“Então Deus é americano?”
A guerra americana é santa. E nós estamos do outro lado.
“Então Deus é americano?”: As entranhas do controverso “cristianismo bolsonarista” em “Jesus e John Wayne”
A guerra americana é santa. E nós estamos do outro lado.
Jesus e John Wayne chegou até mim via um podcast do bom canal Bibotalk. Sua leitura oferece um cenário para entender como essa versão do evangelicalismo atual, tão bélica, masculinista e idólatra da testosterona nasceu e chegou até aqui, em terras brasileiras. Divido o texto em seis partes e algumas notas no final.
1 — O muro entre a rua e a igreja
Dissonâncias entre regras escritas e a cultura praticada são mais comuns do que gostamos de admitir. Desde as regras e procedimentos padrões básicos de qualquer empresa até os mandamentos bíblicos: entre o que se aprende e o que se prática, existe a cultura, que poderíamos resumir como o resultado da interação entre a regra definida, as crenças pessoais de cada integrante dessa cultura e os diversos fatores externos que influenciam tudo isso.
E no mundo evangélico isso não é diferente. E não haveria de ser. Podemos imaginar um núcleo onde os mandamentos bíblicos, tidos como inerrantes, formam a parte central da fé. Mas, num segundo nível, temos as diversas interpretações teológicas, que não são nada mais que o produto da interação entre mandamentos bíblicos e suas aplicações ao tempo e espaço de cada grupo crente que já viveu, o que já sugere uma influência cultural para além do texto bíblico. Num terceiro nível, eu diria que a cultura geral, que opera sobre qualquer subcultura religiosa — aqui eu incluiria questões como política, relações sociais, comerciais e de consumo, influências de outras religiões, ideologias, filosofias, etc. — inevitavelmente tentará exercer influência sobre qualquer subcultura, inclusive a cristã. E seria inocente da nossa parte achar que conseguiríamos escapar facilmente dessa influência.
E é justamente nessa junção entre teologia cristã e “cultura geral”, nesse muro que define o que é igreja e o que é rua, que as tensões apresentadas em Jesus e John Wayne acontecem.

2 — Do que fala Jesus e John Wayne?
Jesus e John Wayne: Como o Movimento Evangélico foi Cooptado por Movimentos Culturais e Políticos, (e daqui pra frente chamaremos o livro de J&JW, para fins de praticidade) foi escrito pela historiadora Kristin Kobes Du Mez e chegou ao Brasil em 2022, via Thomas Nelson Brasil, trazendo o que nós, brasileiros, podemos chamar de “Cristianismo Bolsonarista: A Origem”.
Em J&JW, descobrimos como Washington tomou o evangelicalismo branco americano para si e o transformou em sua principal ferramenta de propaganda no pós-guerra, de uma forma muito perspicaz, até mesmo óbvia. Afinal, do outro lado, tínhamos o medo causado pela sombra do ateísmo de estado soviético. Então, nada mais eficaz do que usar a defesa da fé cristã versus a ameaça comunista como combustível para uma guerra santa. E “Deus está do lado de quem vai vencer”, não é mesmo, Renato Russo?
O livro nos mostra como, cada vez mais, a cultura bélica americana foi ganhando um caráter de guerra santa. Afinal, se de um lado, o comunismo (que nunca esteve nem perto de tomar a América pra si) poderia soar como uma ameaça à liberdade de culto do americano, do outro, temos uma América fortemente influenciada pelo Destino Manifesto, que em simples palavras, declara os Estados Unidos como nação escolhida por Deus para dominar sobre as demais. Esses dois ingredientes não viveriam na mesma panela sem causar uma reação explosiva.

O ator John Wayne (Wikipédia)
John Wayne (1909–79) era mais que um ator americano de filmes de faroeste. Ele era um símbolo de masculinidade para os Estados Unidos pós-guerra: seus personagens no cinema eram expansionistas, politicamente incorretos, sem medo de “fazer o que tem que ser feito” para garantir o sucesso dos seus, ainda que o sangue (do outro, claro) tivesse que ser derramado. Numa América que, segundo Washington, precisava estar pronta pra guerra, o Jesus de cabelos longos, “paz e amor” e que dava a outra face estava mais para um hippie do que para um líder. E, assim, a cultura foi introduzindo um “ideal John Wayne” no evangelicalismo americano. E o evangelicalismo, através dos seus líderes, foi absorvendo e validando o jeitão John Wayne de ser cristão, embora este não fosse conhecido, exatamente, por sua mansidão, piedade ou por ser um marido casto e fiel, como a Bíblia manda (1 Coríntios 6:12–20).
