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Coronavírus e a Crise Simbólica

Um olhar psicanalítico.

Andre Matt · 2022-11-29 00:47 · 44 claps · 15.8 min read
#psicanalise #covid19 #coronavirus
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Wiki topics: MIC · Microbiology & Immunology

Coronavírus e a Crise Simbólica

Um olhar psicanalítico.

Não há exagero em se dizer o óbvio: estamos atravessando um período histórico da civilização humana, que terá seu impacto observado pelas gerações futuras com o mesmo afinco e profundidade com a qual observamos e estudamos hoje eventos cuja gravidade revolucionaram e definiram os paradigmas sociais no passado, como por exemplo a 2ª Guerra Mundial ou a Gripe Espanhola. Precisamente 100 anos após a devastação causada por esta última, o mundo se viu diante de uma nova pandemia, agora causada pela mutação do Coronavírus.

A pandemia nos pegou de surpresa, em um choque que repercutiu em todas as áreas de nossas vidas e nos colocou em um estado de emergência global. A vida cotidiana mudou, teve de se adaptar com urgência. Cada pessoa com a qual cruzamos na rua passou a ser vista como uma ameaça em potencial, um perigo a ser evitado. No Brasil, os abraços e beijos de saudações e despedidas, costumeiros da nossa cultura calorosa, tiveram de dar lugar a um novo estado sem ritual, momentos desamparados de significado que ainda nos causam desconforto por sua ausência.

A ciência, até então considerada o Graal da nossa sociedade moderna — a instância que justifica todas as outras e dá razão ao nosso modo de viver — se viu impotente frente o COVID-19 e suas variantes, incapaz de trazer uma resposta rápida e coerente a essa mazela. À sombra dessa impotência surge a dúvida e o questionamento, a desconfiança e a negação. Nos dividimos entre os que passaram a desacreditar nas capacidades e nas intenções de quem fala pela ciência, nos interesses de quem a financia, e entre os que neles confiam cegamente, acima de qualquer suspeita.

Nesse mesmo paradigma, muda também a cura psicanalítica e a prática psicoterapêutica. Em trabalhos importantes como a Psicologia das Massas e a Análise do Eu (1921), O Futuro de uma Ilusão (1927) e O Mal-estar na Civilização (1930), Sigmund Freud, o pai da psicanálise, estabelece essa tradição constante do pensamento freudiano em incluir o impacto das questões sociais e simbólicas no âmbito e escopo da psicanálise. Dessa forma, esse entendimento simbólico das consequências da pandemia no funcionamento mental, tanto consciente quanto inconsciente, torna o nosso trabalho ainda mais vital e urgentemente necessário. No processo da compreensão de si e dos outros, a pandemia nos surpreende todos os dias com novas relações e mensagens, criando a necessidade de se estudar todo um novo mapa simbólico pelo qual iremos nos guiar e desbravar esse novo e complexo território da psique humana.

O Primeiro Impacto

A pandemia mudou drasticamente nossas vidas. Há meses, temos sido confrontados constantemente com uma ameaça mortal indescritível e permanente. Virologistas em todo o mundo nos alertam sobre novas variantes que podem surgir em populações que ainda não foram vacinadas e que podem se espalhar globalmente mais uma vez, representando grande perigo mesmo àqueles já previamente vacinados.

No Brasil, além das mais de 600 mil mortes contabilizadas pelos canais oficiais, o desastre atinge proporções ainda maiores ao expor uma situação de risco e desamparo onde se agravam a fome, a pobreza, a violência doméstica e demais enfermidades públicas e sociais — com as quais já batalhávamos prévia e historicamente -, além do total despreparo e da incompetência crua do nosso atual governo em lidar e até mesmo responder a este cenário.

As estruturas e hábitos que considerávamos como fundamentais em nossa vida cotidiana foram abaladas completamente, do dia para a noite. Não houve tempo para viver o luto dos nossos rituais diários. Crianças foram retiradas das escolas, adolescentes perderam o contato próximo com amigos, perderam-se os momentos de diversão, a troca de calor humano, as válvulas de escape de uma psique ainda em construção. Sua ausência deu lugar a um isolamento reflexivo claustrofóbico, sob o peso de uma angústia inescapável, que parece só aumentar com cada nova notícia, números oficiais e o desembrulhar meticuloso de um “Novo Normal”.

