Que eu sofra o castigo que mereço
Que eu sofra o castigo que mereço
Que o universo me castigue por ser quem sou, por amar quem não devo e por temer a solidão. Fizestes do meu amor, mágoa e de meus sentimentos desdenhou como fazem os ricos aos pobres. Escancare que a conveniência fez a situação e que jamais, em nenhum momento, esteve de fato aqui. Esteve consigo mesmo, somente, fechado em si, esperando a minha total doação de tudo que sou. E eu, necessitado que só, me prostrei e me dei.
O acaso deve me castigar, em vez de me proteger, pela covardia de existir e, ao mesmo tempo, odiar a existência. Que me castigue pelo amor que neguei e pelo amor que expressei demais, pelos fardos que escolhi carregar e pelas batalhas que escolhi travar, nenhuma delas sendo dignas ou honradas, sendo todas banais, irrelevantes e sem sentido algum para a minha existência ou para a existência do mundo. Somos todos tão pequenos, afinal, que nem mesmo isso importa.
Tive os piores dias de solidão ao teu lado.
Acredito ser fruto do meu próprio tempo, uma pessoa deprimida que não acredita na resolução dos problemas humanos. Nem mesmo a revolução é capaz de preencher o vazio no coração humano, este existirá para sempre na pequenez da humanidade e cobrirá a sombra do mundo. Quando tudo, enfim, acabar, meu bem, não seremos nem mesmo uma lembrança, somente um conjunto de tragédias que se foram e, em meio à todas elas, as nossas lá estarão, para não serem lembradas, cantadas ou sentidas senão apenas por mim, esse ser pequeno que, também, já não existirá mais.
Não haverá prova concreta ou metafísica de nossas dores. Desapareceremos. É reconfortante, não acha? Saber que tudo passará, que não há inferno para ir, nem purgatório para nos purificarmos da inevitabilidade que é a mácula do pecado. Haverá somente o vazio e o silêncio que minha mente procura e o sossego que os nossos corações almejam. Haverá paz para nós. Enfim estaremos livres, pois não existiremos mais, seremos o que passou e o que não é e que jamais, ao menos espero, voltará a ser.
Gosto dessa incerteza, desse atirar-se no escuro e seguir adiante, e, estando com você, meu bem, não tenho medo. Mas não o quero mais. Estou esperando abandonar-me para que eu possa chorar sua perda e, após o luto, viver livre novamente. Por favor, me abandone e se leve consigo, sem deixar nada para trás. Essa é a condição para a minha liberdade: teu abandono, tua partida.
Não serei castigado, serei abençoado com o vazio do universo, sem o vazio do meu coração coexistir. Serei nada, já me sinto nada, mas serei um nada, desta vez, indeterminado, pois nem mesmo a linguagem existirá. E o que um dia foi “nós”, será, por sua vez, nada. Que bom! Haverá, para toda a eternidade, sossego.

O texto é a junção de dois outros textos bastante pessoais. Achei que eles pudessem funcionar juntos. Critiquem a minha intimidade!
메타데이터
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- 2026-07-15 21:42:14