Mas o “johnwaynismo cultural”, no fim, veio a calhar. O mito do homem durão, que não negocia com mulheres e não-brancos e que não refreia a sua testosterona, já era — e continua sendo — pregado por muitos como a visão de Deus para o sexo masculino (embora trechos como 1 Coríntios 6 e 7 preguem exatamente o contrário). Se pensarmos que o Destino Manifesto é uma ideia nascida em séculos passados, podemos afirmar que a semente sempre existiu e o que Du Mez retrata em seu livro é apenas mais uma rodada de retroalimentação entre uma cultura tóxica mundana e uma má interpretação da Bíblia.
3 — Influências no evangelicalismo brasileiro: a parte que nos toca
Não é segredo que, assim como o nosso catolicismo é uma importação europeia, o nosso evangelicalismo é uma importação americana. Basta vermos como os frutos da primeira onda pentecostal brasileira — uma Congregação Cristã fundada por Louis Francescon em 1910 ou uma Assembleia de Deus fundada por Gunnar Vingren e Daniel Berg em 1911, ambos “filhos” dos excluídos da Rua Azusa — falava diretamente aos povos excluídos do Brasil, como interioranos e imigrantes, e não tinham a fome por poder político que vemos no evangelicalismo atual. Afinal, essa fome sequer existia nos Estados Unidos de onde esses missionários partiram no início do século XX (embora, obviamente, não seja impossível ligar missões religiosas americanas em terras sul-americanas, de alguma forma, a uma cultura moldada pela doutrina do Destino Manifesto). E quem permitiria a esses excluídos — imigrantes asiáticos, do sul e do leste europeu, negros e nativos americanos — ter alguma fome de poder?
Da mesma forma, a segunda onda pentecostal no Brasil — caracterizada por igrejas como O Brasil para Cristo e Deus é Amor, em meados da década de 1950 — ficaram conhecidas por inaugurar as cruzadas em grandes estádios, tal qual um Billy Graham fazia nos EUA nesta mesma época. E é necessário notar que, conforme o próprio relato da Du Mez, Billy Graham foi o primeiro operador dessa união entre igreja e estado nos EUA, fornecendo as bases para que um Eisenhower em campanha conseguisse dialogar com a família evangélica americana.
Já a terceira onda pentecostal (também conhecida como “neopentecostalismo”) — de onde reconhecemos igrejas como Universal, Sara Nossa Terra, entre outras dessas mais “modernas” — além de ocupar espaço nas mídias de massa, refletiu a ideia de guerra espiritual, teologia da prosperidade e teologia do domínio, doutrinas que juntas, montam o lego da ideia atual do “cristão na política” e que já estavam presentes no evangelicalismo americano, inclusive como podemos ler em J&JW.
E obviamente não podemos desprezar o culto às dinâmicas de gênero que louvam um masculinismo exagerado e uma “volta às tradições” — ideias que sempre existiram no cristianismo, inclusive no catolicismo e no pentecostalismo — nos discursos calvinistas que chegaram por aqui após 2010, e que refletem um momento muito específico de um evangelicalismo americano que também refletia a crise de masculinidade da figura do homem americano dos anos 1990, a primeira geração do século XX sem uma guerra para disputar (quem assistiu filmes do fim dos anos 90, como “O Clube da Luta”, sabe do que estou falando).
Mas vamos ao principal ponto do livro, no que diz respeito ao que nos toca: essa masculinidade bélica, militante, politicamente (e biblicamente) incorreta, cultivada sistematicamente nas igrejas americanas por pelo menos 70 anos, foi chegando ao Brasil e entregando todo o ferramental para quê não víssemos problemas em declarar um homem não-evangélico, nada ortodoxo, marido de três mulheres, de boca suja e que não tinha vergonha de dizer que filhas eram atos de fraqueza, ou que na ditadura tinha que ter morrido mais gente, ou que se descobrisse que seu filho estivesse namorando uma negra, iria lhe dar uma coça. Afinal, este homem — usando palavras do próprio J&JW — seria o líder da nossa nação, e não da nossa escola dominical.
