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O PULO DO GATO Reflexões de um Pesquisador Nativo Sobre uma Escola de Samba Carioca

CONCLUSÃO

Eduardo Duque · 2023-02-09 02:20 · 4 claps · 13.0 min read
#etnografia #ethnomusicology #samba-enredo
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O PULO DO GATO Reflexões de um Pesquisador Nativo Sobre uma Escola de Samba Carioca

CONCLUSÃO

Refletindo sobre as conclusões possíveis desta dissertação, percebi que algumas questões se encontram respondidas, enquanto outras necessitam de um aprofundamento, direcionam para um novo trabalho. Porém se faz necessário responder uma pergunta que ecoa em meus ouvidos: como concluir um trabalho que abre tão diversos questionamentos? A resposta a que cheguei é que ele não está concluído e talvez jamais estará concluído. A cada vez que se chegar ao final de um processo, novos questionamentos irão surgir. Algo intuitivamente fui construindo uma relação dialógica (FREIRE, 1987) com meu objeto.

Respondi as minhas questões iniciais de pesquisa sobre como o samba, que serve de ícone identitário e unificador da nação, não conseguia unificar e muito menos identificar a localidade da Maré? Creio haver colocado subsídios para um equacionamento mais abalizado da questão. Como o G.R.E.S. Gato de Bonsucesso consegue fazer seu carnaval na rua em um contexto extremamente adverso? Espero haver demonstrado que existe um esforço contínuo para que o samba não deixe de existir na Maré, pois ele faz parte da história de vida de muitos que lá moram, e a sua existência faz com que essas pessoas não deixem de participar de algo que é referência importante de suas vidas. Enfim, o Gato coloca seu carnaval na rua com sacrifício até mesmo físico de seus integrantes, uma vez carregar caixas de cerveja, obter matéria-prima e confeccionar fantasias, realizar consertos de carros alegóricos bem como dos instrumentos, envolvem trabalho braçal que leva cada um a suar a camisa de fato. Para o Gato realizar seu carnaval, seus integrantes procuram conciliar, ou melhor, equilibrar a vida familiar e todas as reclamações e insatisfações que são provenientes de familiares que não participam, bem como os compromissos assumidos com a escola. Muitos de seus integrantes trabalham mais tempo para o Gato que para sua subsistência, e ganhando muito menos, ou nada.

Segundo Seeger "etnografia é escrever sobre as pessoas" (APUD OLIVEIRA, 2002) nesse momento da conclusão escrevo sobre uma experiência vivida no campo que ao mesmo tempo que responde a minha primeira questão de pesquisa, abre uma discussão sobre a vivencia no campo. O principal objetivo é dar uma idéia das condições encontradas e vivenciadas durante o trabalho de campo, e como se torna difícil caminhar por esse etnográfico que é nada mais nada menos do que "escrever sobre como as pessoas fazem música" (SEEGER, APUD OLIVEIRA, 2002)

O primeiro processo de pesquisa, já mencionado, do qual participei foi o da iniciação científica, que classifico como um processo formativo capaz de fomentar o desejo de produção de conhecimento. O contato com teóricos e conceitos que estão na base, ou melhor, que propiciam os primeiros passos para uma motivação cientifica, foi desenvolvido durante esse período, participando também da exposição dos resultados da pesquisa e de todo o processo de preparação para tal apresentação.

Minha função inicial era de digitalizar textos (inclusive os musicais) e observar atentamente as nuances indicadas pelo trajeto do pesquisador que enfocávamos. O contato com esse material foi essencial na percepção de um tipo de pesquisa diferenciada onde o pesquisador traça uma meta, mas não fecha os olhos para as relações do objeto específico com seu contexto. Foi importante perceber a forma ampla com que o olhar do pesquisador analisa minuciosamente o objeto, essa forma fez com que meu olhar estivesse atento para uma série de nuances que, se não tivesse vivenciado tal experiência, passariam despercebidas. As relações do pesquisador com os produtores das manifestações por ele observadas despertaram-me interesse, assim como o um tipo de relação pesquisador/objeto, em que a proximidade do pesquisador com o meio observado o levava a buscar compreendê-lo ainda mais profundamente.

