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1 — A Simulação de Hawkins

Steven Harrington fechou o armário de remédios do banheiro e mirou o próprio reflexo. Uma trinca atravessava a imagem e deformava seu…

Matheus Lianda · 2026-01-08 21:20 · 0 claps · 9.8 min read
#fanfic #steve-harrington #dustin-henderson #stranger-things #vecna
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1 — A Simulação de Hawkins

Steven Harrington fechou o armário de remédios do banheiro e mirou o próprio reflexo. Uma trinca atravessava a imagem e deformava seu rosto na fraca iluminação da manhã, que penetrava pela pequena janela do lado oposto do cômodo. “Pálido”. Não poderia ser diferente; o garoto teve apenas alguns meses para processar os acontecimentos sinistros do ano anterior e encontrar uma ocupação para sua mente. Após examinar rapidamente suas pálpebras, deu uns tapinhas no rosto para acordar e pegou seu boné no porta-toalhas atrás de si. “Beisebol, quem diria”, pensou, ao identificar no espelho o logotipo do time que estava treinando nos últimos meses. “Nunca pensei que eu gostasse de beisebol”.

Após um instante de contemplação, rumou para mais um dia de trabalho. Hoje, ao menos, não seria somente outro treinamento rotineiro de fundamentos e condicionamento físico, e sim uma partida decisiva contra os atletas da capital, Atlanta, pela Liga Infantil.

Harrington bateu a porta de seu velho BMW 733i, e um pedaço de lata enferrujado caiu em seus olhos, fazendo-o lacrimejar com a dor, socar o painel do veículo e xingar o antigo companheiro motorizado. Bem que seu time podia conquistar esse maldito título. Assim, ele ganharia uma bonificação decente e poderia comprar um carro mais moderno, ainda que, novamente, usado. Ao dar a partida e acelerar, o porta-luvas frouxo se abriu sozinho, e uma foto ligeiramente corroída pelo tempo flutuou graciosamente para o banco de passageiros, ao lado de um rasgo no tecido.

Ele sequer se lembrava da existência desse registro. Ao pegar, recordou-se da ocasião: um passeio em uma feira estadual. Um Steve cinco anos mais jovem abraçava uma linda Nancy Wheeler, ambos no auge da beleza colegial, vestidos como um casal de revista. “Droga”, suspirou, enquanto colocava a foto entre os documentos de sua carteira. Às vezes, se esquecia de como sentia saudades dessa garota. Agora, ela estava trabalhando como jornalista em outra cidade. Colocou os óculos de sol, nostálgico, saiu de sua garagem e tomou a rua. Queria chegar cedo (assim poderia chamar a atenção de seus jogadores por chegarem tarde). Acelerou.


Como de costume, o jogo parecia fácil demais. Harrington não treinava superatletas — longe disso — , mas, por alguma razão, desde que assumira o time infantil de Hawkins, vencera todas as partidas. Muitas vezes, inclusive, por diferenças colossais no placar. Hoje não era uma exceção: seus jogadores estavam no bastão e tinham uma vantagem de seis corridas, nenhum strikeout, quase todos os batedores conseguiam colocar a bola em jogo. “É, eu devo ter um talento inato mesmo para ensinar crianças. Acho que sou uma boa influência, no fim das contas”, concluía, enquanto assistia preguiçosamente a um pirralho avançar mais uma base sem grandes obstáculos.

O suave sol da manhã incidia sobre o gramado e aquecia o uniforme de técnico de Steve. O calorzinho crescente gerou uma poderosa sonolência, que se apoderou de seu corpo. Centímetro a centímetro, sua cabeça foi pendendo para trás. A partida insossa não exercia nenhum atrativo para mantê-lo acordado — e, honestamente, beisebol era um esporte chato.

Sonhava com a feira estadual, com Nancy. Que tarde deliciosa passaram juntos! Caminhavam de mãos dadas, “Bette Davis Eyes” tocava no rádio, brincavam nas barracas. Ele ganhou um cachorrinho de pelúcia para a garota na barraca das argolas. Em retribuição, Nancy o beijou no rosto. “Hm. Só isso, um beijo no rosto?” Ele sabia que conseguiria mais até o fim da noite. Quando o sol estava se pondo, compraram um algodão doce e se sentaram em um banco.

— Eu senti sua falta, Steve.

— Eu senti falta de tudo isso também, gata. Mas principalmente de você.

Nancy sorriu, e eles se aproximaram.

— Sabe, eu preciso confessar uma coisa.

Seu coração pulou uma batida. Confessar? Seria sobre… Jonathan? Aliás, Steve percebeu, bem lá no fundo, que seu inconsciente não deveria estar preocupado com Byers na época em que essa narrativa estava se passando, tantos anos atrás. Porém… era só um sonho.

— Não. É que…

— O quê?

— É só que…

— Pode falar, Nancy!

