Discografia comentada: MC5

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Discografia comentada: MC5
Por Marcelo Magosso
O MC5 é um dos maiores sinônimos da rebeldia e dos excessos do rock and roll. Com uma carreira meteórica e uma discografia tão pequena quanto notável, o quinteto de Detroit estará marcado para sempre na história da música como uma grande influência para todos aqueles que se atrevem a fazer da arte um canal para expressar ideias revolucionárias.
Surgido no final dos anos sessenta e empresariados pelo notório e controverso John Sinclair, o MC5 (sigla para Motor City Five) colecionou apresentações ao vivo incendiárias ao longo da carreira e também diversas polêmicas. Sua formação clássica contava com Rob Tyner nos vocais, Wayne Krame e Fred “Sonic” Smith nas guitarras, Michael Davis no baixo e Denis Thompson na bateria, e gravou três álbuns de estúdio entre 1969 e 1971, encerrando suas atividades prematuramente em 1972.
Are you ready? Brothers and Sisters?
Kick Out the Jams (1969)

Reprodução Internet
A palavra “clássico”, por mais forte que seja, ainda é pouco para descrever esta álbum. Este disco é pesado, sujo, visceral, subversivo e um espelho de seu tempo.
Gravado ao vivo, na virada do dia 30 para 31 de outubro de 1968, no Grande Ballroom, em Detroit, Kick Out The Jams é o disco de uma banda que catalizava todo o sentimento da juventude que vivia no auge da guerra do Vietnam, dos movimentos pelos direitos humanos, da liberação sexual e tudo isso era parte das perfomances e letras da banda.
O disco um inflamado discurso de Brother JC Crawford, uma espécie de guru espiritual da banda, que cria um clima apoteótico. Ele conclama: Brothers and Sisters, the time has come for each and everyone of you to decide whether you are gonna be the problem or whether you are going to be the solution, that’s right! You must choose brothers, you must choose! It takes 5 seconds, 5 seconds of decision, 5 seconds to realize your purpose here on the planet. It takes 5 seconds to realize that it’s time to move, it’s time to get down with it! Brothers, it’s time to testity and I want to know, are you ready to testity? Are you ready? I give you, a testimonial ? The MC5!!!
Daí em diante é uma tempestade sonora. A primeira música é um inusitado cover de Ramblin’ Rose, de Nat King Cole, cantado num falsete pra lá de debochado pelo guitarrista Wayne Kramer. Num dos momentos mais icônicos da história do rock, Rob Tyner introduz, aos berros de “kick out the jams, motherfuckers!” a faixa título, que não só uma das melhores do disco, mas de toda a trajetória do grupo. Come Together (não é a dos Beatles) e Sonic Reducer Nº 62 (Rama Lama Fa Fa Fa) fecham primeira metade do álbum mantendo o nível de energia altíssimo.
Como foi lançado na época do vinil, o lado B começa com outro dos destaques: a faixa Borderline. O único momento “mais calmo” vem a seguir com o blues Motor City Is Burning, com direitos a solos incendiários — perdão pelo trocadilho. A próxima música, I Want You Right Now, é tão pesada que, sem nenhum exagero, poderia ser uma canção do Black Sabbath. O disco se encerra com a viagem de 8’26" de Starship, de maneira bombástica.
Back In the USA (1970)

