Vem aí disco novo do Emicida
Em algumas horas Emicida vai lançar seu novo disco e aqui vou esboçar uma reflexão do que esperar desse trabalho e do atual momento do rap…
Vem aí disco novo do Emicida
Em algumas horas Emicida vai lançar seu novo disco e aqui vou esboçar uma reflexão do que esperar desse trabalho e do atual momento do rap, baseado numa conversa que tive com minha noiva há alguns dias, quando saiu a primeira informação que ele lançaria um disco.
Estou ressuscitando esse Medium depois de quase 7 anos porque é o espaço que tenho para escrever algo, e onde, entre 2017 e 2019, fiz textos elegendo os melhores do rap nacional, num momento onde o rap estava passando por grandes mudanças e ascensões, e esses textos sempre foram bem recebidos.
Nesse momento da minha vida também comecei a sentir a necessidade de voltar a escrever, e venho refletindo se voltaria com o Medium ou criava um Substrack (ou mantinha os dois). E enquanto não cheguei a uma conclusão, e na urgência de fazer algo antes do lançamento, por ora estou aqui novamente.
E um último ponto inicial, em 2018 (entre o período dos textos por aqui) também criei um canal no Youtube para fazer análise de discos de rap que eu gostava. Vídeos longos, provavelmente cansativos, que não tiveram tanto desempenho, mas era algo que eu gostava/gosto muito de falar sobre. Porém, nas circunstâncias da época, usei o canal também para comentar a Copa de 2018, depois o canal — que ainda existe! — virou vídeos de vlogs do período que morei na Austrália e Portugal, além de outras viagens. Embora eu esteja me empenhado para manter esse canal ativo, não me parece interessante usá-lo nesse momento para voltar a criar conteúdo sobre rap. Ainda mais com essas questões de algoritmo, nicho, público, que eu ainda estou tentando direcionar para vlogs e viagens. O que surge a ideia de talvez criar um canal novo (com o nome do quadro que eu fazia) só para voltar a ter um espaço para abordar esse tema que eu tanto amo, e talvez, quem sabe, estreia-lo com as primeiras impressões do disco assim que lançado.
Enquanto eu não tenho certeza se farei o canal. Enquanto não decido se crio um Substrack ou mantenho esse Medium ativo. Volto para esse texto, que na pior das hipóteses vira um bloco de notas público com alguns pensamentos perdidos.
Edit: o canal está no ar youtube.com/RapeatBr
Vamos ao tema:
Há algumas semanas Marina veio me falar que tinha visto em algum lugar que o Emicida iria lançar um disco. Veio me contar por obviamente conhecer meu amor por rap, e pelo Emicida ser meu rapper favorito.
Naquele momento ele tinha lançado há poucos dias a mixtape “Emicida Racional VL3 — As Aventuras de DJ Relíquia e LRX”, juntamente com DJ Nyack. Obra que conta com 5 músicas: 4 letras clássicas do Emicida sobre os instrumentais de clássicos dos Racionais. E 1 faixa onde a dinâmica se inverte: “Voz Ativa” sobre a base de “Triunfo”.
As músicas subiram ao Youtube no dia 12 de novembro de 2025. Uma semana antes, no dia 05 de novembro de 2025, no canal da Batalha da Matrix subiu o vídeo da participação do Emicida no evento, onde ele solta um freestyle emocionante.
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DJ Nyack era “Relíquia”, eu era “LRX” / e agora eu chego na Matrix
Naquele momento pensei que o homem apenas resolveu dar as graças numa das principais batalhas de SP depois de sei lá quanto tempo. Algo não corriqueiro, mas “normal”. Principalmente por estar ao lado do Jotapê, uma das maiores referências do freestyle nacional nos últimos anos, que lançou um disco alguns meses atrás onde uma das músicas se chama “Leandro Roque”, e tem a participação do próprio. Além disso, no clipe, tem um extra onde Jotapê mostra suas principais conquistas em batalhas e dizendo o quanto Emicida foi inspiração — nas batalhas e na música, e termina com o Emicida dizendo “seja bem vindo à primeira divisão”.
