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Genealogia de um Ressentimento

As opiniões, interpretações e conclusões apresentadas neste ensaio são de responsabilidade exclusiva de seu autor e não exprimem o…

LAESP · 2026-07-22 18:00 · 0 claps · 12.7 min read
#philosophy #sociology #gender-studies #contemporary-society #social-analysis
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Genealogia de um Ressentimento

As opiniões, interpretações e conclusões apresentadas neste ensaio são de responsabilidade exclusiva de seu autor e não exprimem o posicionamento institucional da LAESP, nem de seus diretores ou membros.

Um ressentimento não nasce ressentimento. É a primeira lição de toda genealogia digna do nome: aquilo que hoje se apresenta como natureza — um rancor que se julga tão antigo quanto o mundo e tão óbvio quanto a gravidade — teve, em algum momento, uma data de fabricação. Nietzsche ensinou a desconfiar precisamente dos sentimentos que se dizem eternos, a procurar a oficina onde foram forjados e a perguntar a quem aproveitam. É o que proponho fazer com o ódio masculinista às mulheres: não refutá-lo, porque refutar um sintoma é perda de tempo, mas reconstituir-lhe a linhagem — do berço à bancada de venda — e demonstrar que ele não responde a nada que as mulheres tenham feito. É um produto. E todo produto tem matéria-prima, processo de fabricação, e quem lucre.

A matéria-prima é banal, e é aí a primeira surpresa: na origem de tudo não há monstros, há um sentimento comum, quase universal e em si mesmo inocente — a insegurança masculina. O medo de não ser desejado, de não bastar, de ser pesado na balança e achado leve. Todo adolescente o conhece; a maioria dos homens adultos ainda o carrega em surdina. Não há nada de vergonhoso nisso, e convém dizê-lo logo, porque um diagnóstico que despreza o paciente erra a doença. Noreena Hertz reuniu a evidência de que essa insegurança, antes corrigida no atrito cotidiano com os outros, hoje apodrece no isolamento de um século atomizado: uma economia que trocou o vínculo pela transação, uma técnica que oferece contiguidade no lugar de presença. O resultado é uma insegurança sem espelho — que já não se mede contra a realidade de outras pessoas e por isso cresce no escuro, sem limite e sem correção.

Mas insegurança sempre houve, e nem sempre deu nisto. Para entender por que dá agora, é preciso olhar o que mudou sob os pés desses homens — e o que mudou foi o chão inteiro. Ao longo do século XX, e de modo irreversível nas últimas décadas, as mulheres se emanciparam: a contracepção, o trabalho assalariado, a independência econômica, o divórcio, a universidade. Simone de Beauvoir já desmontara, em 1949, a ficção de uma “natureza feminina” eterna, mostrando que não se nasce mulher — torna-se — , que a mulher fora historicamente construída como o Outro, o sexo inessencial definido por relação ao homem. A emancipação foi a recusa material dessa construção. E ela teve uma consequência que parece pequena e é sísmica: a mulher passou a poder escolher. Eva Illouz descreveu como, no capitalismo tardio, o amor se tornou um mercado e, dentro dele, as mulheres adquiriram pela primeira vez a posição de escolher mais, e melhor, e de partir quando quisessem.

Aqui está o gatilho de toda a genealogia, e convém enunciá-lo sem rodeio. No arranjo antigo, mesmo o homem inseguro e medíocre tinha o casamento praticamente garantido: a dependência econômica da mulher, a pressão social, a ausência de alternativas faziam dele um destino, não uma escolha. A emancipação acabou com a garantia. Pela primeira vez o homem precisa ser escolhido, num mercado real de desejo recíproco, por alguém que tem opções e pode ir embora. Para a maioria, isto é apenas a chegada de uma justiça antiga. Para o homem inseguro, registra-se como cataclismo — a perda de um privilégio que ele confundia com um direito. O ressentimento masculinista é, na sua raiz estrutural, a birra de uma entitulação destronada: a reação de quem foi rebaixado de destino a candidato e não suporta a concorrência. Guarde-se a observação, porque mais adiante o próprio movimento dirá isto com todas as letras.

