A importância desse Globo de Ouro
Fernanda Montenegro vingada em vida. E que delícia.
A importância desse Globo de Ouro
Fernanda Montenegro vingada em vida. E que delícia.

Quando eu assisti “Ainda Estou Aqui”, eu não escrevi sobre. Não tive forças. Saí do filme como quem leva um soco no meio da rua, sem saber de onde veio. Walter Salles, como um bom contador de histórias, reuniu em sua linha narrativa uma forma inovadora de retratar as mazelas da ditadura. A alegria inicial, a tensão, o medo, o desespero engolido e guardado a sete chaves pra nenhum militar escutar. Está tudo ali: o terror do silêncio como combustível do fascismo.
Sobre as atuações, nenhuma descrição é suficiente. Em poucos filmes vi atores tão bem preparados, entrosados, reais. Walter nos cata pelo tornozelo em momentos de vulnerabilidade, enquanto somos levados pela película quase que hipnotizados. A dupla Selton Mello e Fernanda Torres, então, é de uma finesse na interpretação cênica que só a experiência e a versatilidade de atores como eles pode trazer.
Tudo isso eu não escrevi à época do lançamento. E aí vem uma saraivada de prêmios. Venceu em Toronto, em Veneza, em Miami, no Novo México. Como talvez apenas Central do Brasil (1998) houvesse alcançado, Ainda Estou Aqui foi alçado a patamares internacionais e não apenas isso: a competir com filmes hollywoodianos de cacife.
Vem, então, o Globo de Ouro. Podia ser um filme por si só: em 1999, a mãe, Fernanda Montenegro, maior atriz da história do Brasil (e afirmo com a mão no fogo e um sorriso no rosto), perde o prêmio de melhor atriz para Cate Blanchett em “Elizabeth”. Mesmo ganhando a estatueta de melhor filme estrangeiro, fica um buraco. Afinal, é a primeira brasileira indicada individualmente ao Globo de Ouro. E ao Oscar (que perdeu para Gwyneth Paltrow em uma injustiça que reverbera até hoje).
Ontem, 5/1/2025, os planetas se realinham e sua filha, Fernanda Torres, ouve seu nome sair da boca de Viola Davis, vencedora de todos os prêmios de atuação imagináveis, titã da interpretação. Ali, Fernanda ganha de nomes como Angelina Jolie, Cate Winslet, Tilda Swinton, Pamela Anderson, Nicole Kidman. Para se ter uma ideia, Angelina ganhou o prêmio de melhor atriz em filme para televisão lá em 1999, enquanto Montenegro injustamente perdia o seu. São nomes que pertencem a um panteão muito consolidado da indústria americana. E lá, no meio, não tendo sido gravada de relance nem uma vez durante o evento, surge Fernanda. Sua caminhada até o palco é muito mais longa que a das demais, por sua mesa ter sido colocada lá atrás. E ela caminha entre as estrelas, sobe, abraça Viola Davis e dedica o prêmio à mãe. Uma mãe que comemora, em terras brasileiras, com seus 95 anos e um milhão de carreira.
É importante porque fura a bolha. Porque o Brasil sai da margem, ultrapassa nomes de peso e sobe ao pódio como fez com Senna, com Pelé, César Ciello. Sempre que um de nós é o melhor do mundo em algo, vamos os 216 milhões juntos, nas costas, em um carnaval fora de época. Por mim, o Brasil se sustenta por si só, e de fato não precisamos provar nada a ninguém: somos, já, os melhores, e Machado de Assis não me deixa mentir. Mas o gostinho que dá uma vitória, ah, não tem substituição.
O próximo passo é o Oscar, pelo qual não tem como ela não ser indicada. Vai ganhar? Não sei. Mas agora, dobro as esperanças. Aquela menina que jantava com os pais ensaiando suas peças durante a refeição e que foi criada, a seu modo, pela maior atriz brasileira, agora alça seus voos. E leva o Brasil junto. Que venha o Oscar, e que volte para casa com ele na mão.
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- 2026-08-02 06:59:11