O que estou tentando contextualizar: Jotapê é referência nas batalhas atualmente, como Emicida já foi. Jotapê lançou um disco e Emicida participou. É inevitável uma certa correlação de como os dois são grandes referências do freestyle de gerações distantes. Os dois se aproximam pelo disco e por esse contexto. Numa dessas o Jotapê levou o Emicida até a batalha da Matrix. Emicida faz a rima lembrando os vulgos antigos seu e do Nyack, pra poder rimar com o nome da batalha. Uns dias depois Emicida resolve usar essa questão dos nomes antigos para soltar uns remixes com músicas dos Racionais, que talvez existiam desde o momento que ainda usavam os antigos nomes. Ou que fizeram sei lá quando, e quiseram postar agora. Ok, essa é a história.
Com a informação de “Emicida vai lançar um disco” ficou a dúvida se era essa mixtape que tinha acabado de sair, ou se além disso teria realmente um DISCO NOVO.
Teoricamente sim. Não lembro a informação exata para citar aqui, mas em algum podcast entrevistando o Nave, produtor musical, ele deu a entender (bem superficialmente) que estava trabalhando num disco com Emicida. Mas isso já fazia muito tempo. Talvez mais de um ano. Mas cruzando isso com o fato que o último disco já fazem 6 anos, já “estava na hora” de realmente sair algo novo.
Mas no mundo da música nada é certo. Há algum tempo temos a informação que os Racionais estavam trabalhando num disco novo também. Informações cravaram que sairia no final de 2024. Depois boatos que ficou para o final de 2025. E se não saiu até agora (e com o lançamento do Emicida) será que ficou para o final de 2026, ou sai antes?
Enfim, estava na hora do zica voltar, e a dúvida durou pouco. Um ou dois dias depois ele postou:

Seria um um disco novo, para além daquela mixtape. Mas teríamos novamente alguma referência com o trabalho dos Racionais. (E mais, se saiu o VL3, e esse será o VL2, já podemos esperar pelo VL 1 — só não sei quando)
Depois disso, vieram outros acontecimentos, que junto com a participação na batalha da Matrix, foi nos dando um contexto desse trabalho e do que podemos esperar desse retorno de quem sempre esteve por aí.
Emicida foi na Batalha da Aldeia uma semana depois. Maior e mais importante batalha do Brasil. E do mesmo jeito que aconteceu na Matrix ele fez uma rima impactante. Virou corte. Circulou por aí. Marina Santa Helena repostando várias vezes (assim como fez com a da Matrix) e o Emicida também. Um comportamento no Instagram que eles normalmente não tem. Logo ficou claro que desde a primeira participação não foi algo aleatório. Já estava preparando o terreno. Assim como citar “DJ Relíquia e LRX”. E o lançamento da mixtape na sequência.
E vou além: Em Outubro a rapper Stefanie lançou a música (e um álbum foda) “MAAT”, com paticipações de Rashid, Kamau, Rincon Sapiência, e claro, Emicida. Ele termina seu versão dizendo:
Do mainstream pro underground (é sério?) Nóis tem que fazer tudo nessa porra?
É isso!
Emicida vem com um trabalho mais “underground” (dentro da possibilidade, considerando um dos rappers mais famosos e bem sucedidos de todos os tempos).
A mixtape lançada já foi esse passo. Nada mais underground que pegar suas rimas e colocar nas bases de outro. Ainda mais quando essas bases são do maior grupo de rap do país. O que todo moleque novato faz (ou fazia?), e que mercadologicamente, é algo errado, amador, impróprio.