E assim a ortodoxia cristã foi sendo deixada de lado para que líderes durões assumissem as fileiras ocupadas por homens de família, que pelo menos idealmente, pretendiam ser tão durões quanto. Afinal, assim como vimos em O Poderoso Chefão, há conselheiros para os tempos de paz e para os tempos de guerra. E diante das ameaças do comunismo, da cultura hippie, dos negros, das feministas, dos movimentos LGBT+ e dos imigrantes, não havia espaço para um “conselho da paz”. Era assim nos dias de John Wayne, assim como é nos nossos dias; era assim em terras americanas assim como tem sido, também, em terras brasileiras.
4 — Deus é Americano e outras contradições
A grande contradição em importarmos o “johnwaynismo cultural” é que ele, claramente, não foi feito pra gente. A figura do masculinismo que expande existe para expandir os limites apenas da América, em nome do Deus que, segundo eles, os escolheu como “A Nação que governa sobre todas as outras”, como fica claro no Destino Manifesto. A Doutrina Monroe é uma aplicação prática disso. E a Doutrina Donroe — nome dado ao expansionismo Trumpista — é a retomada disso.
No evangelicalismo branco — e este é um detalhe importante — americano, importa ao deus deles fazer homens à imagem e semelhança de um John Wayne porque apenas estes podem cumprir esse propósito de domínio. Um Jesus que sobe aos céus como em Atos 1, prometendo o Espírito Santo invés de pegar em armas e seguir para Roma, não é exatamente a figura que inspiraria quartéis americanos cheios de soldados prontos para tomar o mundo para si.
No período histórico compreendido por Du Mez, vemos as investidas no Vietnã, na América Latina (que resultou desde os ocorridos na Nicarágua e El Salvador até às ditaduras sul-americanas), as disputas com a União Soviética, além dos domínios estabelecidos na Europa, via Otan, e no Japão e na Coreia do Sul. Os métodos pelos quais essa grande rede de domínio foi estabelecida são biblicamente questionáveis em muitos pontos. Até porque não dá pra fazer política com a Bíblia na mão. Ou, melhor: se você distorcer o texto bíblico suficientemente, fica parecendo até que a política expansionista que você está fazendo é abençoada por Deus.
Alguns críticos de J&JW podem se apegar ao fato da autora fazer questão de frisar o “evangelicalismo branco”, mas isso não é sem motivo. Na segunda metade do século passado, qualquer coisa que, nos EUA, tivesse o adjetivo “negro”, não seria um candidato a cooptação por parte de Washington, mas ao extermínio. A Casa Branca não queria conversa com os negros. O início controverso da guerra às drogas, os diversos ataques às manifestações pelos direitos civis e o extermínio de todas as lideranças negras deixaram isso bem claro.
Tudo o que não é evangelicalismo, que não é branco e que não é americano, pode ser um inimigo. Trazendo para os dias de hoje, quando vemos as investidas na Venezuela e na Groenlândia, não há nada nessa cultura bélico-cristã americana que me faça desacreditar que, um dia, seremos os alvos. Temos o petróleo, temos as terras raras, temos a Amazônia, temos a resistência (ainda que aos frangalhos) às investidas da extrema direita. Desculpas não faltam. E o americano comum, ao ver as notícias de que seu presidente quer comprar/roubar/invadir/levar a democracia à alguma nação no “fim do mundo”, vai dormir em paz, crendo fielmente que seu presidente está sendo o profeta de Deus que está cumprindo Marcos 16, levando a Palavra até os confins da terra.
Ao ler Jesus e John Wayne, chegamos a uma amarga conclusão: Deus é americano.
5 — O silêncio da crítica evangélica brasileira diante de Jesus e John Wayne
As rixas entre facções evangélicas, que estão no DNA do protestantismo, nos fazem acreditar que o cristianismo evangélico é o que tem a melhor máquina de autocrítica entre as religiões e ideologias atuais. É necessário dizer, também, que não é preciso muito pra conseguir esse título e essa sensação — basta ver como a esquerda é melindrosa quando o assunto é autoconsciência. Mas essa impressão de autocrítica evangélica pode ser bem enganosa.