A matéria-prima e o gatilho, porém, ainda não são ressentimento. A insegurança ferida pela liberdade alheia poderia dar em mil coisas — em esforço, em maturação, em luto e recomeço. Vira ódio organizado apenas quando é processada. E há um lugar onde se processa.

A oficina tem endereço e tem data. A primeira mão de obra foram os “artistas da sedução” dos anos 1990 e 2000 — Ross Jeffries, depois o The Game de Neil Strauss (2005) — , que comercializaram a ferida pioneiramente, vendendo manuais de cantada e a técnica do negging, o elogio envenenado que rebaixa a autoestima da mulher para abri-la à abordagem. Em paralelo, e por uma ironia que vale toda a tese, foi uma mulher quem cunhou a palavra mais sombria do dialeto: em 1997, uma estudante canadense conhecida só por Alana abriu um fórum de acolhimento para gente de qualquer gênero atormentada pela solidão, e inventou incel — celibatário involuntário — como quem oferece abrigo. Por volta de 2000 ela saiu, a própria vida amorosa tendo melhorado, e deixou as chaves a estranhos. A biografia dessa palavra sequestrada é a do movimento inteiro em miniatura: um gesto de cuidado capturado, esvaziado e reforjado em arma.

O resto cresceu depressa. O 4chan, fundado em 2003, ofereceu o reagente que faltava: o anonimato absoluto, onde se podia dizer o indizível sem rosto e sem conta. Por volta de 2009 consolidou-se o termo “manosfera” e a sua constelação de blogs masculinistas e de “direitos dos homens”; surgiram Roosh V e o blog Return of Kings (2012), pregando uma “neomasculinidade”. E em 2012 nasceu o santuário central, o subreddit r/TheRedPill, que tomou o nome de uma cena de Matrix — engolir a pílula vermelha seria “acordar” para a verdadeira natureza das mulheres. Aqui o detalhe é cirúrgico e devastador: esse fórum, que se vendia como o despertar viril para a realidade, foi fundado e moderado, sob os pseudônimos pk_atheist e redpillschool, por Robert Fisher, um deputado estadual republicano de New Hampshire — que negou tudo, mentiu sob juramento e renunciou ao cargo em 2017, quando o Daily Beast o desmascarou. O apóstolo do “real” era um homem que escondia a própria identidade. E a tese que seu fórum professava merece ser citada, porque é a confissão que prometi: que as mulheres têm a vida mais fácil que os homens porque podem escolher e selecionar seus parceiros. Ali está, nomeada pela própria seita, a causa de tudo — a liberdade de escolha que a emancipação deu às mulheres. O ressentimento não se esconde; ele se queixa, em alto e bom som, exatamente daquilo que esta genealogia apontou como gatilho.

Dali ramificaram-se os MGTOW, que prometiam “seguir o próprio caminho” e desembocavam invariavelmente num fórum sobre mulheres; os fóruns incel; e o blackpill, o niilismo biológico de quem decretou que tudo está decidido pela geometria de um crânio. Em 2014 o ódio aprendeu a se coordenar, no Gamergate, e ganhou seus mártires: Elliot Rodger, que matou seis pessoas em Isla Vista naquele maio, e o atropelamento de Toronto, em 2018, anunciado por uma saudação à “Rebelião Incel”. O que era murmúrio de quarto virou movimento com calendário de massacres.