As consequências sociais são enormes e cada vez mais visíveis, revelando um iceberg que sempre esteve ali, porém do qual só podíamos observar sua ponta. Ele agora emerge das profundezas a cada novo dia. A desigualdade social aumentou, e nossos privilégios nunca foram tão evidentes. Portais de notícias relatam diariamente como o número de transtornos depressivos e outras doenças psicossomáticas e mentais aumentou, enquanto a mídia tenta trazer luz aos relatos de violência doméstica e agressões sexuais, especialmente contra mulheres e crianças, que estão aumentando em frequência. Seduções populistas e nacionalistas acompanham essas tensões sociais, se aproveitando da fragmentação da frágil estrutura social que tínhamos como tão consolidada.

O abismo da psique humana foi subitamente trazido à superfície. Vivemos sob a narrativa empírica de que o mundo só estará salvo dessa crise na medida em que todas as pessoas no planeta estiverem seguras e imunizadas. Porém, à sombra dessa mensagem de que “até que todos estejamos seguros, nenhum de nós está realmente seguro” se escondem muitos símbolos que significam diferentes coisas para diferentes pessoas, mascarando um forte potencial de dissensão e atrito que precisa ser encarado de frente se esperamos que essa mensagem seja realmente compreendida por todos.

O Indivíduo Isolado e o Paradigma da Pausa

Por todo o mundo, a primeira resposta frente o COVID-19 foi a restrição radical dos direitos individuais fundamentais. Por boas razões isso foi aceito amplamente, o que trouxe ao nosso dia a dia um verniz comparável à vida em um estado de guerra. Processos legislativos outrora discutidos e organizados deram lugar à decretos governamentais de emergência, à instalação de lockdowns e toques de recolher, que apoiados no medo generalizado alimentado pela crescente nos números de infectados e mortos por todo o mundo, foram aceitos como necessários.

Mas o que isso realmente quer dizer? O que nos foi trazido como uma atitude emergencial levantou questões éticas estruturais cujas respostas são ainda mais urgentes, e sem as quais, a adesão social a esses decretos se tornou mais frágil e fragmentada a cada novo dia. Quem tem a maior prioridade, o indivíduo ou a sociedade? É permissível, frente a um colapso de saúde pública, tomar decisões que provocarão também um colapso econômico? Quem tem o privilégio da respiração artificial quando o número de pulmões artificiais em hospitais é limitado? Como lidar com a própria saúde mental em uma situação onde o isolamento é percebido como algo necessário, porém vivenciado como algo nocivo e insustentável, que agrava transtornos mentais e sintomas psicopatológicos já existentes?

O indivíduo hoje se vê lidando com questões delicadas que despertam um solipsismo inerente ao avaliar o valor de uma vida humana frente a sua, onde esse ‘Outro’ está cada vez mais destacado, separado, seja sendo correspondido como uma ameaça ativa (como potencial transmissor da epidemia) ou passiva (alguém cuja vida pode ser mais valorizada socialmente do que a sua). A ansiedade que se desenvolve a partir disso é algo esperado em um quadro de enfrentamento do desconhecido, a ruptura e perda do “normal”, que pode se tornar patológica quando o indivíduo se sente anulado, tomado pela incerteza, o tornando disfuncional e desencaixado em sua própria vida durante o período de isolamento.

Esse solipsismo se agrava ainda mais quando uma parte da população é observada construindo um retorno simbólico à vida que se tinha antes da instalação da pandemia, em aglomerações, frequentando lugares públicos e revendo amigos e familiares, exibindo esse comportamento em redes sociais, como se fosse possível ignorar, e assim apagar, o tempo de medo, angústia e incerteza existencial vivido na quarentena. A suspensão prematura dessa “pausa” na vida desse indivíduo, pautada na crescente ansiedade pela incerteza do tempo que essa pausa poderia tomar.

