Ilhados entre o desmatamento e uma hidrelétrica, primatas raríssimos lutam pela sobrevivência no…
Espécie conhecida como zogue-zogue só existe no norte do Mato Grosso e foi catalogada como um dos 25 primatas mais ameaçados do planeta.
Ilhados entre o desmatamento e uma hidrelétrica, primatas raríssimos lutam pela sobrevivência no Mato Grosso
Espécie conhecida como zogue-zogue só existe no norte do Mato Grosso e foi catalogada como um dos 25 primatas mais ameaçados do planeta.

Os últimos zogue-zogues: uma espécie à beira da extinção
Uma cena inusitada surpreendeu Armando Schlindwein numa manhã de 2024. Ao despertar, encontrou um pequeno visitante no telhado de sua casa: era um dos cinco macacos zogue-zogue que habitam sua propriedade rural. O animal, normalmente arborícola e esquivo, nunca havia se aventurado tão próximo da residência em todos esses anos.
“Foi estranho vê-lo ali, tão perto. Eles sempre ficaram nas árvores mais afastadas”, recorda Schlindwein, proprietário de um pequeno sítio no assentamento rural Gleba Mercedes, em Sinop, norte do Mato Grosso.
O que parecia um episódio curioso escondia, na verdade, um drama de sobrevivência. O primata não estava explorando por curiosidade, mas buscando desesperadamente uma rota de escape. Cercado pelo desmatamento de um lado e pelo lago artificial de uma hidrelétrica do outro, o animal fazia parte de uma diminuta família de zogue-zogues (Plecturocebus grovesi) encurralada em um fragmento florestal minúsculo — menor que quatro campos de futebol.
Esta espécie, mais leve que um gato doméstico e caracterizada por sua distintiva barba alaranjada, é uma das mais ameaçadas do mundo. Existem apenas alguns milhares desses animais, todos confinados a uma área específica do norte mato-grossense, região que tem sido sistematicamente devastada pela expansão agrícola.
“Quando os percebi pela primeira vez em 2020, foi pelos sons que faziam. Têm um uivo territorial muito característico”, explica Schlindwein. “Hoje, já me acostumei a acordar com a vocalização deles todas as manhãs. Para mim, são como galos anunciando o amanhecer.”
A descoberta dos primatas em sua propriedade motivou Schlindwein a buscar informações sobre os animais. Foi quando descobriu a gravidade da situação: em 2022, o zogue-zogue entrou para a lista dos 25 primatas mais ameaçados do planeta, segundo a publicação científica “Primatas em Perigo”.
Encurralados pelo “arco do desmatamento”
A propriedade de Schlindwein está localizada no chamado “arco do desmatamento”, região onde a floresta amazônica tem sido mais intensamente convertida em pastagens e monoculturas de soja e milho. Estudos ambientais indicam que essa espécie de primata já perdeu mais de 40% de seu habitat natural devido ao desmatamento.
“Se continuarmos nesse ritmo, em apenas duas décadas teremos perdido 80% desses animais”, alerta Gustavo Rodrigues Canale, primatologista da Universidade Federal do Mato Grosso. “O maior problema é que quando os filhotes crescem e precisam migrar para formar novas famílias e continuar o ciclo reprodutivo, simplesmente não têm para onde ir. A ação humana os deixa presos em pequenos fragmentos florestais isolados.”
O pequeno grupo que habita a propriedade de Schlindwein consiste em quatro adultos e um filhote. Eles sobrevivem isolados em uma pequena ilha verde cercada por pastagens e plantações, como náufragos em um mar de desmatamento.
Entre o desmatamento e a água
Como se o desmatamento não bastasse, os primatas enfrentam outra barreira intransponível: um lago artificial de 300 metros de largura formado pela Usina Hidrelétrica de Sinop.
“Antes da hidrelétrica, havia apenas um riacho com matas ciliares onde os macacos podiam transitar. Mas a elevação do nível da água criou um lago que os animais simplesmente não conseguem atravessar”, explica Anthony Luiz, porta-voz do Movimento dos Atingidos por Barragens (MAB).
Luiz é enfático ao criticar a operação da usina: “A empresa cumpriu apenas 30% da supressão vegetal obrigatória antes de iniciar as operações. As árvores que ficaram submersas estão apodrecendo debaixo d’água, comprometendo a qualidade hídrica e causando mortandade de peixes.”
A UHE Sinop faz parte de um complexo de quatro usinas hidrelétricas instaladas na região, todas com impactos significativos sobre a fauna e flora locais, segundo ambientalistas.
Uma corrida contra o tempo
Diante da situação crítica, Schlindwein não ficou de braços cruzados. Em parceria com outros moradores do assentamento e com o apoio de organizações ambientais como o Instituto Ecótono e o MAB, ele iniciou um projeto de reflorestamento para criar um corredor ecológico.
“No ano passado, plantamos sementes de 47 espécies nativas em um hectare de terra desmatada próxima ao fragmento onde os macacos vivem”, explica o agricultor, apontando para uma área onde pequenas mudas começam a despontar do solo.
A expectativa é que, em um período de cinco a sete anos, a vegetação plantada cresça o suficiente para triplicar o espaço disponível para a família de zogue-zogues e, principalmente, conectá-los a outras áreas verdes onde possam encontrar novos grupos e garantir a diversidade genética necessária para a sobrevivência da espécie.
“É uma corrida contra o tempo”, admite Schlindwein. “Mas ver aquele macaquinho no telhado da minha casa me fez entender que precisamos agir rapidamente. Eles estão pedindo socorro à sua maneira.”
O projeto de reflorestamento, embora modesto em escala, representa uma importante iniciativa de conservação liderada pela comunidade local. Além de plantar árvores, os moradores também estão engajados em atividades de educação ambiental e monitoramento dos primatas.
“Cada árvore plantada é uma esperança para esses animais”, diz Schlindwein, enquanto observa os zogue-zogues se movimentando entre os galhos das poucas árvores remanescentes em sua propriedade. “Talvez não consigamos salvar todos, mas estamos fazendo nossa parte para que ao menos estes cinco tenham uma chance.”
Enquanto isso, no pequeno fragmento florestal, a família de zogue-zogues continua sua rotina diária, alheia às discussões sobre sua sobrevivência, mas profundamente afetada pelas decisões humanas que determinaram seu confinamento — e que agora poderão definir seu futuro.
메타데이터
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