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Morta-viva Linchaquara

Entre os Britos e a Serpente, a disputa pela memória

Fábio Ramos · 2023-03-22 03:15 · 0 claps · 5.1 min read
#araraquara #linchamento #memoria
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Morta-viva Linchaquara

Entre os Britos e a Serpente, a disputa pela memória

A Capela das Almas (ou Capela dos Britos) ainda em construção. Colagem digital feita no Photoshop. Fonte: Museu de Imagem e Som “Maestro José Tescari” (MIS)

A Capela das Almas (ou Capela dos Britos) ainda em construção. Colagem digital feita no Photoshop. Fonte: Museu de Imagem e Som “Maestro José Tescari” (MIS)

Tradicional, bairrista, apegada aos sobrenomes, pouco acolhedora aos estrangeiros. Você, araraquarense, já deve ter ouvido essas críticas à cidade.

Certo dia, pouco antes do início da pandemia de Covid-19, me veio à cabeça o mito da serpente da Igreja Matriz, uma cobra subterrânea que impede o término da construção da abadia e, eventualmente, se levantará para destruir a cidade. Por sorte, a águia, esculpida no chafariz em frente à Igreja, surgirá para detê-la.

Lendo os textos de Rodolpho Telarolli, Luís Michel Françoso e José Carlos Magdalena, conheci a história de Linchaquara. O mito começava a fazer mais sentido. Uma pulga atrás da orelha, bem alimentada pelo ócio do isolamento social, me manteve às voltas com essa história durante o primeiro semestre de 2020. Fiz algumas ilustrações, colagens e posts sobre o tema, a saber, a ligação entre o linchamento dos Britos e o mito da serpente.

Hoje, três anos depois, me deparei por acaso com esse manuscrito perdido. É a vez de publicá-lo.

1. Santos Britos

Rosendo e Manoel de Souza Brito. Sobrinho e tio, respectivamente. Retirantes sergipanos, chegavam do polígono das secas anos antes da Guerra de Canudos (1896). Rosendo, 24 anos, era um combativo jornalista, de simpatia disputada por monarquistas e republicanos. Manoel, 49 anos, trabalhava na farmácia São Bento, tinha mulher e oito filhos menores em Sergipe, para quem mandava o produto de seu trabalho. Da morte severina — “que se morre de velhice antes dos trinta, emboscada antes dos vinte, de fome um pouco por dia” — ao coronelismo.

Os Britos na Capela das Almas. Ilustração digital feita no Photoshop.

Os Britos na Capela das Almas. Ilustração digital feita no Photoshop.

Estão enterrados no cenário desta ilustração: na Capela das Almas, inaugurada no Cemitério das Cruzes (o Cemitério dos Britos) 55 anos após a morte dos sergipanos e ponto de chegada da serpente que cruza a cidade a partir da Igreja Matriz, onde eles foram linchados.

Segundo o historiador Rodolpho Telarolli, apesar do empenho de poderosos em apagar os episódios da memória popular — no dia de Finados, capangas ficavam escondidos no cemitério para perseguir quem fosse dedicar velas às vítimas — , acabou se fortalecendo exatamente o oposto: a eterna lembrança dos “Santos Britos”, alvos de devoção daqueles que, pela posição nas relações de produção, neles se identificaram e no seu linchamento veem projetada a sua própria condição de opressão, mesmo que inconscientemente. A santificação seria, antes, de ordem social, com fundamentos econômicos, do que religiosa.

A capela é uma das poucas partes bonitas dessa história, uma homenagem necessária à memória dos Britos. Necessária e atrasada: até meados de 1930 — mais de 30 anos após o linchamento — sua construção era proibida. Por que?

Lembrar e esquecer não se dão ao acaso. A luta de classes está também no campo da memória.

2. Touros

Rosendo Brito, o jornalista, trazia um histórico de desafetos com o coronel Antônio Joaquim de Carvalho, poderoso cafeicultor e líder republicano de Araraquara. O estopim se deu após as denúncias de Rosendo sobre um caso de violência policial cometido pelo tenente Soares, amigo do coronel.

Carvalho persegue Rosendo até a farmácia São Bento, onde Manoel Brito trabalhava, para tomar satisfações. “Aos amigos pão, aos inimigos pau” era a política. Acompanhado de uma bengala e uma faca, o coronel ataca Rosendo, que carregava um revólver. Dois disparos. Os Britos são levados à cadeia, na época em frente à Igreja Matriz.

