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reciprocidade: o coração do amor

Autoria de Gabriel Lopes Garcia

Instituto de Difusão Espírita (Juiz de Fora-MG) · 2023-01-15 16:41 · 0 claps · 5.2 min read
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reciprocidade: o coração do amor

Autoria de Gabriel Lopes Garcia

Durante a maior parte de nossa vida, não fomos guiados no caminho do amor, geralmente não saberemos como começar a amar, o que deveríamos fazer e como deveríamos agir. Embora o amor nos permita adentrar o paraíso, muitos somos incapazes de cruzar o portal.

Eis o argumento central que bell hooks desenvolve no capítulo 9 de seu livro Tudo sobre o amor: novas perspectivas.

É o meu décimo-primeiro artigo fazendo comentários sobre essa obra.

Síndrome de Peter Pan

bell hooks mais uma vez parte de suas vivências para construir sua argumentação. Neste caso ela se lembra do legado de sua infância, as dificuldades com o pai e de como isso refletiu em suas escolhas de parceiros amorosos na vida adulta.

Em particular ela faz uma análise do comportamento médio do homem nas relações afetivo-sexuais. No seu entendimento, há um fenômeno social e psicológico das características atribuídas aos gêneros, que infantiliza o masculino e sobrecarrega emocionalmente o feminino. Em tempos de mudanças e questionamentos, ela percebe um aspecto crucial:

Como muito homens progressistas na era do feminismo, ele acreditava que as mulheres deveriam ter acesso igualitário a empregos e receber salários iguais aos dos homens, mas, quando se tratava das questões domésticas e do coração, ele ainda acreditava que o cuidado era papel da mulher.

Essa infantilização é percebida, por exemplo, no tratamento de “meninos” dado a homens adultos, especialmente quando cometem erros. Além disso, alguns homens assumem uma imagem e um discurso algo popular, um estilo “desconstruído”, ou, usando um termo jocoso, do “esquerdo-macho”. É o sujeito que faz qualquer coisa pela luta feminista, menos deixar de ter privilégios por ser homem.

A autora entende que o avanço das pautas feministas pressionou o homem entre dois modelos: machão (clássico) ou menino (fuga das responsabilidades). Isso porque ainda não construímos uma sociedade com homens e mulheres livres que se relacionem em bases de amor mútuo.

Ao ler a análise de hooks, fiquei a pensar em termos da filosofia espírita sobre o compromisso que temos, ao encarnar, de progredir espiritualmente. A questão de gênero é um tópico importante nesse objetivo. Estou convencido de que devemos fazer esforços de novas vivências e concepções, tomando como valor fundamental o respeito, a igualdade dos direitos sociais e a justa distribuição dos deveres (afetivos, domésticos, familiares etc).

Luta pelo poder

A autora faz uma abordagem inédita para mim. Embora perceba isso ao observar minhas relações, foi lendo este capítulo que comecei a “juntar os pontos”. Nunca tinha pensado que a luta pelo poder fosse tão relevante nas relações íntimas. hooks argumenta assim:

No universo de gênero Marte-e-Vênus, homens querem poder e mulheres querem apego emocional e conexão. Ninguém deste planeta realmente tem oportunidade de conhecer o amor, uma vez que é o poder, não o amor, que está na ordem do dia. O privilégio do poder está no coração do pensamento patriarcal.

Ela explica que o modelo de masculinidade está intrinsecamente associado à dominância, e que muitos homens, embora defendam publicamente a igualdade de gênero, na esfera privada ainda querem uma mulher que cuide de todas as suas necessidades. Nesse contexto, mulheres e homens crescem na ideia de que amar é menos importante do que ter poder e controle sobre o outro. Em muitos relacionamentos a dinâmica central é a luta pelo poder, que coexiste com afeição e ternura.

A autora propõe que a satisfação e o crescimento mútuos devam ser o fundamento mais importante de uma relação a dois. Mas ela chama atenção que, para as pessoas acostumadas no modelo da disputa constante, “é possível que esse alguém só compreenda e acredite em dinâmicas de poder, nas quais um precisa estar em cima e o outro, embaixo, em uma luta sadomasoquista por dominação”.