— Eu… eu…

Steve começou a sentir um medo irracional, mas não enxergava qualquer motivo para isso. Ele sentiu frio e, ao olhar para cima, percebeu que o sol lentamente desaparecia. A feira ainda estava ali, ao redor deles, mas ganhava tons de azul e vermelho. Raios passaram a iluminar todo aquele cenário.

— Eu…

Ele olhou para a mão de Nancy. O cachorrinho de pelúcia com que lhe presenteara estava… diferente, no mínimo. Sua boca cresceu, e cresceu, e cresceu, e em poucos segundos, ocupava toda sua cabeça. Então, se abriu mais e mais… em um formato alienígena. Pareciam pétalas de flor, entretanto todas eram crivadas de dentes afiados, de onde uma baba espessa e viscosa escorria. Quando subiu o olhar de volta para a garota, não era mais ela quem estava ali. Enxergou nada mais que uma massa disforme de músculos e nervos, toda retorcida; a ausência de nariz e um sorriso cínico trouxeram um terror familiar. A criatura se aproximou. O cheiro de podridão perturbava os seus sentidos.

— Olá, Steve. Sentiu minha falta?

O horror consumiu sua mente. Harrington saltou para trás, o banco não mais estava lá, apenas ele: Vecna, com um demodog, na prisão que era o Mundo Invertido. A despeito de conhecer milimetricamente o local, ele logo entendeu que não teria como escapar. Estava sem rádio, sem armas, sem transporte. Olhou para os lados em busca de ajuda, algum objeto para se defender, um taco, um bastão, qualquer coisa… Nada. Tremores involuntários sacudiram seus braços, mas mesmo assim, ele os ergueu em posição de luta, o coração disparado, e preparou-se para o fim iminente.

Fora uma boa vida. Tivera grandes amigos, várias namoradas, aventuras inacreditáveis, um time invicto de beisebol…

Espere… beisebol?

O silvo agudo do apito do árbitro o despertou de seu torpor. Steve acordou desorientado, suava frio. Ouvia os gritos da torcida e dos jogadores. “O que está acontecendo?”

— Acabou? Nós vencemos?

Olhou para o campo. A princípio não entendeu o que estava acontecendo, mas logo conseguiu identificar uma figura claramente não pertencente àquele espaço. Afastados, todos encaravam fixamente o centro do gramado, onde uma pessoa confusa estava de costas para Steve, um pouco mais alta e corpulenta que o restante das crianças uniformizadas. Vestia-se com um sobretudo e parecia quase tão perdida quanto ele mesmo se sentia. Quando ela se virou para a área técnica, a incredulidade tomou conta de Harrington, e ele tirou os óculos escuros para enxergar melhor.

— Henderson?

Dustin Henderson, seu antigo companheiro que não encontrava há meses, caminhava rapidamente em sua direção, sorrindo. Ele carregava um walkie-talkie nas mãos e parecia tão surpreso com a situação quanto satisfeito. Conforme ele avançava, mais pessoas se afastaram. Por que todos pareciam receosos de se aproximar do garoto inofensivo? Steve encurtou a distância entre eles.

— Cara, o que diabos você tá fazendo aqui, no meio do jogo? — perguntou ao se aproximarem. Dustin abraçou-o, sem dar quaisquer explicações. Atônito, o técnico hesitou e, em seguida, abraçou-o de volta. — Henderson, tá… tudo bem?

— Eu sabia que ia funcionar — disse com a voz abafada pela jaqueta de Steve. — Quer dizer, eu não sabia… mas nunca torci tanto para alguma coisa funcionar como agora.

Ao redor, as pessoas ainda olhavam com absoluto espanto para a dupla, Harrington não compreendia. Tudo bem, um garoto (que todos concordariam, era estranho) acabara de interromper a partida ao entrar no meio do campo; mas isso, embora incomum, não era absurdo. Certo?

— Eu sei, você deve estar se perguntando como isso aconteceu, e…

— Como o quê aconteceu, Henderson?

Dustin saiu abruptamente do abraço, colocou as mãos nos ombros do amigo e o encarou.

— Você não viu?

— Viu o quê? — repetiu, irritado.

— Você não viu nada, nadinha, agora?

Steve permaneceu impassível.

— Eu… Bem, eu estava cochilando.

A expressão de Dustin se fechou.

— Droga, Steve, eu não acredito nisso. Eu acabei de ser o protagonista de um experimento literalmente icônico, e você não viu. Minhas partículas foram materializadas em um campo eletromagnético no meio do campo.

— Tá. Na minha língua agora, cara.

Dustin revirou os olhos.

— Eu acabei de aparecer aqui, do nada. Provavelmente com muitos raios e barulho.

— Uau. Isso é… Caramba, cara. E você consegue fazer isso de novo?

Henderson abriu um meio sorriso.

— Essa é a ideia. Vem comigo.

Ele puxou a mão de Steve em direção à borda do campo, mas o companheiro resistiu.

— O que foi?

— Cara, eu sinto muito, mas eu estou no meio da partida da final da liga. Harrington indicou as centenas de espectadores presentes ao seu redor.

