Um GPS errado e um saco de pães
Lemense.
Um GPS errado e um saco de pães

Lemense.
Este termo sempre me despertou uma antipatia natural. Não, eles não fizeram nada que me marcasse negativamente. Nem lembro a última vez que os tinha assistido. Mas é o time da cidade vizinha. O rival do CAP, o Pirassununguense. Tem jogo contra o Lemense? É clássico e pronto. A gente aprende a desgostar de um rival sem precisar de um motivo aparente.
Pois bem, desembarquei em Leme no dia de um jogo decisivo. Enquanto o meu CAP torna-se uma vaga lembrança e amarga portas fechadas, o Lemense recebeu uma injeção financeira, saiu da quarta para segunda divisão e contratou medalhões famosos.
A expectativa para o grande dia era natural. Se ganhar, o time poderia se classificar para a fase seguinte. Se perder, tchau ano. O estádio vai ferver, pensei. O presidente convocou a população em tom de desabafo pelas redes. E eu, ali, de penetra, secando. Ou torcendo? Melhor ir camuflado, neutro.
Fui. Não tinha ideia de onde era o estádio. Tinha visto no Maps na véspera, não tem erro. Da rodoviária, subi uma rua que não tinha fim. No caminho, um sábado pacato comum. Casas abertas, gente lavando a calçada, TV passando Geraldo Luís, festa infantil, senhores em um carteado nervoso no boteco e cachorros apostando corrida.
Bola, gol, tinha também. Duas crianças: uma chuta, outra defende em um campão aberto. Nada de Lemense. Nem um vestígio de alguém de azul, cor do clube. Deve estar todos no estádio, claro. Ou pegaram outro caminho que desconheço. Tá chegando, mostra o Maps.
40 minutos depois, avisto com alívio: um estádio nas cores azuis ao fundo.
Ufa.
Chego extenuado pelo calor senegalês do caminho. Às 14h31, olho para o estádio, para a avenida, para os lados e descubro estar sozinho. Cadê todos? Abro o Google: estou no estádio Eugenio Dellai. Não acredito. O estádio do Lemense se chama, na verdade, Bruno Lazzarini. Do outro lado da cidade. Obrigado, Maps.
Faltam 29 minutos para a partida começar, mas não tenho pernas sequer para metade do retorno. Uber? Vamos. Cristiane, a motorista. Demorou um bocado. “Tô a caminho”, chegou a mensagem dela, depois de eu quase desistir. Chegou, e ela me fez passar exatamente em frente a rodoviária para mostrar que o estádio era perto do meu ponto de partida.
Cristiane me deixa na porta. Dali, não entro no estádio, mas numa imensidão azul. Um mar vibrante, alucinante, contagiante. Mal coloco os pés na entrada e… Gol. Gol? Sim, do camisa 9, avisa o locutor. Um homem ergue os braços à minha frente. Outros gritam efusivamente na rua. Vibro?, surge a dúvida. De pensar, o gol saiu, eu não vi, mas deu tempo de ver a organizada sacudir a arquibancada.
— Quem fez o gol?, pergunta um senhor ao meu lado, ainda fora do estádio. Não sei, respondo. Ele engata no papo e começa a listar os tropeços recentes do Lemense. Aquelas derrotas pro Oeste, pra Portuguesa Santista, pro XV de Piracicaba doeram. Vacilou, digo, fingindo estar ciente de qualquer resultado passado.
Quem se aproxima do senhor, batata, é fisgado para cornetar o time da cidade. O papo se estende e, quando percebo, estamos solitários na entrada do estádio. Compro o meu ingresso e pergunto se ele não irá entrar. Ele conta que iria ganhar um ingresso de um conhecido, que nunca apareceu. Ele não fala, mas ficou evidente: ele não tinha nenhum cascalho para entrar. Vem, pago o ingresso pra você. E entramos, eu e ele.
Antes de subirmos na arquibancada, ele encontra conhecidos no bar. São do boteco do Giuliano, você conhece?, ele me pergunta. Claro que sei, afirmo com uma precisão digna de alguém que nem sabia onde o estádio ficava.
Ao longo dos passos, ele revela que se chama Agnaldo e que era nada menos do que a sua primeira vez vendo o Lemense no estádio.
Sem camisa (estava estirada no ombro), de bermuda jeans, com chinelão e ostentando uma barriga saliente, Agnaldo aparentava estar chegando no churrasco do quintal de sua casa. Para completar, usava óculos escuros e um chapéu estilo Seu Madruga na cor azul fosforescente.
Na mão, uma máscara do Palmeiras e um saco de pães que tinha comprado para a sua mãe. Na boca, o Lemense, que jogava contra o Linense, virou um Limense e eu embarquei com o Agnaldo que o Limense estava sofrível de se ver.

