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Será verdade que os homens amam outros homens?

Quando discursos repetidos sem criticidade se tornam verdade.

Black' Mnyama X · 2025-09-09 20:06 · 0 claps · 5.4 min read
#masculinidade #masculinity #homens #men #parça
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Será verdade que os homens amam outros homens?

Quando discursos repetidos sem criticidade se tornam verdade.

Ontem eu estava refletindo isso enquanto postava um status de TBT no WhatsApp com um afeto, enquanto escrevia a legenda sobre como esses 8 anos de amizade, esse amor construído de forma espontânea e natural em nada se assemelhava aos discursos repetidos na linha de “homens não amam mulheres, amam outros homens”, e notei que o que escrevi em nada se assemelhava a essa ideia.

Conversando com outro afeto, no caso de uma pessoa não-binária, comecei a refletir em como o amor que descrevia para com esse outro afeto não era diferente do amor que senti por elu e todos os outros afetos que tenho, sejam estes afetos mulheres ou pessoas não-binárias, e que isso não parece em nada com esse tal “amor entre homens” que escuto tanto por aí. Mas há outro detalhe, a resposta desse afeto ao meu status continuou na contramão da idealização desse “amor masculino”, as palavras que ali foram trocadas tinham carinho, afeto, companheirismo, e amor de fato. É desta confluência que nasceu a indagação:

Homens realmente amam outros homens?

E a resposta que cheguei é não.

Mas antes de quero deixar explícito que não estou falando de amor e/ou relações afetivo-sexuais entre homens, mas de amor como afetividade, que realmente afetar e transformar o mundo do outro.

Feito esta ressalva, podemos continuar.

Chegar nesta conclusão passa não apenas pela minha própria história e relação que construí ao longo desses 30 anos de vida com outros homens, mas também das histórias que os homens que me relacionei e me relaciono de alguma forma também constroem entre si e com outros homens, do que vi em entrevistas, filmes, séries e animações, ou que ouvi em músicas, como também em postagens nas redes sociais, o que li em livros, blogs etc., toda essa gama de informações e experiências sobre. E na real, homens não amam outros homens.

É óbvio que isso é uma generalização, e como toda generalização possui suas exceções, mas mesmo sem ter a resposta, quero deixar aqui uma pergunta: será que todas as exceções de amor entre homens que você está pensando não são apenas demonstrações mais emotivas que esses homens compartilham entre si sobre seu amor ao patriarcado? (Fica como reflexão)

Fonte: https://elaele.com.br/q/390147-o-que-e-tal-homem-padrao

Fonte: https://elaele.com.br/q/390147-o-que-e-tal-homem-padrao

Nas confluências com esses dois afetos, um deles um homem cis heteronormativo e u outre uma pessoa não-binária, pude chegar a conclusão que homens amam a sensação de igualdade que podem sentir entre si e amam poder compartilhar o mesmo status de opressor com seus iguais, por isso que os exemplos que as pessoas dão de “homens que amam outros homens”, em geral, são de homens que compartilham características em comum, como:

· Classe social;

· Raça;

· Localidade/regionalidade/nacionalidade

· Valores morais, éticos e políticos em comum;

· Mesma orientação sexual;

· Religiosidade

Quero dizer que esses homens não amam uns aos outros, amam a sensação de poder patriarcal que podem compartilhar entre si, amam a sensação de igualdade, amam a expressão da opressão compartilhada que possuem e amam ainda mais alimentar o poder patriarcal e opressor um dos outros.

Fonte: https://radiomirador.com.br/homem-branco-casado-o-perfil-medio-dos-candidatos-a-prefeito-em-sc/

Fonte: https://radiomirador.com.br/homem-branco-casado-o-perfil-medio-dos-candidatos-a-prefeito-em-sc/

E podemos ver isso desde os homens brancos cis hétero do mercado financeiro, como também podemos ver entre rappers e MCs negros cis hétero, você sempre verá nos mais diversos círculos masculinos que irão representar essa ideia de “homens que ama outros homens” essa “padronização” dos corpos masculinos dentro desses espaços. Ali não há amor entre homens, mas sim um amor ao que esses homens representam enquanto iguais e que podem reafirmar o seu status social e patriarcal perante a sociedade e perante outros homens que estão barrados desses espaços de sociabilização.

