a caminhada, mas agora meus passos eram pesados, lentos, e com os olhos além do muro de pedras que acompanhava a calçada me deixei distrair mais uma vez, na beira do precipício, podendo ouvir as vozes de um lugar tão inóspito que alguém outrora chamara de “casa”. O momento havia chegado, e enquanto retirava o guarda-chuva de minha bolsa, sentia a chuva que caía e cobria algumas das ruas do mundo. As sentia em minha pele e ouvia o teu som. O cheiro era do crisântemo como quando se despede de alguém em um ritual para a morte. E semelhante a quem não é chamado, aquele odor invade seu espaço retirando o discernimento de estar ou não estar. Como quem flutuasse passei a caminhar com os sapatos a serem molhados constantemente pela água que caía, sem saber dizer quando aquilo iria parar. Bastaria ter saído um pouco mais cedo, ou talvez mais tarde, e não precisava assim estar. Mas sonhar é algo perverso, pensar no passado é viver de amores pela falta daquilo que já se foi, idealizando trajetórias diferentes para se iludir com ilusões dolorosas. Enquanto pensar no futuro retoma o aspecto do fantasioso — a imaginação nos maltrata com esperanças incertas. O que me resta é este agora: molhado com o odor infecto de um mundo que me castra a cada questionamento que faço. Na chuva de uma noite qualquer que nunca mais será qualquer.
É como se toda a revolta que me mantivesse vivo nesta existência tão absurda viesse à tona perante a natureza. Não me basta questionar quem sou, eu já sei que não terei esta resposta. Me disseram ser capaz de ir além, e quanto mais vou ao além, menos me encontro com este universo insatisfatório. Enfureço-me e de imediato sou contido, não há espaço para isso. Vomito palavras enquanto me banho nesta chuva de emoções e confusões, careço de mim mesmo e nem sei o que sou; preciso de respostas que nunca pensei em perguntar e talvez nunca haverei de as encontrar. A angústia que sinto é ímpar em um grupo de pares, pois sei não ser o único a observar este céu carregado e desejar que ele despenque sobre toda essa cidade levando embora todas as perspectivas que mentes exaustas desde sua gênese tem sobre suas mais diversas utopias. Reconheço minha condição como a de um vivente necessitado de completude, desconheço tudo aquilo que me torna ignorante; me encontro aflito sem saber se sou um ou mais, se há mais ou apenas um; se a chuva que cai e alaga as ruas é verdadeira, se esta sensação de meus sapatos encharcados que afetam as meias agora molhadas deveria me deixar tão incomodado; então que seja feita vossa vontade. Neste momento não há almas e pessoas nas ruas para que olhares e mensagens sejam objetos de troca, para que possam notar no fundo dos meus olhos aquilo que sempre quis dizer e nunca houvera palavras que pudessem expressar. Que com tanta facilidade esta chuva faz borbulhar, ensopando as formas e conceitos que tão racionalmente tentei organizar. A enxurrada na rua é apenas um atalho para entender que esta vida é trágica, que os homens não podem lidar com o inevitável e querem ser deus, conseguindo com tamanha astúcia dominar o que podem para em seguida verem estas mesmas nuvens carregadas levarem embora tudo aquilo que um dia puderam chamar de “meu”.
Na medida em que a chuva passa, meu corpo trafega por ruas limpas. A água levou embora toda aquela sujeira que antes ali estivera, nas ruas e em mim, deixando sua própria marca. A revolta permanece, mas não se manifesta pois fora apaziguada. Por entre ladrilhos molhados que refletiam as luzes amareladas das arandelas, pequenos riachos transitavam, e eram nestes riachos que minhas questões iam embora, trazendo de volta os novos termos de minha aceitação. Não mais carros, nem mesmo pessoas, apenas uma mente exausta pronta para ser preenchida pela divindade que se chama “vida”. Este momento tão solitário em que posso caminhar sem o guarda-chuvas a proteger minha cabeça de todo o sofrimento, das transições e mudanças que a chuva trouxera para aquela cidade, percebo ser o único do qual tenho certeza de se estar consciente de todas as injustiças do ser. Pois sabia que aquelas ruas não seriam mais as mesmas, e no esquecimento daquele sentimento efervescente que antes me dominara agora tornava a observar com apreço as construções, o poder humano de desenvolver formas tão impressionantes de se sobreviver ao tempo. É neste desespero pela existência em que, por poucos momentos, me sinto pertencente aos velhos muros tanto quanto sou aos picos das montanhas.
Chegando ao meu destino posso confrontar todos os pensamentos que me prendiam ao mundo, libertando-me destes detalhes menores na expectativa de que em algum momento serei absoluto tanto quanto a chuva que caía sobre mim. Afinal, sei que quando passar daquela porta que separa a rua e o desejo por liberdade, tais pensamentos serão apagados. Por necessidade, volto a ser quem sou, este “eu” fixo e planejado, seguindo passos premeditados sem respostas para revoltas.
Sobre
A Chuva, 2024.
Um texto escrito nestes episódios de angústia. No cotidiano dos que dependem dos próprios pés para chegar onde necessitam ir. Acompanhar os passos deste transeunte é refletir o porvir, a inevitabilidade da vida; o trágico fim. Seja na água que corre ou no destino final, acaba por encerrar em um só movimento: o ciclo absurdo.
Ir, vir, repetir. Subir, descer, retomar. Tal como Sísifo empurra a pedra, uma nova caminhada virá. E o que há de justo em histórias como essas?
A chuva é só mais uma piada absurda. O “não” do mundo para as questões colocadas. O destino da maioria.
Guiar seus próprios passos ou escorrer na enxurrada.
O autor
Pedro Miranda é graduado em Filosofia pela Universidade Federal de Ouro Preto. Mestrando em Filosofia pela Universidade Federal do Espírito Santo e vivente absurdo.
Desliza na melancolia e encerra-se na revolta. Esbarra na esperança e escreve sobre o mundo; sobre a beleza, as injustiças, as poesias naturais e os desastres da mente.
Investiga e busca conhecer. Mas é limitado. E o ser é o maior ato contra o sistema dos absolutos.
메타데이터
- post_id
- f03f9ebda5c9
- slug
- a-chuva-f03f9ebda5c9
- url
- https://medium.com/@pedromiranda_30273/a-chuva-f03f9ebda5c9
- canonical_url
- https://medium.com/@pedromiranda_30273/a-chuva-f03f9ebda5c9
- author_url
- https://medium.com/@pedromiranda_30273
- status
- ok
- fetched_at
- 2026-06-24 23:31:39