Textos sinceros não são sempre belos
Mais uma madrugada junto das palavras. Às vezes, as pondo em ordem na tela em branco, às vezes, só deixando-as soltas em minha mente com a…
Textos sinceros não são sempre belos

Foto: Ann H/Pexels.
Mais uma madrugada junto das palavras. Às vezes, as pondo em ordem na tela em branco, às vezes, só deixando-as soltas em minha mente com a desculpa de que vou lembrar quando acordar.
Mais uma madrugada tentando fazer sentido, escrever algo bonito, que descreva bem os meus momentos e pensamentos dissonantes. Mais uma madrugada confusa. Pendendo entre a ansiedade pelas ideias e possibilidades, e a frustração de não saber colocar isso no papel, tão cruamente, como imaginei.
As palavras têm quase vontade própria, e no meu crivo, elas parecem se encaixar só no começo, igual um quebra-cabeça de muitas peças, fácil no início e impossível mais tarde. Meus pensamentos desconexos contaminam a tela, a construção das frases e, muitas vezes, até a mensagem.
Queria ter uma máquina à prova de erro que traduzisse cada ideia e pensamento meu com eficiência. E se pudesse exigir mais um pouco dessa ilusão vazia, gostaria que os derramasse sem perder a beleza, o tom, a delicadeza.
É quando me arrependo de ser tão à moda antiga. As coisas mais difíceis de pôr em palavras são mais aceitas coloquialmente, com direito a pausas, gaguejos, sem pressão em seguir de modo linear ou se expressar super bem. É o jeito natural de uma conversa se desenrolar e socialmente aceito.
É o que me faz pensar, por algumas vezes, que deveria ir por esse caminho e mudar o formato. Mas como, se escrever é o que eu faço e persigo há tanto tempo? Seria uma traição comigo mesma, e pior, baseada em pura preguiça.
Estupidez, porque se fosse tão fácil falar, não teria escolhido me entender por escrito. Começo de novo. Tento traçar um plano mental, respiro fundo e começo a formar uma linha de pensamento que, na maior parte do tempo, só serve para acumular nos arquivos e me confortar em mais uma madrugada de solidão.
Mas nem por isso, eu deixo de tentar. Em cada uma delas, encaro as possibilidades, o pessimismo, a insegurança, porque sei que, entre os meus escritos fracassados, vai haver, pelo menos um, que valha a pena colocar no mundo ou que inspire um novo a chegar.
Nenhuma dessas madrugadas será em vão quando eu for capaz de alinhar o meu estilo, voz e vulnerabilidade à clareza de pôr em ordem o que me cerca/sufoca sem perder a identidade – ou o fio da meada.
Por isso, penso que textos sinceros não são sempre belos. E apesar de prezar por ambos, respeito o fato. Melhor do que acreditar que sou uma impostora. Impostores não mergulham na densidade de suas emoções, não expõem o que dói ou dá errado.
Prefiro, então, arriscar um texto mais ou menos, do que me deixar paralisar pela minha ideia de perfeição. Os meus textos sinceros não serão sempre belos. 'Tá na hora de me acostumar com isso e seguir em frente. Novas madrugadas estão à minha espera.
메타데이터
- post_id
- f06147ff875a
- slug
- textos-sinceros-não-são-sempre-belos-f06147ff875a
- url
- https://medium.com/andressabts/textos-sinceros-n%C3%A3o-s%C3%A3o-sempre-belos-f06147ff875a
- canonical_url
- https://medium.com/andressabts/textos-sinceros-n%C3%A3o-s%C3%A3o-sempre-belos-f06147ff875a
- author_url
- https://medium.com/@andressabts
- status
- ok
- fetched_at
- 2026-08-22 03:48:04