O paradigma da pausa não ocorre sem trazer alguns ganhos ao indivíduo, em casos onde o isolamento social obrigou o confronto com situações pendentes — agora inescapáveis — decorrentes do convívio exaustivo com um Outro em um mesmo ambiente, além do confronto com a própria solidão e a consolidação de um contato mais espaçoso e responsável consigo mesmo, produzindo reflexões e insights pessoais fundamentais sobre como esse indivíduo enxerga a própria vida, seus hábitos e condicionamentos.

Negacionismo e a Falência da Metáfora Paterna

Desde que os primeiros casos de infecção pelo Coronavírus começaram a surgir, buscou-se essa compreensão coletiva de que todos devemos nos proteger da melhor forma contra o contágio, e que o isolamento era a melhor forma de garantir essa segurança. Acompanhando essa expectativa pueril de súbita clareza de intenções e generosidade por toda a humanidade, está a falta um entendimento maior sobre como essa expectativa coletiva depende de limites muito individuais, contextualizados nos limites gerais de preservação da vida física e psíquica de cada um, e portanto, impossíveis de serem generalizados.

Com o advento das variadas vacinas que chegaram com o fim de 2020, representando a esperança inoculável de uma civilização, aguardada ansiosamente ao longo dos meses que se seguiam sem uma resposta que pudesse compor o degrau fundamental na superação e reversão de um quadro pandêmico de abrangência mundial, essa situação se complicou ainda mais, expondo uma realidade mais difícil de engolir do que qualquer remédio: não existem soluções fáceis para uma ocorrência de tamanho escopo.

Corpos diferentes reagem à vacina de maneiras diferentes, e distintas leituras a respeito dos efeitos colaterais das vacinas em variadas faixas de idade — que apresentaram toda uma gama de novos pesadelos existenciais que vão desde casos de enfraquecimento cardiovascular em jovens saudáveis e até infertilidade — acompanhou a incidência de uma descrença nesta solução, e por osmose, na ciência como um todo. Essa lógica se aplica de forma a ver a vacina como um remédio não testado, feito às pressas e distribuído buscando enfrentar um inimigo imediato, às custas da saúde individual dos vacinados à longo prazo.

Estas são respostas humanas, que precisam ser entendidas antes de confrontadas, que nos trazem elementos que podem ser compreendidos através da análise freudiana do antagonismo sutil entre o indivíduo e a cultura. O Mal estar na Civilização, de 1930, obra de Freud que traz como eixo temático o sofrimento humano e a natureza destrutiva e desamparada do ser, se reatualiza na vivência desse novo contexto, onde o afrouxamento das nossas estruturas culturais e a flexibilização das leis e obrigações civilizatórias refletem na desconfiança e no não reconhecimento do Outro como um indivíduo semelhante. Estas respostas promovem, na ausência de empatia e sensibilidade à dor do próximo, a construção de uma bolha na qual se convive com àqueles de ideologias e crenças similares, desfazendo simbolicamente e excluindo qualquer possibilidade de aceitação de diferenças, comprometendo a busca por um meio-termo, um terreno compatível que permita um compromisso coletivo.

A metáfora paterna implica nas renúncias que o indivíduo se submete frente ao estabelecimento desta figura de autoridade, em troca do benefício de usufruir do convívio em sociedade, e dela se projeta o sentimento de amparo e a segurança que se manifestam na realidade civilizatória através das obrigações — das judiciárias às simbólicas — na comunidade na qual se vive. O resultado da erosão dessas estruturas consolidadoras da nossa civilização se manifesta no enfraquecimento da autoridade paterna e, consequentemente, do laço social, afetando a capacidade do indivíduo de se ver como parte desse todo. É palpável o sentimento desorientador coletivo de que hoje as leis podem ser alteradas em decorrência de objetivos terceiros que favoreçam grupos, pessoas, empresas, classes sociais e interesses escusos.

