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A pantomima contemporânea: Édipo rejeita Jocasta com seu niilismo

Édipo rejeita Jocasta com seu niilismo e ela silencia. De quem é a culpa? De quem é o dolo? O que importa é que a dor é de todos.

Brazilian Side Hustler · 2025-12-23 23:02 · 18 claps · 3.9 min read
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A pantomima contemporânea: Édipo rejeita Jocasta com seu niilismo

Édipo rejeita Jocasta com seu niilismo e ela silencia. De quem é a culpa? De quem é o dolo? O que importa é que a dor é de todos.

Na Roma antiga, pantomima era um drama em que um único corpo encenava, enquanto um coro narrava. Hoje, quantos de nós não dançam sozinhos, enquanto o mundo narra expectativas que já não reconhecemos como nossas? Filhos solistas, dramáticos, não porque desejem demais, mas porque já não sabem desejar. Ou pior, porque desejam nada.

“Viver é melhor que sonhar

Eu sei que o amor é uma coisa boa

Mas também sei que qualquer canto

É menor do que a vida

De qualquer pessoa”

Belchior sussurra ao fundo que viver é melhor que sonhar. Mas o que acontece quando viver parece pesado demais e sonhar virou mercadoria barata? Quando qualquer canto parece menor que a vida de qualquer pessoa, inclusive a própria?

De onde vem essa culpa que acompanha o existir, mesmo quando não há crime claro, mesmo quando não há acusador visível? Será que ela nasce do corpo social que exige pertencimento? Da voz interior que aprendeu cedo a julgar antes de compreender? Ou das narrativas morais que se infiltraram tão fundo que já não distinguimos regra de identidade?

Talvez a culpa não seja só dor. Talvez seja contenção. Uma válvula. Um freio. Algo que protege o grupo, inclusive o familiar, ao custo de adoecer o indivíduo quando se torna difusa, absoluta, sem lastro em ações reais.

E o que acontece com aquele que amadureceu biologicamente, mas foi mantido em aleitamento simbólico pela sociedade? Não importa de qual peito. Um humano que viu cedo demais a diversidade das construções humanas. Religiões, técnicas, abundâncias obscenas, pobrezas gritantes. Mundos que prometem tudo e entregam vazio. Alguém assim perdeu a fé ou apenas perdeu a paciência com crenças prontas?

Quando se atravessam mundos simbólicos demais, algo curioso acontece. As verdades começam a parecer locais. Funcionam ali, não acolá. São eficazes, mas não universais. A ilusão da totalidade se dissolve. O que resta?

Talvez reste o niilismo. Não como escolha estética, mas como último lugar intelectualmente honesto quando todas as narrativas colapsam. Nada me serve. Nada me contém. Nada me promete sem mentir.

Mas será o niilismo um fim ou uma travessia? Quando tudo perde sentido, resta deitar ou criar? O niilismo passivo sussurra que nada vale. O ativo provoca. Se nada faz sentido por si, quem decide o que vale?

Depois do colapso, ainda é possível acreditar? Ou acreditar passa a ser outra coisa? Talvez não fé, mas adesão consciente. Não porque seja verdade, mas porque sustenta a vida por ora. Não como dogma, mas como escolha revogável.

Esse niilismo não consola. Ele cobra. Ele exige autoria. Ele não elimina o vazio, mas pergunta como habitá-lo sem ajoelhar.

E então surge Édipo. Não o do exílio clássico, mas o suspenso. Protegido demais. Cercado de oportunidades. Exilado não da cidade, mas do conflito. Testemunha da riqueza e da miséria. Do centro e da margem. Do isolamento imposto pela morte estatística chamada pandemia. Como enterrar os pais sem tê-los matado? Como nascer sem ter sido expulso?

Será que a apatia é sua forma de desejar? Não desejo direto, mas paralisia diante do excesso de luz. Jocasta não seduz. Ela ofusca. O pai não rivaliza. Ele esmaece. Não ensina a fazer sombra. Onde tudo brilha demais, o corpo recua.

O espelho de Narciso aqui já não encanta. Não há enamoramento de si, mas fixação na imagem inalcançável. A apatia não é recusa do desejo. É o desejo travado pela consciência de sua impossibilidade simbólica.

Em Édipo antigo, isso termina em cegueira. Mas será essa a única saída? E se, em vez de compreender mais, fosse preciso agir sem compreender? Não buscar origem, mas fluxo? Dioniso não pergunta se faz sentido. Ele dissolve a forma que paralisa.

E a culpa? Ela retorna como Erínias, não de fora, mas de dentro. Vozes que não punem o ato, mas o ser. Quando Aidos falha, quando o pudor não contém, a perseguição começa. O tribunal já não precisa de juízes.

E a preguiça de viver? Não o sono, não a tristeza explícita, mas a repulsa pela continuidade. Acedia. O demônio do meio-dia. Não querer morrer, mas também não querer seguir. O desespero grita. A acedia cala. Qual delas é mais perigosa?

Diante disso, o que podem oferecer mãe e pai? Direção? Conselhos? Respostas? Ou apenas condições de passagem?

Talvez a mãe precise oferecer calor sem gravidade. Presença sem captura. Retirar o excesso de luz. Aceitar não ser centro. E, quando não conseguir, admitir que ajuda também pode ser necessidade dela, não dele.

Talvez o pai precise oferecer limite sem ameaça. Sombra que não compete. Aceitar ser enterrado simbolicamente para que a lei deixe de ser externa e se torne estrutura interna. Autorizar o conflito, não o resolver.

Esse Édipo não precisa de respostas. Precisa de rituais. De encerramentos. De sepultar o passado como ciclo cumprido, não como culpa. Precisa deixar a melancolia morrer para que algo nele viva.

Ele não é placenta. A placenta serve e morre. Ele é feto em movimento, mesmo quando imóvel. Julgar-se placenta é permanecer funcional para histórias alheias. Tornar-se rei talvez seja apenas isso. Assumir a própria narrativa sem oráculo, sem desculpa, sem garantias.

E se o parto doer mais em quem assiste do que em quem nasce, será que isso não é exatamente o que precisa acontecer? Agrada-me o inglês que chama o dia de nascimento de dia da explosão: burst-day

Photo by Ihor Malytskyi on Unsplash

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