O outro processo de pesquisa do qual participei foi propiciado pela Rede Memória, envolvendo o levantamento de histórias de indivíduos da comunidade, bem como a reconstrução dos processos históricos da Maré e dos seus sub-bairros. Essa experiência redirecionou o meu olhar, passando a perceber a riqueza que estava de certo modo escondida, e que necessitava de um olhar cuidadoso. No referido processo desenvolvi funções diferentes, porém interligadas. Pesquisar foi uma delas, compreendendo entrevistar, dialogar, ouvir as histórias e experiências de pessoas que contribuíram para o crescimento da Maré de forma direta e indireta; contar histórias foi outra atividade, repassar para as crianças, para os jovens e os adolescentes as histórias e experiências ouvidas, entrar em contato com a realidade educacional da região, bem como ouvir suas necessidades e seus anseios, me ajudou a discernir sobre a função e os objetivos do ato de pesquisar.

Com a Rede Memória iniciando um novo tipo de produção de conhecimento, em que a ideia era não seguir os caminhos trilhados pela academia, (não sei se isso seria melhor porem, porém, os caminhos no trabalho com memória viva não apresentam saida, ou, por outra, necessitava caminhos metodológicos que supreissem a ampla e variada gama de desafios, bem como suas nuances) estava claro que montar um centro de memória dentro da Maré era tão inovador e para mim quanto perceber qual a verdadeira função da pesquisa, que é contribuir para o desenvolvimento local em todos os aspectos.

O outro processo de pesquisa em que me vi envolvido, diferente dos outros dois já mencionados, foi a formação do grupo Musicultura, em que minha função, no início, era mediar as relações entre o CEASM e o Laboratório de Etnomusicologia. Em alguns momentos dessa experiência desempenhei uma função que achava mais próxima ao que conhecia da experiência de pesquisa anterior, a de informante privilegiado, mas depois percebi que as informações que eu passava eram vistas, entendidas e analisadas como mais uma opinião, não necessariamente compartilhada por outros moradores, jovens também investidos da condição de pesquisadores.

Esse processo fez-me refletir sobre a formação de pesquisadores, analisar as dificuldades pelas quais eu também passei na iniciação científica, sem contar a atitude metodológica inovadora que fez com que esse os participantes desse processo adquirissem uma visão critica de si, da sua casa, da Maré e conseqüentemente do CEASM.

O objetivo principal era (é) montar um acervo sobre o cotidiano musical e cultural da Maré, mas como fazer isso? Com base no pensamento educacional de Paulo Freire e sua Educação Libertadora é que fomos construindo as nossas consciências; ou seja, refletir sobre como montar o acervo é tão importante quanto o próprio acervo em si. Para que esse acervo tenha valor diferenciado, o processo por meio do qual ele foi montado também carecia de uma metodologia também diferenciada.

Por causa desses processos, e por caminhos que não foram planejados, traçados intuitivamente, pude construir uma visão diferenciada do que é ou poderia ser uma pesquisa ideal. A consciência crítica não só de minha própria posição, mas também do objeto e dos processos pelos quais passei, levaram-me a conclusões que serão devidamente exploradas mais adiante em meu trajeto. No entanto, a percepção de minha função, a busca por um trabalho que tivesse ligado com o que estivesse diretamente ligado com a intenção do primeiro pesquisador que estudei mais a fundo (Guerra-peixe) orientou meus instintos e me conduziu a uma postura flexível e reflexiva.