Racionando em termos reencarnatórios, observamos que trazemos também as inclinações do passado multissecular. Nas reencarnações pretéritas nós revezamos experiências em corpos de homem e em corpo de mulher. Vivemos ambas condições e acumulamos bagagens, algumas saudáveis, outras conturbadas. Portanto, refletir criticamente hoje sobre a questão de gênero, conecta nossa presente melhoria individual e coletiva, repara equívocos do passado e ensaia um futuro mais harmônico.

Literatura de autoajuda

bell hooks adverte que muitos livros populares geralmente normalizam o machismo, pois ensinam ardis femininos para o jogo do poder, associados à manipulação e à coerção. Embora o pensamento patriarcal encoraje a mulher a ser amorosa, não significa que seja melhor equipada emocionalmente do que o homem.

Esses livros validam as ideias machistas e antiquadas em torno da diferença sexual e estimulam as mulheres a acreditarem que nenhum relacionamento entre um homem e uma mulher pode ser baseado em respeito mútuo, franqueza e carinho.

Esse tipo de obra ajuda a sustentar o comportamento aprendido da dominação masculina, ignorando os valores políticos dessas diferenças entre gêneros. A mulher deve aprender a aceitar que naturalmente um homem se recusa ou não sabe se expressar emocionalmente. E bell hooks faz um apontamento super importante de como evocações místicas (do new age ao yin e yang) fazem malabarismos para justificar estereótipos machistas em uma embalagem mais sedutora.

Percebemos procedimentos semelhantes nos discursos espíritas em palestras e livros. Vários autores, médiuns e Espíritos usam de palavras melífluas e distorcem conceitos espíritas para reforçar o caráter passivo e sentimental da mulher. Muitos inventam até conceitos tentando dar validade para os absurdos que defendem: neste rol tem psiquismo feminino e masculino, tem a mulher-mãe-virtuosa não importa a desgraça que lhe aconteça etc. E muitos (na maioria homens brancos e velhos) defendem explicitamente a submissão da mulher e sua vocação espiritual para as “sublimes atividades do lar”.

A tal da reciprocidade

hooks finalmente aborda a reciprocidade, partindo mais uma vez da análise de comportamentos nas relações. Em geral, temos Ânsia pelo amor e acabamos permitindo que cruzem o território da nossa dignidade pessoal. Em particular nas mulheres por conta da cultura patriarcal machista.

O respeito que uma mulher exige e mantém numa relação entre mãe e filho/a não é considerado importante em vínculos entre adultos caso exigir respeito de um homem interfira em seu desejo de conseguir e manter um companheiro.

Segundo bell hooks, escolher agir com honestidade é o primeiro passo para o amor, e a primeira responsabilidade do amor é ouvir. E se de fato estamos comprometidos em fazer o trabalho do amor, nós escutamos até quando nos dói. Esse alerta que ela faz é mega importante, pois alimentamos falsas noções de que não sentiremos dor no território do amor ou que estaremos em constante estado de êxtase. Nada mais longe da realidade. É um caminho comum romper vínculos nas primeiras dificuldades e evitar envolvimento mais profundo para se proteger de possíveis dores.

A autora remete à capacidade para distinguir o sofrimento construtivo da dor autoindulgente. O Espiritismo contribui muito neste aspecto, pois trata das causas das aflições humanas. Na perspectiva espírita, nós somos grandes causadores de sofrimento porque escolhemos errado e insistimos na opção. É preciso assumir a responsabilidade afetiva para progredir e estar em paz, construindo relacionamentos saudáveis.

E a cura disso tudo, segundo hooks, tem a ver com doar. Ela escreve magistralmente:

Ao darmos uns aos outros, aprendemos a experimentar a reciprocidade. Para curar a guerra entre os gêneros baseada em lutas por poder, mulheres e homens escolhem fazer da reciprocidade a base de seus vínculos, garantindo que o crescimento de cada pessoa seja importante e seja estimulado. Isso aprimora nossa capacidade de conhecer a alegria.

Eu desconfio que bell era espírita sem o saber…

Referência

Tudo sobre o amor: novas perspectivas. Autora: bell hooks. Editora: Elefante.


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