O negacionismo é o reflexo máximo deste desamparo, onde na busca pela salvação individual, o indivíduo dialoga com a falha dessa estrutura social através da busca do prazer, do alívio dessa pressão sufocante no inescapável agora. Das festas clandestinas aos engarrafamentos em direção à praia em feriados que foram acumulados em um mesmo período de forma a prevenir a exposição e contágio de quem não tinha como interromper a própria jornada de trabalho, os exemplos dessa busca por um bálsamo imediato que pudesse dar conta dessa dor individual escancarou privilégios e desfez máscaras, trazendo luz ao solipsismo inerente de um ser humano sem respostas. Observados através do filtro da moralidade e ética social — incapazes de dar conta de orientar a avaliação dessas ações sozinhos — esse solipsismo ganha características perversas, mesquinhas e calculistas, cisando ainda mais as trincheiras que nos dividem.

O Corpo e a Morte

Dentre os símbolos marcados pela crise pandêmica, o corpo segue sendo um dos maiores exemplos e vítimas dessa reinterpretação simbólica agressiva, exigindo do indivíduo certezas imediatas, nas quais ele irá pautar a sua segurança e integridade física. O corpo é percebido como uma entidade em permanente perigo. A infecção é observada como algo debilitante e invasivo, seus efeitos no sistema respiratório despertam imagens angustiantes frente ao fato de que a captação de oxigênio pelo corpo possa falhar mesmo nas melhores condições e sob cuidado médico intensivo. O indivíduo é afetado pela ameaça do vírus, mesmo isolado, sem ter qualquer contato com a doença.

Uma vez que o vírus está por toda parte, a atitude hipocondríaca em relação ao próprio corpo não é apenas intensificada, mas de certa forma, esperada e implicitamente exigida. Todos devem se observar, todo movimento físico está sob suspeita, a temperatura corporal precisa ser medida. Termômetros se tornam árbitros e cancelas, cerceando a entrada do indivíduo em espaços que até então ele frequentava livremente. Dificilmente alguém se atreve a tossir em público, pode ser um sinal de que o inimigo já esteja presente, aguardando o primeiro deslize para se propagar. As máscaras não nos permitem esquecer que cada um pode ser tanto a fonte da doença como a mais nova vítima, colocando o corpo, simultaneamente, tanto sob ameaça quanto sob suspeita.

Essa realidade da morte reaparece com uma força não vista desde o fim da 2ª Guerra Mundial, reavivando o medo que dela corresponde, o medo da morte individual e da morte coletiva, onde a escala do desastre nos transforma em estatísticas, em números que nos despem de toda individualidade, deixando em seu lugar apenas a tragédia. O Covid-19 traz de volta a onipresença da morte, especialmente em países que desfrutavam de uma falsa sensação de segurança e privilégio promovidos pelo próprio desenvolvimento sócio-econômico, escancarando que a impotência e o desamparo são comuns a todos, não escolhendo cor ou credo, raça ou pátria.

Destrói-se a certeza de que o outro não carrega consigo uma arma mortal, que pode surgir implícita tanto no aperto de mão de um desconhecido como no costumeiro abraço de boas-vindas de parentes acima de qualquer suspeita. Em seu lugar, se estabelece um estado de paranóia social, que alimenta a ambivalência e as contradições nas nossas expressões de solidariedade e hostilidade para com esse outro. O distanciamento e a exclusão tem graves consequências sociais, onde medidas restritivas que cerceiam liberdades individuais são confrontadas com protestos, reacionando medos enraizados, fomentando discursos populistas e neofascistas que se aproveitam dessa paranóia para evidenciar, com clara transparência, o estado de conflito entre o indivíduo e a sociedade.

Mais uma vez, o pensamento freudiano aponta a compreensão de como a necessidade de segurança do indivíduo contrasta fortemente com o seu princípio do prazer, criando uma tensão que pode levar ao surgimento da inevitabilidade de dar vazão a impulsos instintivos, à perda violenta de controle em explosões e rompantes emocionais. Sob o atento olhar da psicanálise, não nos surpreende que as exigências inconscientes do indivíduo provoquem hostilidade e rompantes de agressão, mas podemos atuar contribuindo para um melhor equilíbrio neste conflito, reconhecendo e mediando essas dimensões expostas, tanto em nosso contato com pacientes, como em nosso discurso na ampla esfera social. O tema da morte é de uma complexidade e profundidade imensa, obscurecida pela materialidade elusiva de como estávamos habituados a viver e se relacionar desde então, mas que agora se auto-promove à personagem principal no palco da contemporaneidade. Precisamos manter esse diálogo aberto.