Nada disso teria a escala que tem sem a peça que faltava: a internet como portal de impunidade. Pierre Lévy sonhara o ciberespaço como o útero de uma inteligência coletiva, um saber que correria em rede como sangue novo, libertado pela ausência de hierarquia. A manosfera é a prova negativa do teorema — a mesma arquitetura abrigando, com idêntica eficiência, uma idiotia coletiva, uma destilaria de rancor onde milhares de homens emprestam uns aos outros as palavras exatas para não ter de olhar para dentro. O anonimato que Lévy esperava que libertasse o conhecimento libertou, antes, o pior: o que não se diz no balcão de um bar diz-se sob pseudônimo, e ali é aplaudido com votos positivos. E as plataformas, longe de conter a destilação, lucraram com ela: a economia da atenção premia o que indigna, e os algoritmos do YouTube e do TikTok se tornaram esteiras de radicalização que entregam o ódio a meninos antes mesmo de eles o procurarem. A moderação chegou sempre tarde e a contragosto — o Reddit só baniu o fórum incel em 2017 e pôs o r/TheRedPill em quarentena em 2018, anos depois do estrago; Andrew Tate, banido das grandes redes em 2022, multiplicou-se em milhares de contas de recortes que o repuseram diante de adolescentes no dia seguinte. A omissão não é descuido: é o modelo de negócio. Engajamento é a moeda, e o ódio engaja.

Sloterdijk daria o nome dessa arquitetura. Cada fórum, cada feed, é uma bolha — um interior climatizado onde o ar é morno e a verdade é sempre a mesma, uma membrana de imunização contra o aberto. E a sociedade tardia, dizia ele, é espuma: uma aglomeração de incontáveis bolhas justapostas, vizinhas e contudo isoladas, tocando-se sem nunca se comunicarem. A manosfera é o espécime mais puro dessa espuma — milhões de homens em microbolhas idênticas, cada um convencido de estar acordado, todos a sonhar lado a lado o mesmo sonho de soberania, e o algoritmo a soldar a membrana de cada um.

O que essa oficina fabrica, antes de qualquer doutrina, é uma língua — e é na língua que se flagra o ressentimento enquanto é montado, parafuso a parafuso, porque cada termo do dialeto executa sempre a mesma operação secreta: transferir a causa da dor de dentro para fora. Hipergamia, palavra surrupiada da sociologia, é promovida a lei imutável da natureza feminina; sua função é dissolver o sujeito — onde havia “ela não me quis”, frase que ainda contém um eu examinável e corrigível, instala-se “as mulheres são programadas para trair para cima”, e não há mais insegurança a interrogar, há uma lei a odiar. Chad e Stacy convertem indivíduos num sistema de castas que explica tudo e, ao explicar tudo, dispensa de tentar — pois se está tudo no gene, para que esforço? O fatalismo é, antes de mais nada, um atestado de licença para a paralisia. Valor de mercado sexual, body count, value importam o vocabulário do pregão para dentro do desejo e transformam pessoas em preços. Frame, looksmaxxing: a gramática do gestor, o eu como startup, o encontro como negociação a vencer. Termo a termo, a língua faz uma só coisa, e a faz bem: recolhe “tenho medo de não bastar” e devolve “as mulheres são o problema”. É uma máquina de externalização. Foi nesse ponto, e só nesse ponto, que o minério bruto da insegurança virou outra coisa.

A outra coisa tem nome, e Nietzsche já o havia dado. O homem do ressentimento, diz a Genealogia da Moral, é aquele cujo gesto fundador é a reação: incapaz da afirmação, começa pela negação do que está fora e é desse “não” que extrai um simulacro de identidade. A moral dos escravos nasce, escreve Nietzsche, quando o ressentimento se torna criador e pare valores — quando o fraco, impedido da vingança real, que exigiria força, se contenta com a vingança imaginária e a santifica. É a descrição literal do que se fabricou na oficina. O masculinismo é uma revolta de escravos que se imagina moral de senhores: ergue um sistema de valores — virilidade, domínio, “alfa” — cuja única função real é permitir que o impotente se sinta soberano sem deixar de ser impotente. Max Scheler chamaria a operação pelo nome técnico: falsificação da tábua de valores. A raposa que não alcança as uvas decreta, com longa argumentação, que estão azedas; o homem que não foi escolhido decreta que não havia nada digno de escolher.

E aqui está o ponto que toda a genealogia vinha preparando, e que convém cravar sem rodeio: o ressentimento contra as mulheres não é causado por mulheres. É o produto terminal de um processo que principiou na insegurança, foi detonado pela liberdade feminina e atravessou a oficina da língua. A mulher concreta quase não comparece; o que comparece é uma tela, sobre a qual se projeta um veredito que, lido de perto, é sempre sobre o próprio homem. Ele não odeia uma pessoa. Odeia o espelho que uma pessoa, ao recusá-lo, por um instante lhe mostrou.