O fato dele voltar a aparecer nas batalhas para criar o ambiente e o hype para seus lançamentos. Onde o Emicida nasceu. Onde o rap nasce, muitas vezes. E podemos estender até sua participação na música do Jotapê, que se relaciona com as batalhas e ele diz:
Quem descobriu nosso Brasil? Pedro Paulo! Mais Cocão, KL Jay e Ice Blue
Citar Racionais é praxe, eu sei. Mas analisando todo o contexto que antecede o disco, não existe ponto sem nó. Ele já estava trabalhando, sabia o que estava por vir.
Nos últimos dias mais algumas informações foram aparecendo, além de entrevistas dada pelo rapper, onde ele diz: Tem coisa (o disco) que só um fã é capaz de fazer.
Esse disco vem pra ser uma versão de “Cores e Valores” dos Racionais, disco lançado em 2014. Versão, extensão, releitura. Ainda não sei ao certo qual o melhor nome, mas ele se relaciona diretamente com o álbum citado. E como dito: é o trabalho de um fã usando as músicas de seus ídolos para fazer suas próprias músicas. Uma ideia underground. A essência do rap. Mas claro, não é qualquer fã. É o Emicida. E por isso pode. E por isso, ao mesmo tempo, não tão underground assim.
Das últimas informações divulgadas antes do lançamento, são os nomes das faixas. E além de recriar diretamente alguns dos nomes das faixas do disco dos Racionais, deixando ainda mais claro essa adaptação da obra original, os nomes longos e com erros ortográficos próprios da cultura de rua coloca mais um pézinho nessa ideia de É UNDERGROUND MEMO!
“Preto zica”, dos Racionais, virou “US MEMO PRETO ZICA”. “A praça”, virou “A MEMA PRAÇA?”. Além dos tradicionais nomes gigantes que Emicida já usava nos seus primeiros discos, como por exemplo a última faixa: “A PRÓXIMA MENSAGEM QUE VOCE PRECISA ESTÁ EXATAMENTE ONDE VOCÊ ESTÁ”.
Concluindo: Na sua primeira mixtape, na musica “INTRO”, ele diz:
É necessário voltar ao começo Quando os caminhos se confundem / é necessário voltar ao começo Não sabe pra onde ir? Tem que voltar pro começo Pra não perder o rumo, não pode esquecer do começo
E no verso que precede esse “refrão” ele diz que seguimos nos tempos difíceis que Edi Rock cantou.
Na música de abertura do seu primeiro trabalho ele cita Racionais e diz que é necessário voltar ao começo. Mais de 15 anos depois ele volta ao começo usando Racionais. E digo começo com essa ideia de usar uma outra obra pra fazer a sua. Começo por homenagear seus ídolos de infância. Começo por, ao que parece, usar de uma estética mais simples para fazer rap. Diferente do que foi o disco Amarelo. Não musicalmente, talvez. Mas como conceito.
E acredito que isso ditará a tendência da cena a curto e médio prazo.
Acho que estamos testemunhando um fechamento de ciclo do momento atual, e “voltando ao início”.
Nos últimos tempos o rap se relacionou, se dividiu, e de certa forma até perdeu espaço para o trap. Musicalmente falando, mas principalmente no conceito, e life style dos artistas que emergiram nesse período. E acho que nessa nova volta do ciclo algumas coisas mais “clássicas” devem ganhar força. Principalmente com o que parece ser a estética desse novo trabalho. Ainda mais se Racionais realmente soltarem um novo disco em breve. Entre outros tópicos saturados que tendem a dar espaço para o novo, e que de certa forma é o antigo, nesses ciclos que volta e meia se completam.
Já há algum tempo os fãs mais radicais clamam pela volta do “Emicida do velho testamento”. Sinceramente isso é impossível, porque ele é um artista muito mais completo, e porque ali ele rimava por comida — as vezes literalmente. Mas, ao que tudo indica, esse disco é o mais próximo que vamos ter disso.
O zica voltou!
메타데이터
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