Graças a tal postura, notei que a música (ou melhor o som) cria relaçoes que era (é) o que de alguma forma identifica os que participam das atividades musicais ligadas ao samba e a Nova Holanda. A experiência de pesquisa do documentário "Mataram Meu Gato" (Um documentário sobre remoção e transferência de favelas no Rio de Janeiro a partir das trajetórias dos integrantes da escola de samba “Gato de Bonsucess”, situada na favela da Maré) ocorreu concomitantemente à do Musicultura. Participar dos dois processos, ainda que o foco do documentário seja tão somente historiográfico, conduziu-me à conclusão de que o samba na Nova Holanda (Isso quer dizer um Centro de Habitação provisória criado para que os moradores de favelas situadas em áreas nobre do Rio de Janeiro, se adaptasse a uma nova forma de vida) motiva a criação de elos, de relações sociais, em outras palavras era o samba a única ligação que estava profundamente presente na vida dos participantes da escola de samba antes da remoção e é ele que gera, cria uma identificação com a Nova Holanda.

Fui responsável pela pesquisa musical do documentário e no que foi possível tentei chamar a atenção para um ambiente sonoro que é muito peculiar, e, através dos sons desse ambiente ler o que é de fato a Nova Holanda. Todos nós, participantes do projeto, éramos visto por todo como membros do CEASM, mas na verdade somente eu e Marilene ainda possuíamos vínculo direto com a Maré. Acompanhei nessa condição todo o processo de construção do carnaval de 2005, aos poucos fui me deixando seduzir pela prática do samba e estreitando os laços com a mesma.

A pesquisa enfocou os sambas do bloco, e hoje, analisando os fatos sob outra ótica, percebo que havia, e o que me parece que ainda há, um medo de que os sambas caíssem no esquecimento, visto que, segundo a análise de alguns membros da escola, o confronto entre facções criminosas e a falta de segurança, juntamente com a explosão do funk, fizeram diminuir muito a quantidade de jovens que participam efetivamente da escola de samba.

Com a minha aproximação e o estreitamento dos laços a pesquisa ficou mais fácil, o diálogo em torno de uma mesa de bar, geralmente o Bar do Tiã0, ao som dos sambas do bloco acompanhados por mim no cavaco e cantados por Betinho, foram tornando esse pesquisador do CEASM em membro da agremiação, a tal ponto que nos últimos dois anos desfilei na escola tocando cavaquinho, ou seja, deixei de ser só do CEASM e passei a ser

O primeiro momento no qual exerci o papel de mediador, foi durante o processo de aproximação entre o Laboratório de Etnomusicologia e o CEASM mais especificamente a Rede Memoria. O referido processo foi pautado por diversas reuniões onde 0 Laboratório de Etnomusicologia ouviu a demanda da Rede Memória, que naquele momento percebia com mais clareza o enfraquecimento das atividades sócio-culturais classificadas pela Rede Memória como folclórica.

A Folia de Reis, os blocos carnavalescos e a escola de samba pareciam enfraquecidos diante das outras atividades presentes, como os bailes funk, os shows de pagode, ou ainda ou shows de Banda ou Grupos de forro. Bem como o crescimento das religiões pentencostais e o desaparecimento dos terreiros de umbanda e candomblé também não erram vistos com bons olhos. Todas essas manifestações estariam desaparecendo, e a função da Rede Memória seria construir um acervo que possibilitasse a transmissão aos mais novos uma imagem das manifestações culturais na Maré.

O Laboratório de Etnomusicologia, preocupado com a formação de pesquisadores, e também com o acervo que poderia ser construído oferecia a possibilidade de se adotar uma metodologia diferente: o acervo era (é) importante, mas como construir o acervo é tão importante quanto ele. Para o laboratório a visão do pesquisador nativo poderia favorecer novos ângulos de visão do objeto pesquisado indicando assim a possibilidade de análises diferenciada do que se fez até o memento.