— Tá, e daí?

— E daí que eu tô realmente precisando da grana — respondeu honestamente. — Ah, claro, e esses pirralhos estão contando comigo também, aquele negócio de ser uma boa influência.

Dustin se aproximou novamente.

— Steve, eu tenho uma notícia boa e uma ruim para você.

Harrington bufou.

— Ah, okay. A boa, por favor.

— Você não precisa se preocupar com esse jogo de beisebol. Ganhar, perder… vai dar na mesma.

Steve olhou para a arquibancada, onde a torcida ocupava todos os lugares do estádio municipal. Em seguida, olhou para os seus jogadores, que esperavam a cena se desenrolar para, possivelmente, retomar a partida que estavam vencendo.

— Eu não acho que todo mundo aqui concordaria com isso.

— Confie em mim, não faz diferença.

— Certo, tudo bem, Henderson. E qual é a má notícia, então?

A feição de Dustin assumiu um tom mais sério do que nunca.

— Nada do que você viveu nos últimos dois anos foi real, Steve. Você está em uma simulação.

O sangue deixou o rosto do técnico e um arrepio percorreu-lhe todo o corpo. Ele sabia que Dustin não brincaria com um assunto desse, o garoto falava sério. O som das palavras, pássaros, motores, buzinas, o mundo pareceu-lhe abafado, um zumbido tomou conta do ambiente, tudo parecia quase artificial. Seria a reação de seu organismo à notícia ou apenas estaria constatando algo de que já desconfiava inconscientemente há muito tempo?

— Caramba, Henderson. Quando eu acho que você não pode mais se superar…


O carro percorria a estrada em alta velocidade. Por um conselho do companheiro recém-materializado, Steve simplesmente abandonara a partida e seus jogadores sem sequer olhar para trás. Dustin contemplava a janela, pensativo.

— De novo, para onde estamos indo?

— Colégio Hawkins.

— Colégio? O que a gente vai fazer no colégio, cara?

— Eu combinei com o Prof. Clarke. Ele vai nos resgatar ali — respondeu, suspirando, enquanto a paisagem passava por seus olhos. — Difícil acreditar que nada disso existe, sério.

— Como assim resgatar? A gente tá em perigo?

Dustin encarou o amigo, incrédulo.

— Alô, Steve, você prestou atenção? Você. Está. Vivendo. Em. Uma. Simulação!

— E daí? Quer dizer, o que isso muda na… sei lá, vida real?

— O que você imagina que esteja acontecendo na sua vida real?

— Não sei… na vida real, eu jogo basquete?

— VOCÊ ESTÁ PRESO!

Steve tirou os olhos da estrada para encarar o outro.

— Como assim preso, Henderson? O que eu fiz?

— Todos nós estamos presos, Steve. Ou, pelo menos, a maioria. Eu não estou mais.

— Só você? Mas… presos onde?

— Ora, não é óbvio? Nós estamos… OLHE PARA A ESTRADA!

Com um golpe fulminante de volante, Steve desviou no último segundo de um tronco de árvore que invadira a pista. O carro derrapou, e ele perdeu o controle da direção. Saíram da estrada e foram arremessados com violência para o acostamento, onde colidiram com uma cerca de madeira e arames. Harrington bateu a cabeça contra o volante e Dustin no painel. Após alguns segundos, eles voltaram à posição inicial, doloridos, esfregando o rosto.

— Ai…

— Se nada é real… qual seria o problema de bater naquela árvore?

— Como você deve ter percebido, Steve, a dor simulada também machuca — disse Dustin, apontando para a área sob os cachos, que começava a inchar.

— É, eu percebi — garantiu, tirando os óculos escuros, agora completamente tortos e trincados. Ele abriu a porta do carro e saiu. Dustin fez o mesmo. Eles se alongaram, foram para a traseira do carro e encostaram no porta-malas. Fumaça branca saía do capô, completamente amassado. Steve mantinha as mãos nos bolsos, pensativo. Dustin não quis esperar mais.

— O que você precisa entender é que, no final… nós não vencemos.

— Do que você tá falando, Henderson?

— Matar o Vecna. Matar o Devorador de Mentes. Nós nunca fizemos nada disso. A gente perdeu assim que chegamos ao Abismo, ali acabou para nós. — O queixo de Steve pendia enquanto ouvia as novidades. — Tudo que fizemos depois disso nunca aconteceu. Vocês todos estão presos, e eu acabei de conseguir me libertar com a ajuda do Prof. Clarke e do Murray.

Dustin olhou para o relógio.

— Temos quinze minutos para chegar ao colégio. Podemos ir?

Steve engoliu em seco e, tremendo, pegou a chave do carro. Acabara de perceber que todos os seus sonhos, lembranças e conquistas dos últimos 23 meses foram somente um produto da mente doentia de um monstro psicopata. “E pensar que as minhas maiores preocupações hoje de manhã eram vencer uma partida de beisebol e juntar grana para comprar um carro novo”.


메타데이터
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