Nos anos 2010, a ascensão da teologia calvinista no Brasil trouxe esses ares de “revisão bereana” (Atos 17) da nossa religião. Parece que tudo — de usos e costumes (traduzindo aos leigos: a necessidade da tia do coque ir de saia longa pra igreja) até as letras de música gospel — foi sujeito à peneira calvinista. Recheado de textos de teologia puritana americana, parece que nada era capaz de ser aprovado pelo crivo reformado, o que fez com que muitos de nós, inclusive eu, cresse nessa nova onda como um importante instrumento para caçar e combater incoerências na nossa religião.
Claramente, eram os diversos sabores do pentecostalismo brasileiro os principais alvos dessa caça às bruxas, talvez até mais que os surrados alvos do catolicismo e das religiões africanas. Críticas à teologia da prosperidade e à retórica de guerra espiritual apareciam em vídeos, palestras e podcasts calvinistas mais que arroz no buffet, criando um exército de jovens totalmente crentes de que cinco horas de conteúdo na internet havia superado uma vida inteira de sabedoria da sua avó assembleiana.
Mas da teologia do domínio, pouco, ou nada se falava.
Meu primeiro chá revelação com os círculos reformados foi em 2018, quando vi a maior parte dos pastores e influencers aderindo ao bolsonarismo sem qualquer ressalva. Tá que do outro lado tinha um PT do qual quase todo o brasileiro estava de mal. Tá que do outro lado tinha um Haddad que passou metade da campanha dentro de um presídio, pedindo benção ao seu mentor, até então, inquestionavelmente condenado pela justiça. Mas é claro que o bolsonarismo tinha as suas controvérsias, quando tentávamos enxergar a partir de lentes cristãs. Uma ode ao Coronel Ustra, um “vamos metralhar a petralhada”, ou um “minha filha foi uma fraquejada” não era exatamente o que Jesus faria. E os guardiões do “Sola Scriptura” deveriam ser os primeiros a apontar essas incoerências. Mas não, estavam lá calvinistas, arminianos, presbiterianos, pentecostais: todos juntos numa grande corrente pra frente fazendo arminha, como Jesus mandou. E ai de quem fosse contra.

“Igreja brasileira, osso duro de roer: pega um, pega geral, hoje vai pegar você”
Um Jesus que, quando convidado a se posicionar a respeito de Roma, “deu a Cezar o que era de Cezar” (Mateus 22:31), sem levantar nenhuma bandeira partidária, deixou bem claro que sua missão não era com os reinos deste mundo. E, dessa forma, a postura isenta não era covardia e nem condescendência com qualquer uma das partes, mas era o compromisso com Algo Maior, que não poderia ser contaminado com as controvérsias políticas deste século. Me impressionou muito como gente que se dizia calvinista, reformada, Sola Scriptura, Sola Fide, Sola Graça, não tinha sido capaz de perceber o básico.
Mas justamente J&JW foi quem ofereceu as bases para entender a postura tímida do calvinismo brasileiro. O relato de Du Mez conta como os grandes nomes do calvinismo americano, como o louvado John Piper, foi condescendente com o Trumpismo; ou como um John Macarthur ou um Mark Driscoll foram pegos “com as calças nas mãos”, envolvidos em escândalos, é só não caíram em desgraça por causa do corporativismo denominacional americano, muitas vezes patrocinado pelo próprio Piper. Isso sem falar do passado sujo do puritanismo e de nomes históricos como Jonathan Edwards, que mesmo tão inerrantes biblicamente (segundo suas próprias análises, claro), não hesitava em apoiar o tráfico de negros e forneceu as “bases bíblicas” para os confederados do sul lutarem até a última gota de suor pelo privilégio do sangue negro.
Os ídolos dos nossos ídolos estavam aprontando na gringa. E aqueles que tão vorazmente apontavam cada cisco no catolicismo e no pentecostalismo, não eram capazes de apontar as traves em seus próprios olhos. Tão cegos quanto os ídolos que eles tanto idolatram. Salmo 115 (ou 113, se você é católico) na veia.
