Anistia 79 (2026), de Anita Leandro
Foto: assessoria de imprensa
Anistia 79 (2026), de Anita Leandro

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Prêmios chamam a atenção do público. Eleito Melhor Longa da Mostra Olhos Livres do Festival de Cinema de Tiradentes, e ganhando também o prêmio do júri popular no mesmo festival, “Anistia 79” foi feito originalmente para o Canal Curta!, mas fez tanto sucesso e é tão relevante que ganhou distribuição nos cinemas.
Como em outros momentos de nossa História, para haver mudança aqui dentro foi necessário um movimento lá fora. O Tribunal Russell II, levado a cabo em terras europeias, foi uma iniciativa de exilados latino-americanos, sobretudo brasileiros e chilenos. O estopim para a ação foi a execução de Eduardo Leite, apelidado de Bacuri, após meses de tortura. Depois de lidos depoimentos, o tribunal chega a um veredicto: os militares latino-americanos são culpados de crimes contra a humanidade.
Intensificaram-se os movimentos pela anistia no Brasil, mas a mudança só veio com mais pressão externa. Em junho de 1979 foi sediada em Roma a Conferência Internacional pela Anistia e pelas Liberdades Democráticas no Brasil. Às imagens históricas, que ficaram muito tempo guardadas, gravadas por um participante, reagem pessoas diversas, algumas que estiveram lá, outras que são parentes e amigos dos conferencistas.
Destaca-se a atuação do Movimento Feminino pela Anistia, formado por mulheres relacionadas a pessoas anistiáveis. Essa versão tupiniquim das Mães da Praça de Maio foi a semente para Comitês Brasileiros pela Anistia fundados em diversas cidades. Aqui destaca-se a figura de Carmela Pezzutti, que no ano de seu centenário merece que luzes sejam jogadas sobre ela, cujas informações na web são ainda precárias: na busca pelo seu nome, é possível encontrar apenas sua ficha no DOPS.

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E os trabalhadores, o que faziam? Se organizavam também. E trabalhadores organizados, por exemplo em sindicatos, eram perigosíssimos para as classes que lucravam com a ditadura — inclusive, vem acontecendo um movimento para rebatizar o que houve por aqui de ditadura empresarial-militar, pois foram os dois únicos grupos que se beneficiaram dela. Sendo assim, líderes sindicais foram também presos e torturados, e mais tarde suas liberdades foram pedidas em ações também no exterior.
Clamavam por anistia ampla, geral e irrestrita, mas o primeiro projeto da própria ditadura levada ao Congresso não incluía aqueles que cometeram “atos terroristas”, com ampla interpretação do termo. O projeto seguinte foi aprovado, mas anistiava tanto torturados quanto torturadores. Num passado recente eu diria que essa falta de julgamento dos torturadores está na gênese da extrema-direita brasileira, mas casos como o dos Estados Unidos — que nunca viveu uma ditadura embora tenha sido responsável por muitas — e da Argentina — que puniu seus torturadores — mostram que a ascensão recente da extrema-direita em nível global é muito mais complexa.

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Um documentário feito apenas de imagens de arquivo pode facilmente se tornar maçante, mas aqui isso não acontece. Talvez pela raridade das imagens, que permaneceram inéditas por quase cinquenta anos. Uma cópia desse material foi encontrada pela diretora Anita Leandro na Universidade de Nanterre na França. Sobre essa descoberta, Anita declara:
“Não se trata de um filme temático sobre anistia, mas de um filme sobre a emoção de 11 pessoas que viveram esse processo, diante de imagens de arquivo onde elas aparecem”
A sensata e conhecedora da causa Heloísa Greco faz várias intervenções, mas a mais significativa é a que nos lembra de que a ditadura vitimou muitos indígenas, camponeses, negros e quilombolas. Ainda estamos lutando para garantir direitos a esses grupos, que um Estado assassino ainda tem como alvos. A ditadura deixou cicatrizes que insistem em não se fechar, e precisamos encará-las para que a História seja educativa, e não cíclica.
“Anistia 79” é distribuído pela Embaúba Filmes e entra em cartaz em 20 de agosto.
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