Não vai contar do jogo?, talvez tenha se perguntado. Vou, sim. Lemense fez um gol, Linense buscou o empate, mas ambos esbarraram em um problema: a bola. Não é um objeto que nenhum dos 21 jogadores em campo tenha certa proximidade. Fora o camisa 8 do Linense, que esbanjava categoria e segurança, um novo Casemiro. Descobri o seu nome depois: Paixão. Não é para menos, afinal.
Durante o intervalo, uma pausa: descubro que o Lemense não dependia apenas de si para se classificar. Precisava que o XV de Piracicaba não deixasse o Primavera ganhar. Naquele momento, o placar estava em 0x0 em Piracicaba e garantia o Lemense na próxima fase.
Entre o cheiro de cigarro aqui, uma cerveja passando ali, um conhecido encontrando outro, Agnaldo contou um tiquinho sobre ele. Desempregado, ele faz bicos esporádicos panfletando numa loja da cidade e fatura R$ 140 por dia, além de não ter completado os estudos, parando na sétima série. Aos 53 anos, já fez um pouco de tudo.
O mais curioso é que ele carregava um celular Samsung vermelho, daqueles antigos de abre-e-fecha. Ele não parava de olhar para o aparelho. O motivo: estava estranhando que a sua mãe não tinha ligado, visto que ele tinha saído para comprar os pães e não voltou.
Bola rolou e o segundo tempo marcou, mesmo, pelo Agnaldo abrir um sorriso e se divertir ao ouvir os impropérios ao juiz, como “corno” e “chifrudo”. Descobrimos, também, que Hernane, o Brocador, que estava no Lemense e tinha sido dispensado naquela semana, tinha uma camisa autografada na loja sendo vendida por absurdos R$ 300.
Dentro de campo, nada digno de nota. Fora dele, temos: gol do Primavera, XV não segurou. Ou seja: Lemense, mesmo vencendo com o magro 1x0, estava caindo fora.
O tempo corria, Agnaldo mostrava estar agradecido de estar ali, apesar de querer saltar do estádio o quanto antes. Pães, o problema. Confere o celular, fecha o celular, esperando a ligação da mãe que não veio. A curtição virou preocupação. Para colaborar, o árbitro deu seis minutos de acréscimos.
Mas não era só o meu companheiro que estava angustiado. A organizada, conhecida como “ Os Persistentes”, puxou o coro nos minutos finais e foi murchando. Ao nosso redor, muitos com olhos fixados nas telas dos celulares esperando um milagre do XV, lá em Piracicaba. Zero tinha que virar um no placar antes que surgisse a mensagem: jogo encerrado.

Celular na mão à espera do milagre em Piracicaba.
Jogo encerrado em Leme, vitória do Lemense. Não bastava. E não bastou. “XV perdeu”, ouvi do meu lado. “Não deu”, falou outro. Jogadores do Lemense ficaram em campo esperando a notícia, que chegou. Ao menos, houve um bonito momento de reconhecimento da torcida aplaudindo o time.
Já Agnaldo não quis saber de aplauso algum. Sebo nas canelas pois o pão tinha que ser entregue. Se bobear, fomos um dos primeiros a sair do estádio. Bem que você falou, fui pé-quente, disse ele para mim, ao citar que o Lemense ganhou logo em sua estreia como espectador.
E ele não deixou passar: ligou a corneta novamente e relembrou os tropeços anteriores que causaram a eliminação do Lemense - desculpa, do Limense. O caminho (encontrei a rodoviária!) não deixou que tivéssemos mais tanto tempo, além de um aperto de mão e um até logo, quem sabe nos vemos em julho, quando o clube voltar a jogar.
No fim, a companhia de Agnaldo me fez esquecer que estava em campo rival.
Bastou encontrar um senhor carregando um saco de pães para me lembrar de algo tão precioso: só o futebol proporciona encontros inexplicáveis. Nos une. Para cornetar, para comemorar, para viver.
Obrigado, Agnaldo. E desculpa pelos pães murchos.
메타데이터
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- 2026-07-27 05:39:41