Sendo assim, quando você procura análises da blogosfera cristã sobre J&JW, pouco você encontra. Que me lembro, tinha uma resposta tímida do Yago Martins, algo como “sim, é verdade, tem que ver isso aí”, que soava mais como um “na volta a gente compra”. Uma letargia de dar dó, em comparação àquela energia característica para apontar erros de católicos, pentecostais, wokes, esquerdistas, teologia do coaching, etc. Tinha um episódio do Bibotalk de mais de uma hora sobre o livro, onde, pelo menos eles tentaram ser honestos (é essa veia “cristianismo pé no chão” costumeiramente faz o Bibotalk ser um patinho feito no meio evangélico, seja para pentecostais ou para reformados). E tem um ou outro artigo que partiu pro ad hominem disfarçado de “professor de metodologia da faculdade”: diante de um livro que tem um capítulo só pra listar escândalos sexuais de todo tipo envolvendo pastores — o que, não ironicamente, estende o tapete moral para o Epstein Files — , a pessoa decidiu questionar, vejam só, a epistemologia da Du Mez.
Uma mulher denunciando abusos e um homem perguntando como ela sabe que ela sabe disso tudo. Só faltou dizer que ela tá louca.
6 — Conclusão
O silêncio, normalmente, é a prova do ditado “quem cala, consente”. Mas, tem vezes que o silêncio é o que resta para quem anda com o rabo preso. E eu acho que a igreja evangélica brasileira se encaixa mais no segundo caso. Por algum motivo, passamos a acreditar que o bolsonarismo é a única via, a única solução contra a ameaça… do marxismo cultural? Do comunismo? Do kit gay? Da mamadeira de piroca?
É difícil quando você nem sabe direito quem é o inimigo…
Mas esse fantasma, que ninguém nunca viu, mas todo mundo jura que existe, fechou os nossos olhos para tudo. Com as amígdalas cerebrais sequestradas, esquecemos que Deus nos deu um espírito de amor e de equilíbrio, e não de medo (2 Timóteo 1:7). E abraçar esse medo, que é alimentado diariamente por pastores, influencers e denominações inteiras, nos faz aceitar qualquer contrato, independente das letras pequenas.
Então, quando surge algum documento que descreve o que somos e porque somos, nossa atitude diante disso é de silêncio (na esperança de que se fizermos silêncio suficiente, todo mundo esquece logo disso aí) ou de negação. E pra gente, que é evangélico, basta dizer que é do demônio, ou pior, dizer que é da esquerda, e pronto. Ninguém mais terá coragem de mexer com isso.
Sem contar que a distribuição de um livro subversivo assim não deve ser das mais fáceis. Não é exatamente o livro que você encontraria na livraria da sua igreja ou naquela loja evangélica que você está acostumado a ir. Não é, também, a leitura recomendada pelo seu pastor da internet, influencer de teologia ou de vida cristã.
Outra coisa é que pensar na dimensão coletiva cansa. Tudo no meio evangélico de hoje — dos hinos do Hillsong até às palestras para empresários, passando pelos Legendários, pelo Eu Escolhi Esperar e outros tanto artefatos de utilidade questionável, para dizer o mínimo — parece que foi criado para resolver o MEU problema: as minhas finanças, o meu casamento, a minha família, a minha intimidade com Cristo. Totalmente contrário da ideia original de um Cristo que se relaciona com a sua Igreja, com o seu coletivo. Na graça de Cristo, não sou apenas eu quem existo, e sim NÓS quem existimos. A fé de que Deus está comigo nos meus rolês me dá tranquilidade para eu pensar no meu coletivo. E talvez, até fora deste coletivo. Ir e pregar a bondade de Cristo, talvez seja mais que apenas tentar puxar a galera pra minha igreja. Talvez seja MOSTRAR a bondade de Cristo sendo uma pessoa boa, inclusive para quem não senta comigo no banco da igreja. Não é muito John Wayne essa última frase — tá mais pra parábola do Bom Samaritano (Lucas 10) — mas talvez seja hora de fazer escolhas, não é mesmo?