Os Mapas de um Novo Normal

As formas como entendemos nossos sentimentos com relação aos novos estados e costumes que a pandemia nos proporcionou, vivenciados tanto de forma consciente como inconscientemente, são fortemente influenciadas por nossas experiências interpessoais básicas. Onde a crise promoveu a pausa e lentidão dos processos cotidianos, o tempo pareceu quase parar, permitindo a percepção de um espaço de relaxamento e reflexão no lugar até então ocupado pela correria das tarefas e obrigações habituais. Frente ao alívio paradoxal concedido por esse estado de emergência, se reflete todo o peso exaustivo do imediatismo da rotina, hábitos, tarefas, costumes e formas de pensar, que compõem obrigações e crenças limitantes que o indivíduo aceita carregar vida afora, muitas vezes sem nunca ter se questionado do seu real motivo e propósito. Essa reflexão traz luz às questões reais do nosso convívio social, uma vez que a pandemia escancara as diferenças entre classes sociais, privilégios, injustiça social, questionando a ordem simbólica da igualdade de direitos e oportunidades. Ela expõe implacavelmente as contradições inerentes do modelo econômico neoliberal, as inconsistências políticas de um governo no qual não se pode confiar, o impacto colossal que a falta de uma liderança convincente e solidária exerce em uma sociedade atormentada pelo medo.

Frente às proposições existenciais desta crise, se abre a necessidade de trilhar novos caminhos, buscar novas saídas, tanto coletiva quanto individualmente. A busca por um modelo de vida mais saudável, mais solidário e consciente, promove a procura por novos e mais saudáveis planos de carreira, a reinvenção de normas e o questionamento das práticas estabelecidas. Tendo a tecnologia como principal aliada desse processo, observamos a completa reformulação do ambiente de trabalho com a aceitação globalizada do modelo de home-office, nesta busca por espaços mais naturais, promovendo o alívio de quem se viu, enfim, livre da necessidade de comparecer presencialmente em um escritório depois de desnecessárias horas gastas no trânsito ou transporte público. O retorno à casa dos pais também trouxe à tona necessárias considerações existenciais sobre os modelos de sucesso que a nossa sociedade fomenta, ao mesmo tempo que a presença inescapável do espectro da morte em todas as instâncias do discurso público nos fez reconsiderar a qualidade do tempo que passamos com nossos parentes e entes queridos.

Através da tecnologia, o afeto também encontra novas expressões. O amor resiste e torna-se digital, mas não por isso menos intenso. A mutação acelerada de aplicativos de relacionamentos atinge seu novo estágio evolutivo, um carrossel moto-perpétuo de opções, trazendo até a segurança do nosso isolamento a excitação e o flerte reservados para encontros casuais em bares, casas noturnas e eventos sociais. Uma forma mais prática e acessível, não apenas para quem buscou companhia em um momento de crise, mas também para quem precisou conversar, expor seus pensamentos e sentir-se ouvido.

O momento presente nos faz reconsiderar as reais necessidades do ser humano e o que o homem pode vir à ressignificar, dando espaço para pensamentos que questionem a validade do consumismo imediatista diante de uma inflação descontrolada, pautada por uma crise econômica oriunda de uma performance governamental desastrosa — da qual ainda estamos muito perto e não temos nem condição de especular o real alcance nos anos futuros — , que também nos faz questionar a quantidade exorbitante de lixo que produzimos, abrindo a discussão de temas prescientes como a responsabilidade individual e coletiva diante das alterações climáticas e seus efeitos.

Ao perder o controle individual sobre o mundo no qual ele estava inserido e acostumado, o indivíduo vê suas projeções do futuro se desfazerem diante dos olhos, dando lugar a um momento de reconstrução e reorganização, onde se fazem necessários novos mapas de acesso à um “Novo Normal”, um real desafio para aqueles dispostos a enfrentar e desbravar esse novo território que se apresenta sob os nossos pés. Traçar esses passos, alcançando essa maturidade da mente, aceitando os imprevistos e se desvinculando do controle do tempo, é buscar viver, viver uma vida que vá além da nossa participação em um sistema capitalista enviesado de acumulação de bens e ascensão social, para que enfim, esse indivíduo possa se ver finalmente livre da sua quarentena de desejos.