Exatamente no centro desse "furacão" estava eu, ligado ao Laboratório de Etnomusicologia, por minha participação na iniciação científica, e ligado ao CEASM pela busca intuitiva de um objeto que estivesse em sintonia com as experiências do pesquisador que estudei e que para mim serviam de indicações e caminhos que foram seguidos. O resultado das diversas reuniões foi a construção de um projeto onde as responsabilidades foram divididas entre o Laboratório de Etnomusicologia e a Rede Memória da Maré, envolvendo a formação de um grupo de jovens que se tornariam pesquisadores e caminhariam em direção à busca dos objetivos tanto do CEASM (Rede Memória da Maré), quanto do Laboratório de Etnomusicologia.

No documentário participei de um processo de mediação crítico, a idéia do documentário nasceu na Rede Memória, porém, por uma série de motivos, esta não conseguiu verba para levar o projeto adiante, então as pessoas que idealizaram o projeto, enquanto ainda estavam trabalhando na Rede Memória, ao sair levaram consigo a idéia e deram continuidade ao projeto agregando pessoas com experiência na produção de projetos para documentário

Aos olhos da coordenação da Rede Memória, isso não seria um procedimento ético adequado, porque a idéia havia nascido num contexto onde pessoas foram por ela remuneradas para se pensar o projeto. A coordenação da Rede Memória se sentiu usurpada, porque todo o processo de pesquisa exploratória, bem como alguns resultados dessa pesquisa, serviram de apoio para a argumentação do pedido de verba da equipe externa.

Já a direção do documentário buscava, mesmo que tardiamente, uma parceria por ter consciência do contexto ao qual o projeto do documentário surgiu. Cientes da importância das idéias produzidas e buscando uma forma dialógica para construir o projeto final, a direção do documentário propôs uma reunião para dialogar sobre o mesmo, e apresentá-lo à Rede Memória tentando efetivar formalmente uma parceria.

Mais uma vez, no meio do furacão estava eu, de um lado, membro da Rede Memória, pesquisador que participou de todo o processo de pesquisa que embasou o projeto, de outro lado, pesquisador convidado a participar do processo de pesquisa e extremamente interessado em aprofundar suas pesquisas para prestar pela segunda vez o concurso de seleção para o mestrado. Torci para que ao final da reunião houvesse um acordo, porém, tudo que foi dito antes e durante a reunião fez com que tal acordo fracassasse, e, mesmo sem a aprovação da direção da Rede Memória, aceitei a participar da pesquisa musical para o documentário.

Hoje confrontando o material de pesquisa fica difícil classificar os entrevistados como meros colaboradores, visto que com todos foi construída uma relação de amizade com base numa profunda admiração pelas histórias de vidas expostas tão generosamente. Essa dificuldade ocorre, principalmente, porque o pesquisador (eu) construiu uma relação, com o objeto, e com os colaboradores diferenciada daquela construída por todos os pesquisadores anteriormente estudados por ele. O contato com o Gato aproximou-me, fez-me interagir, e participar efetivamente dos ensaios, da luto do sonho desfilar na Marques de Sapucaí, ou seja, durante a pesquisa exploratória, antes de me tornar aluno do mestrado. Eu, que já me aproximara mais intensamente da Maré, fui gradativamente me aproximando ainda mais e me inserindo na agremiação. O que hoje destaco como trajetória diferenciada e considero como estratégia de pesquisa foi inconscientemente aceito, mas progressivamente questionado e refletido até os últimos momentos, e principalmente confrontado com as metodologias e práticas de outras pesquisas tomadas como referência (FELD, 1990; SEEGER 1987, 1990).

Durante todo esse tempo, mantive contato com diversos membros da agremiação, e os via, todos, como colaboradores diretos e indiretos com os quais fazia entrevistas e/ou dialogava, buscando os processos pelos quais suas vidas elou relações sociais passaram. Descobri que quase todos os membros da agremiação tiveram suas vidas ligadas Maré em função do processo de remoção das favelas da Zona Sul do Rio de Janeiro, embora as relações com o samba proviessem de outras origens.

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