Os filhos, sobrinhos e genro de Carvalho arquitetavam a resposta. Ao anoitecer da missa de sétimo dia do coronel, se aglomeram no Largo da Matriz cerca de 200 pessoas, dentre parentes, aliados, fazendeiros e seus funcionários. O grande número não visava garantir o sucesso da chacina — tudo estava planejado, com total conivência da Polícia — e sim forjar uma manifestação popular.

Touros. Ilustração digital feita no Photoshop.

Touros. Ilustração digital feita no Photoshop.

Na noite de 7 de fevereiro de 1897, a delegacia é invadida por pouco mais de 20 pessoas. Os Britos são esquartejados e seus corpos expostos em praça pública. Ali, a consequência de qualquer afronta ao coronel e seus protegidos — aos amigos pão, aos inimigos pau.

Em O Alienista, de 1882, Machado de Assis diagnosticava o social brasileiro. No conto, sofreriam da “demência dos touros” aqueles que, diante à mínima ofensa, ordenam um banho de sangue de seus opositores. Do coronel — hoje, nome de escola estadual — aos linchadores, aos fardados, aos patriotas e àqueles que mais parecem toureiros. Touros.

3. Praga de padre

A Matriz, o córrego e a serpente. Ilustração digital feita no Photoshop.

A Matriz, o córrego e a serpente. Ilustração digital feita no Photoshop.

Na manhã seguinte, o padre Antonio Cesarino recolhe o corpo dos Britos e roga uma praga: Araraquara não terá progresso por 100 anos, e, do ódio do linchamento, surgirá uma serpente sob o prédio da Igreja Matriz. Se um dia a reforma da Igreja for concluída, a serpente destruirá a cidade. Ele amaldiçoava, também, os Carvalhos.

Os Britos foram sepultados longe do centro da cidade, no Cemitério das Cruzes, onde eram enterradas as vítimas de febre amarela. Tanto a escolha do local do enterro quanto do julgamento — em Américo Brasiliense — previam afastar o caso da população. No entanto, embora todos os réus tenham sido absolvidos, o crime ganhou projeção nacional e a cidade recebeu uma polêmica alcunha: “Linchaquara”. No sertão mineiro chegavam a cantar:

Veja o povo de Araraquara/ Êta povo marvado/ Lincharo tio e sobrinho/ Quando um só era curpado.

Mais de um século depois, as reformas da Matriz ainda não foram concluídas. Para uns, graças à serpente, cujo movimento cria rachaduras nas paredes. A outros, devido à igreja ter sido construída sobre um córrego. Dentre as várias versões do mito, me encanta a serpente mais humanizada. Dizem que ela surge do “sangue dos Britos”, carregando em seu rastro o que restou deles, quase como um fantasma. Seu corpo, inclusive, acompanha a trajetória dos Santos: a cabeça está na Matriz e a cauda no Cemitério dos Britos.

Perceba que, na praga do padre, o mito é pessimista: a cidade irá estagnar e, mesmo que tente se modernizar, reformar a igreja, será destruída pela serpente. Graças ao linchamento, irá desmoronar sem salvação. A praga é resposta aos grupos que lincharam inocentes. Grupos políticos da elite cafeicultora, já que não foi um linchamento popular. Foi um assassinato premeditado, antecedido pela missa e seguido de “Linchaquara”, do mito da serpente e da política de esquecimento das vítimas.

Em 1911, o prefeito Dario Alves de Carvalho — filho do coronel, linchador e nome de avenida — esculpia o esquecimento: a cadeia pública, palco do linchamento, é demolida e em seu lugar se constrói um chafariz, com uma águia acima das cabeças de serpentes. Se na praga do padre a serpente destrói a cidade, aqui é derrotada pela águia. Morrem, novamente, os Britos.

Mortos-vivos, imortalizados pela santificação e pelo rastro da serpente. Repete-se aquilo que não pode ser lembrado. Por isso, lembrar de Linchaquara. Ir ao passado, não por fetiche museológico, mas para reencená-lo no presente e, enfim, projetar um outro futuro. Recordar, repetir e elaborar.

Fábio Ramos Teixeira. Araraquarense, graduado em Psicologia e mestrando em Psicologia do Desenvolvimento e Aprendizagem pela Unesp Bauru.


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