Mais uma conclusão que chego é a que precisamos compreender quão americano o nosso cristianismo evangélico é. Essa noção de individualidade não é bíblica, e sim é o reflexo de uma sociedade americana que nasceu e existe sobre um ideal de individualismo tão grande que a simples ideia de cada americano pagar 100 doletas de imposto para sustentar um sistema público de saúde é visto como o demônio do socialismo. Tenho pra mim que se pegarmos essa coisa chamada “evangelicalismo brasileiro” e subtraímos tudo o que é “cultura e ideologia americana”, o que vai sobrar, em grande parte, é a Bíblia. Terá outras coisas, também. Afinal, não é como se a nossa cultura fosse perfeita. Mas tenho certeza que muito de Bíblia vai começar a aparecer.
Pensando profeticamente — e aqui a conversa fica muito evangélica, portanto, se você não é um, apenas tenha calma com o que eu vou dizer — podemos até aceitar, com muitas ressalvas e questionamentos, até onde Deus escreve certo por linhas tortas, e que, bem ou mal, esse pacote gigante chamado “evangelicalismo” chegou em terras brasileiras graças a um envio americano. Mas eu penso que já passou da hora de abrirmos essa caixa, descartar tudo o que embalagem não biodegradável e procurar o que, de verdade, é ensino de Cristo.
Em Gálatas 1, Paulo fala que até mesmo um anjo do céu que chegasse nos pregando outro evangelho que não fosse o de Cristo, que fosse amaldiçoado. Para Timóteo (2Tm 4:17) Paulo adverte que chegariam os dias em que os comichões nos nossos ouvidos nos levariam a juntar mestres segundo a nossa própria vontade, para nós dizer apenas o que queremos ouvir, e não a doutrina de Cristo. J&JW é cheio desses exemplos de pastores que chegaram à fama, à mídia e à Casa Branca apenas dizendo o que o povo queria ouvir. E em terras brasileiras (e em tempos de algoritmos programados para fazerem justamente isso), não tem sido diferente.
Para finalizar, o termo “Deus é americano”, claramente é uma estratégia de provocação. Culturalmente, aprendemos a reproduzir a ideia de que “Deus é brasileiro”, afinal aqui temos a natureza, as belezas e a brasilidade, numa terra onde tudo o que se planta, dá. Então, estar diante de uma realidade onde a maior nação do mundo pensa monopolizar a voz divina e criar uma teologia inteira baseada nisso é algo que, no mínimo, deveríamos prestar atenção.
Apocalipse 7 fala de uma salvação para todas as nações e tribos. Deus não tem uma bandeira preferida. E ainda que um anjo desça do céu cantando The Star-Spangled Banner, que seja amaldiçoado. É o que está na Bíblia.
Notas
Nota 1: Embora tenha citado alguns nomes da blogosfera reformada, não gosto de trabalhar com nomes simplesmente porque não é como se a pessoa fosse a criadora de todo um conceito. Na verdade, ela está mais para uma das reprodutoras, o que torna injusto escolher um na multidão e citá-lo. Mas no caso específico do Yago, ele é um dos nomes mais influentes da teologia na internet. Se ele cita ou deixa de citar algo, isso gera uma onda de reprodução desse comportamento. É o ônus de ser muito representativo.
Nota 2: Também é injusto apontar todos os dedos para o mundo evangélico, como se este fosse o único a ser cooptado por interesses de estado. Nos EUA, podemos citar desde as Olimpíadas até Hollywood como ferramentas de poder através da cultura. Até mesmo o esquerdismo americano parece muito mais uma conveniência comercial e estatal (quando os democratas estão no poder) do que qualquer outra coisa. Na América, nada nem ninguém escapa das garras do Tio San.
Nota 3: Este é apenas um ensaio de um leitor que pensa no que lê e faz algum esforço para coletar algum dado para argumentação. Mirar o seu canhão metodológico para um texto de internet me parece desperdício de munição. Importante dizer.
Nota 4: Meu lugar de fala nisso tudo é de um cristão pentecostal, como a maioria dos evangélicos brasileiros, que nos anos 2010, ficou encantado com a metodologia calvinista diante das contradições pentecostais, como boa parte dos evangélicos brasileiros. Mas percebeu que incoerências e contradições existem em todos os lugares. No fim, temos que aprender a lidar com elas, criticando, repensando, mas aprendendo a conviver. Não tem um cercadinho teológico/ideológico/político que tenha teto de vidro. Em 2026, já deveríamos saber disso e conseguir dormir em paz com isso.
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