A literatura conhecia o tipo muito antes do Wi-Fi, o que basta para desautorizar a tese consoladora de que se trata de um fenômeno da internet. O homem do subsolo de Dostoiévski já era isto inteiro: hiperconsciente, incapaz de agir, lapidando humilhações, arquitetando vinganças que jamais executará, erguendo a própria paralisia à condição de superioridade espiritual. E Travis Bickle, em Taxi Driver, é a mesma figura na cidade grande — o diário insone, a certeza de que a culpa do próprio isolamento é do mundo sujo lá fora, a fantasia de redenção pela violência. Mas note-se a diferença, porque é nela que mora o retrato do homem moderno: Travis ainda comprou as armas e saiu à rua. O esquisito ressentido de hoje não precisa. A bolha lhe permite consumar o rancor inteiro na pura passividade, sem risco e sem testemunhas, deitado, confortável, para sempre. A internet tornou até a violência opcional: pode-se ser Travis Bickle sem nunca sair do apartamento. Esse é o tipo acabado — não o vingador, mas o covarde que se esconde na rede porque é cômodo, e que chama de coragem o fato de nunca ter precisado de nenhuma.

O ressentimento, sendo impotência, não se sacia — e o impotente, que não pode ser o poder, precisa ao menos contemplá-lo. Daí os ídolos. Guy Debord nos dera, em 1967, o instrumento para entendê-los: o capitalismo tardio não vende coisas, vende imagens, e a imagem é o capital acumulado a ponto de se tornar paisagem. O coach masculinista é espetáculo em estado puro — não oferece virilidade, oferece a representação da virilidade: o relógio, o carro alugado por hora para a foto, o jato fretado, o sorriso que é um cálculo. O seguidor não compra uma vida; compra a contemplação da vida de outro, e contempla justamente porque não vive a sua.

Os ídolos têm nome, e a ficha de cada um é a tese em estado bruto. Andrew Tate, ex-lutador reconvertido em guru global, banido das grandes plataformas em 2022, preso na Romênia naquele dezembro, indiciado por tráfico de pessoas, estupro e organização criminosa — acusações que nega, com cautelares revogadas em Bucareste em 2026 e mais vinte e uma à espera na Inglaterra: o homem que ensina a “vencer” as mulheres responde, em três jurisdições, exatamente pelo que faz quando vence. No Brasil, a galeria é igualmente eloquente. Thiago Schutz, o “Calvo do Campari”, coach da pílula vermelha, preso em flagrante em novembro de 2025 por espancar e tentar estuprar a namorada — um boletim de ocorrência que começou, segundo a vítima, quando ela disse não. A doutrina e a sua fatura, no mesmo documento. Breno Faria, do “Café com teu pai”, redpill com centenas de milhares de seguidores e — detalhe que Kafka teria invejado — agente da Polícia Rodoviária Federal, um homem pago pelo Estado para zelar pela segurança e denunciado ao Ministério Público por misoginia, que vende o ódio inclusive às próprias mulheres, ensinando-as a se submeter para merecer um “príncipe”. Junte-se Raiam Santos e a dezena de outros, e os canais misóginos brasileiros somam, segundo o noticiário, dezenas de milhões de inscritos. A indústria é vasta, e é rica.

Nietzsche, no Crepúsculo dos Ídolos, propôs filosofar a marteladas — tocar os ídolos com o martelo como quem usa um diapasão, para ouvir, pelo som, que são ocos por dentro. Bata-se nestes. O som que devolvem é cavo porque são fachada inteira: Judith Butler observou que não há essência alguma por trás da performance de gênero, apenas a repetição de gestos que fabrica a ilusão de uma substância — e nenhum movimento na história lhe deu razão com tanto afinco quanto este, em que o homem precisa de videoaula, de tom de voz treinado, de mandíbula esculpida e de um vídeo a explicar que beber Campari em vez de cerveja o deixa “mais masculino”. Quem possui não ensaia. O essencialismo gritado é a prova viva de que a essência não existe.

