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Voe!

Desde criança, eu sempre tive uma fixação por objetos voadores como aviões, helicópteros ou foguetes. A Guerra Fria acabou um ano antes do…

Victor Freitas da Silva · 2025-03-05 02:23 · 0 claps · 4.5 min read
#parapente #voar #surpresa
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Voe!

Desde criança, eu sempre tive uma fixação por objetos voadores como aviões, helicópteros ou foguetes. A Guerra Fria acabou um ano antes do meu nascimento, então todo esse papo de Nasa, espaço sideral, guerra nas estrelas e afins ainda estava bem à tona. Basicamente, eu era mais uma criança que sonhava em conquistar os céus.

Nunca vou me esquecer quando, aos 7 anos de idade, meus pais me colocaram na cabine de um avião para tirar foto com o quepe do piloto e em sua poltrona. Obrigado, mãe e pai. É a foto que ilustra o texto. Desde aquele vôo de São Paulo ao Ceará, fiquei louco por ver as coisas do alto. Tudo parece e de fato é diferente lá de cima. A impressão de sermos formigas, a calmaria que envolve as nossas atividades, da mais lenta à mais agitada, o alcance que nossa visão passa a ter…simplesmente é tudo tão belo e hipnotizante que é difícil parar de olhar.

Mas o tempo passou e já não adiantava mais tentar ser astronauta, piloto de caça ou de avião de linha comercial, até porque eu passei a não desejar ver o mundo lá de cima através dessas funções. Para falar a verdade, por anos e anos eu pensei que nunca voaria por mim mesmo. Sabe como é, a vida adulta vai chegando e vamos ficando cada vez mais “pé no chão“. Só que de repente o chão some e, como muitas vezes costuma acontecer na história, tudo muda. Entramos em um período de pandemia em que, com o perdão do jargão, para morrer bastava estar vivo. Nesse contexto, parti para o tudo ou nada. Fui morar na praia antes que este e outros dos meus quereres pudessem simplesmente“morrer na praia“. Lá, me apaixonei por um lugar. Um lugar alto, onde por vezes eu anoiteci, amanheci e frequentei para me curar quando adoeci.

O mirante é um lugar alto e orientado para o Sul, numa bordinha da Mata Atlântica do Atlântico sul. Pouco frequentado durante a semana e em horários distantes do pôr do sol, ali me refugiei de muita coisa. Até que, de repente, enquanto eu tentava fotografar alguns pássaros numa tarde qualquer, apareceu um cara com uma mochila misteriosamente grande e com duas mulheres o seguindo. O recipiente que ele levava nas costas foi colocado no chão e eu não consegui disfarçar a curiosidade. O que será que ele carregava? Alguns segundos mais tarde ele começou a desfazer a mochila e de dentro dela saiu uma asa. Sim, como eu havia pensado enquanto eu pensava no que ele carregava, ele estava ali para se jogar do precipício a bordo de um parapente. Acompanhado, aliás, de uma das duas moças que o acompanhavam.

Incerteza, angústia, medo…eu nunca tinha visto aquele cara ali e ele sacou um parapente da mochila…em alguns instantes ele sairia voando e eu talvez nunca o encontrasse novamente. Tive que ir ao seu encontro e perguntar:

— “Oi, beleza? Cara, como é que funciona isso aí?“.

— “Então, eu faço voos em dupla, se você quiser um dia, pode me chamar nesse cartão aqui“.

— “Opa, valeu. Como é seu nome?“.

— “Ismael“.

— “Israel?“

— “Não, Ismael, tipo o democrata cristão“.

— “Ah, beleza, Ismael. Depois eu te chamo lá. Eu sou o Victor“.

— “Combinado, Victor“.

E o cara simplesmente saiu voando, mesmo. Puta que pariu.

Sim, mandei uma mensagem no whatsapp, combinamos o pagamento, e uma semana ou duas depois, lá estava eu para voar com ele. Quando eu cheguei, ele foi me perguntando como eu estava, de onde eu vinha, se queria mesmo voar e tal…meio que para quebrar a tensão que normalmente envolve esses momentos. Se jogar de um precipício acreditando que seu corpo será sustentado e voará por conta de uma força invisível (o vento), é para muitas pessoas algo tão surreal como acreditar em Deus. Confesso que eu estava começando a pender mais para a segunda possibilidade, pois quando ele disse que a gente tinha que correr bem na direção do abismo ficou tudo meio esquisito, mesmo. Enfim, deu tudo certo e voamos um pouco. Me senti como a criança da foto, pude voltar a ver as coisas lá de cima. Detalhe importante é que desde o início da conversa nos demos bem porque ele disse que era professor de história na escola municipal na Barra do Una, onde eu passaria a lecionar geografia uma semana mais tarde. Eu fazia ali um novo amigo e colega de profissão.

Quando pousamos, não pensei duas vezes antes de dizer ao Ismael que queria voar como ele, como um pássaro pelos céus, até que minhas asas se cansassem de tanto sustentar meu corpo!!! Eu queria saber onde eu poderia fazer aulas, quanto custaria, como eu faria para me deslocar até Minas Gerais ou Atibaia ou algum outro lugar distante para dominar essa arte. Para minha surpresa, ele simplesmente disse assim: “então, eu posso te ensinar, mas vai demorar um pouco até você sair voando“. O QUÊ?

Sim, o cara se dispôs a me ensinar a voar por conta própria e não me cobrou um centavo por isso. Dito e feito, fizemos aulas e aulas na areia e no ar até que eu estivesse pronto. Realmente, demorou. Diversas vezes a gente combinava mas o tempo virava, o vento enfraquecia, ou a vida adulta (leia-se: trabalho) dificultava. Enfim, fiquei pronto. Combinamos uma ida a Minas Gerais para que eu fizesse meu primeiro voo solo em julho de 2022.

O destino era Santa Rita do Sapucaí e eu levava o parapente que eu tinha comprado para realizar nosso primeiro voo juntos. Pois é…como eu nunca tinha voado, também nunca tinha testado o equipamento. Ah! E sem para-quedas reserva, mas o Ismael disse que provavelmente não precisaria porque o voo lá costumava ser tranquilo. Nos dirigimos até o pico de saltos e eu já não tinha sequer dormido direito pensando nesse “dia D“. Chegamos ao centro de saltos e, assim como eu, vários outros debutantes na arte do voo esperavam suas vezes. Repassamos as regras de trânsito aéreo e algumas outras regras do esporte, ajustamos o rádio e a selette, aguardamos o momento certo do vento e veio a ordem para inflar a vela.

Como dizem, é aí que o filho chora e a mãe não vê. Sozinho, ainda que eles estivessem ali, tomei deliberadamente as atitudes de dar alguns passos de costas para um abismo, inflar a vela e correr para o “vazio“. Uso as aspas porque tem tanta coisa nesse vazio, que texto nenhum é capaz de traduzir.

Basicamente: não há nada como sentir o vento soprando sobre cada centímetro do nosso corpo, que estamos voando e que nosso corpo pesa menos que o ar. Isso é um pouco do que sentimos ao voar.

Voe!

Obrigado, Ismael.


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