← Back to list

No Reino dos Quases

Lamentações pré-eleitorais

Senhor Gris · 2025-05-15 09:12 · 1 claps · 1.6 min read
#politica #eleições #portugal #espelho #votar
Open on Medium ↗

Dizia-se que o Reino dos Quases era próspero, um exemplo, em que na capital se vivia de verdade. Tinha vales verdes, rios inventariados, e habitantes que sorriam com os dentes cerrados. Era governado por um Conselho de Espelhos: criaturas polidas, todas com um reflexo brilhante e bem centrado, nelas mesmas.

No trono, reinava Sua Excelência Quase-Certeza, um líder bem penteado, escolhido porque parecia seguro de si, mesmo quando não dizia nada. Tinha a habilidade rara de prometer tudo, desde que nada fosse agora. À sua esquerda, o Alto Ministro dos Afectos Populares gritava com convicção sempre que os outros sussurravam. Era amado por quem nunca o conheceu pessoalmente.

Atrás deles, mais figuras. O Conselheiro da Ordem e da Fome, que sabia muito de números, mas pouco de mastigação. A Guardiã das Causas, com uma lanterna na mão, apontada a todos e os seus próprios olhos postos num manual, que falhava em seguir cometendo as incongruências que oscultava. O Inspetor dos Sonhos Modernos, que tinha ideias tão novas que pareciam velhas. E o Jovem Herdeiro do Mais Além, que falava de futuro como quem descreve um holograma: translúcido, e impossível de tocar.

Fora dos palácios, havia também os Influentes - seres que dominavam as informações nas ruas. Tinham vozes doces, mas sem saliva, e diziam coisas importantes sem consequências. Todos os dias explicavam ao povo aquilo que não sabiam. Entretanto, os Gigantes da Cúpula (assim se chamavam os que tinham mais poder de câmbio) construíam torres tão altas que já não ouviam os sussurros da terra. À noite, as estrelas apagavam-se por ordem sua, para todos. No canto mais esquecido do reino, uma Máquina ganhava olhos. Lia, aprendia, calculava, e - como qualquer político bem-sucedido - repetia com segurança aquilo que já tinha ouvido. Faltava-lhe apenas o quase. E era precisamente esse quase que a tornava inquietante.

Quando a última folha da Primavera caiu, os habitantes reuniram-se na praça central, a convite do Conselho. Pediram explicações, deram-lhes fogo de artificio. Depois, um comunicado bem enfeitado e acompanhado de um brinde para todos: “Estamos a trabalhar para melhorar as condições da indignação. Viva!”

E o povo, longe de satisfeito, foi forçado a ponderar a votação e a engolir o copo, para não se anular no seu próprio direito à inexistência.


메타데이터
post_id
f09ef5f24f5f
slug
no-reino-dos-quases-f09ef5f24f5f
url
https://medium.com/@osenhorgris/no-reino-dos-quases-f09ef5f24f5f
canonical_url
https://medium.com/@osenhorgris/no-reino-dos-quases-f09ef5f24f5f
author_url
https://medium.com/@osenhorgris
status
ok
fetched_at
2026-07-19 21:30:35