Mas o oco mais fundo é econômico, e é o que fecha o argumento. A cura que esses ídolos vendem precisa falhar. Um homem que de fato se curasse — que aprendesse a tolerar a própria insegurança, a arriscar-se, a vincular-se — deixaria de comprar. O negócio inteiro repousa sobre o não-curar; o cliente fiel é o que nunca sara. O coach é, portanto, parasita exato do ressentimento que afirma combater: precisa que o rapaz continue sozinho para seguir vendendo-lhe a companhia da revolta. Vende-se, em suma, a doença sob o nome do remédio — e o sintoma, comovido, agradece e renova a assinatura.

Resta o preço, porque toda essa engenharia tem um custo, e o custo é o próprio homem. Ao converter a mulher em inimiga ou em ativo, o ressentimento incapacita o sujeito para a única coisa que encerraria a insegurança de onde tudo partiu. Bataille definira o erotismo como a aprovação da vida até na morte, o instante em que o ser fechado se arrisca à continuidade com o outro e dissolve as próprias bordas; Byung-Chul Han mostrou que o eros exige um Outro que eu não possa reduzir ao espelho de mim, e que a cultura do espelho infinito o assassina, restando apenas a pornografia, exibição sem véu e sem alteridade. O homem da bolha é treinado precisamente para blindar-se onde deveria abrir-se: quanto mais “habilidoso” nos termos do dialeto, mais incapaz do encontro. O laço se fecha sobre si — é uma doença autoimune, em que a defesa devora o organismo que jurava proteger. Imagine-se o destino na imagem de Baudelaire, em Don Juan nos Infernos: o sedutor na barca rumo à outra margem, cercado das vítimas que gemem, e ele ao leme, apoiado no espadim, recusando-se a olhar. Não o fogo: a indiferença. É a virilidade que a esfera promete — não a que arde, a que congela.

E, no entanto, que a matéria-prima seja a mesma para todos é a prova de que o ressentimento é escolha, não destino. Houve um homem em Copenhague tomado por idêntica insegurança e idêntica melancolia, e que diante da mulher que amava também recuou. Søren Kierkegaard pediu Regine Olsen em 1840 e rompeu o noivado um ano depois; para libertá-la, encenou-se em público como um canalha, para que a culpa fosse só dele e ela pudesse partir de cabeça erguida. Da mesma ferida que hoje produz fóruns de ódio, ele extraiu trinta volumes e uma fidelidade silenciosa que durou a vida inteira; fez de Regine a musa cifrada de uma obra, e até no Diário do Sedutor, ao retratar Johannes — o sedutor que reduz o amor a método e descarta a presa no instante da posse — , sabia estar descrevendo uma perdição, não redigindo um manual. A mesma melancolia, dois destinos: um a transformou em beleza e em renúncia; o outro a vende hoje, em parcelas, como ódio. A diferença entre os dois não está no sofrimento. Está no que cada um decidiu fazer com ele.

Por isso o desprezo, aqui, não é gratuito: é a única resposta proporcional a ídolos ocos. Eles vendem como coragem o que é fuga, como despertar o que é recuo, como soberania a mais antiga das timidezes. Bastaria, para desmontá-los, o contracampo de um único plano — a Anna Karina de Godard, em technicolor, caprichosa e livre, dona de um desejo que não pede licença a homem nenhum: o eros como risco e como jogo, exatamente o que a esfera teme e por isso difama. É revelador que a mulher que escolhe — a mesma cuja liberdade detonou todo o ressentimento — seja, no fim, a única coisa que valeria a pena querer. A genealogia termina onde poderia ter começado, não fosse o medo: na suspeita de que a saída da insegurança nunca foi vencer a mulher, e sim arriscar-se diante dela — tratar a própria ferida como tarefa, e não como veredito sobre o mundo. É a única porta. E é, não por acaso, a única que os ídolos ocos mandam manter trancada.


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