Neymar com os parças Jota Amâncio, Cris Guedes, Gustavo Almeida, Gil Cebola e Gui Pitta (da esq. para a dir.) Fonte: https://ge.globo.com/sp/santos-e-regiao/futebol/times/santos/noticia/2025/03/25/de-blogueiro-a-dirigente-o-que-fazem-os-parcas-que-estao-com-neymar-desde-inicio-no-santos.ghtml

Neymar com os parças Jota Amâncio, Cris Guedes, Gustavo Almeida, Gil Cebola e Gui Pitta (da esq. para a dir.) Fonte: https://ge.globo.com/sp/santos-e-regiao/futebol/times/santos/noticia/2025/03/25/de-blogueiro-a-dirigente-o-que-fazem-os-parcas-que-estao-com-neymar-desde-inicio-no-santos.ghtml

Não existe amor para com o outro nesses espaços, o outro é apenas visto como a representação da validação do eu, é uma extensão de como me percebo enquanto homem ou a expressão daquilo que eu deveria ser.

Quando penso em homens que amam outros homens, penso que esse amor é construído não dentro dos parâmetros patriarcais e nem para reforçar o mesmo, é como uma confluência violenta de humanização, é ir ao encontro do afeto do outro que te afeta e te transforma, é humanizar-se. Homens que se amam, em primeiro lugar, precisam vencer os próprios preconceitos homofóbicos e a incapacidade de amar outro homem sem que isso tenha um interesse afetivo-sexual, e mesmo que tenha, é preciso que a afetividade também seja estimulada. Amar outros homens é um ato de amar quem você é e não amar o desejo de ocupar o lugar patriarcal da masculinidade hegemônica.

Amar outros homens é amar a si e as suas fragilidades. Não é esperar que outros homens te incentivem a ser todo e qualquer estereótipo patriarcal, de classe e/ou racial que a sociedade colonial e patriarcal tem sobre você, mas é ser incentivado a destruir seus próprios preconceitos, a combater os valores que te foram ensinados desde que você nasceu, é aprender a ser vulnerável, a falar mais abertamente sobre como você se sente, sobre seus medos, sonhos, desejos, sexualidade e sentimentos. É ter outros homens que confrontam o seu machismo, misoginia, homofobia e transfobia e você confronta a deles. Amar outros homens é assumir o compromisso político, individual e coletivo, de se opor a esta forma de viver patriarcal, colonial, racista e capitalista.

Amar outros homens é aprender que a vida não é como nos ensinaram, é poder se sensível, poder chorar, poder ser quem realmente é. É construir espaços onde diferentes homens possam se sentir acolhidos e pertencentes, mas principalmente, que esses espaços possam ser locais seguros para crianças, mulheres e pessoas não-binárias. Que as pessoas que convivam conosco não venham a nos temer, principalmente quando estamos juntos, mas que possam se sentir acolhides, que se sintam amades e respeitades por nós, sem que a gente precise performar quaisquer estereótipos atribuídos aos papéis de gênero.

Amar outros homens é romper com o patriarcado de forma radical, é um chamado a ser e a viver de forma diferente. Você não pode ser mais o mesmo e nem aqueles que convivem com você, é ter um compromisso político de lutar pelo fim do capitalismo, pelo fim do patriarcado, pelo fim do colonialismo. É ser aliado dos movimentos feministas, LGBTQIAPN+, antirracistas, anticoloniais e anticapitalistas. É lutar contra o que te ensinaram a vida toda ser, mas que você compreende e entende que não fazem sentidos, que é só uma forma de continuar reproduzindo violências para com crianças, mulheres (cis e trans), pessoas não-binárias e outros homens (cis e trans).

Após ler tudo isso, será que você ainda concorda que “homens amam outros homens” ou que toda essa construção retórica se nega a ver o óbvio, que homens amam se sentir iguais e validados por outros homens, para não terem que assumir suas responsabilidades pela manutenção do patriarcado colonial-capitalista, para que possam reafirmar seus valores patriarcais e encontrarem espaços longe dos conflitos com mulheres e pessoas não-binárias que desafiam a “autoridade” patriarcal, e assim, poderem se reconectar com o que acreditam ser a “verdadeira masculinidade” ou “virilidade” ou “forma de ser macho/homem”.

A questão toda é, que é muito mais fácil dizer que “homens não amam mulheres, homens amam outros homens”, pois isso excluí analisar e entender como esses vínculos entre homens são construídos e as suas motivações, como a gente perceber através das imagens e das conversas que esses espaços não estão abertos a diversidade de classe, racial, orientação sexual, deficiência, regionalidade/localidade, religiosidade e nacionalidade, mas que buscam num pequeno recorte e número de homens construir uma certa unidade e sentimento igualdade entre os seus membros, para assim reforçar e retroalimentar os valores patriarcais, machistas, coloniais e capitalistas entre homens.

Black’ Mnyama X.


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