A travessia de um evento pandêmico global desta magnitude tem se revelado ser uma jornada cada dia mais complexa e laboriosa, cuja gravidade expõe traumas que revelam ao indivíduo a real profundidade de sua impotência e desamparo. Desestrutura símbolos compreensíveis e habituais, costumes e normas sociais, em uma sucessão imprevisível e inescapável de acontecimentos dos quais este indivíduo ainda está muito perto e vulnerável para conseguir acessar seu real tamanho e entender seu escopo, emocional e intelectualmente, dificultando a construção imediata de novos significados.

Vivemos o luto da perda de um futuro que conhecíamos, planejar eventos e viagens hoje é algo que veste um risco e uma complicação da qual ainda precisamos nos acostumar. Não apenas nossa segurança econômica, mas nosso senso basilar de segurança vital se vê comprometido com essa incerteza que parece nos acompanhar a cada momento do dia. Tem sido chocante encarar quantas pessoas perdemos, quantos laços foram desfeitos, quantas histórias encontraram seu súbito fim sem despedidas ou um capítulo final.

Frente a esses sentimentos de impotência ansiosa, podemos encontrar ideias e opiniões confusas e radicais, alimentadas por interesses externos ou simplesmente desinformados. No Brasil, essa confusão de opiniões e ideias se agrava em maiores proporções, diante de pensamentos discordantes instaurados pelas próprias autoridades que, como representação social desta metáfora paterna, deveriam ter em si ao menos competência e a intenção de assegurar o bem estar e a vida do seu povo. A realidade é negada, para que o indivíduo não precise enfrentar seu medo ou pavor da morte, ou então ela é redimensionada, permitindo que o indivíduo projete no mundo todas as suas angústias latentes, que agora podem se manifestar usando como veículo o medo coletivo de um inimigo invisível, letal e onipresente.

Sem cerimônias, o isolamento individual consagra a tecnologia à posição de ferramenta essencial para se conduzir a vida contemporânea. Muitos empregos e profissões adotaram o modelo virtual de atuação, através de aplicativos sociais, e-commerce, serviços de delivery, reuniões profissionais em videochamadas, tudo para alcançar uma demanda que só aumentou com a pandemia e que não parece parar. Porém, toda essa improvisação e evolução tecnológica é empregada na manutenção de um estilo de vida que se assemelha mais e mais a uma roda onde um hamster se exercita à exaustão, cada vez mais cerceado pelas obrigações que estão em função daquilo que consideramos as grandes importâncias da nossa vida. O maior benefício do home-office tem sido nos tornar mais atentos ao tempo que passamos trabalhando, à qualidade dos nossos momentos individuais e a nossa própria saúde mental.

Em meio a toda essa ressignificação do cotidiano, não é incomum que nos faltem palavras para descrever nossa nova realidade, uma vez que essa crise simbólica revela também uma crise linguística. Estamos aprendendo, e a psicanálise se apresenta como uma das ferramentas mais propícias e essenciais disponíveis hoje nessa busca por um entendimento maior, de si e do outro. A cada dia vamos nos alfabetizando mais na linguagem simbólica deste novo mundo, traduzindo seus reflexos e relacionando suas sintaxes, entendendo as emoções que irrompem a superfície, de forma a trabalhar esses sentimentos de desamparo e impotência, com espaço, cuidado e atenção. É na contextualização desses símbolos, onde nos aventuramos a dar significados compreensíveis e enriquecedores que ajudem a identificar caminhos e novos modelos de atuação, que devemos conduzir, não evidenciando o perigo que nos separa, mas sim a esperança e o amor que nos une.

Às vezes, tudo o que a gente precisa é de alguém capaz de oferecer escuta, entendimento e empatia. A psicanálise é assim. Me dá um toque, bora conversar.


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