Reprodução Internet
Ao contrário do que hoje se pode pensar, toda a notoriedade do disco de estreia rendeu muita dor de cabeça para o grupo, inclusive a perda do contrato com a Elektra Records. O disco seguinte, lançado pela Atlantic Records, foi Back In The USA e, ainda que tenha ótimas composições, o grupo não conseguiu trazer para o ambiente de estúdio todo o peso de suas apresentações ao vivo e, comparado com o seu primeiro álbum, aqui as coisas parecem um pouco mais “comportadas”.
O disco abre com uma versão ok para Tutti Frutti, de Little Richard, que conta com ótimos solos, mas é à partir da segunda faixa, Tonight, que a coisa engrena. Com um riff sensacional e ótima interpretação de Rob Tyner, a canção é um caso de amor à primeira audição. Teenage Lust mantém o pique lá em cima, com um andamento mais acelerado. Let Me Try vem na sequência e é uma balada meio bluesy, onde o vocal mais uma vez se destaca. Looking At You vem em seguida e tem uma execução soberba por parte dos guitarristas, com riffs e solos matadores. A música High School é a próxima e tem uma levada bastante divertida, com uma letra adolescente e atmosfera bastante feliz.
Partindo para a segunda metade do disco temos Call Me Animal, onde os riffs furiosos dão as caras novamente. Vocês devem ter percebido que eu repeti diversas vezes a palavra riff nos últimos parágrafos, certo? É que eles aparecem em grande quantidade por todo o disco e, invariavelmente, são excelentes. A próxima música é também a melhor do disco na minha opinião. Amercian Ruse é um rock furioso e tem uma letra incrível, como podemos ver no trecho a seguir.
“69 America in terminal stasis The air’s so thick, it’s like drowning in molasses I’m sick and tired of paying these dues And I’m sick to my guts of the American ruse”
Shakin’ Street vem na sequência e é um rock leve, delicioso de ouvir. Em compensação The Human Being Lawnmower deixa um clima de urgência e tensão no ar que é quase palpável. Assim como no começo, a última música do disco também é um cover, desta vez a escolhida é Back In the USA, de Chuck Berry, que também é a faixa título e ganha uma ótima versão nas mãos do MC5.
High Time (1971)

Reprodução Internet
Este é o disco menos cultuado do grupo, talvez pelo fato de ter sido lançado num período em que a banda estava perto de acabar. Após o distanciamento de seu guru e empresário, o grupo chega neste álbum menos “político” do que nos anteriores. Ironicamente, eu o considero o melhor trabalho do quinteto.
O disco abre com aquela que é minha música favorita da banda, a maravilhosa Sister Anne. O riff desta faixa é espetacular e o refrão não fica atrás. São 7'23" que passam voando. Na sequência temos outra pedrada com Baby Won’t Ya. Nesta música o show é de Rob Tyner que entrega uma interpretação apaixonada e visceral. Assim como Sister Anne, esta música foi composta por Fred “Sonic” Smith e, como vocês verão ao longo do texto, as melhores músicas do disco são de sua autoria.
Miss X é o mais próximo que este disco chega de ter uma balada. Composta pelo guitarrista Wayne Kramer, a música tem uma melodia muito bonita e é bem mais calma do que as demais, mas sem soar piegas. Fechando esta primeira parte do álbum, temos uma composição do baterista Dennis Thompson, Gostaria Keep Movin’, e a máquina do MC5 volta a correr em alta velocidade, naquela que é uma das duas músicas mais curtas do disco. Aliás, este é um detalhe que chama a atenção. A maioria das faixas de High Time têm uma duração significativamente maior do que as dos discos anteriores.
Começando a segunda parte temos Future/Now com um groove surpreendente funky para os padrões da banda. Mais uma vez as guitarras se destacam, com ótimos riffs e solos. Poison vem na sequência e é uma música simples, direta e conta om um solo furioso de Wayne Kramer. Anteriormente eu havia mencionado que as melhores composições do disco eram as do guitarrista Fred “Sonic” Smith e aqui temos mais uma delas. Over And Over é uma faixa épica que começa com uma melodia suave de guitarra, cheia de reverb, passando por belas harmonias vocais, até chegar numa explosão sonora que culmina num refrão que dificilmente sairá da cabeça do ouvinte. Também cabe destacar a ótima letra que é bastante crítica e direta, conforme vocês podem ver no trecho a seguir.
“The cop on the street wants us down on our knees The president says we’ve got to have peace The other cat says we need our liberation The hippies telling us we’re in the love generation”
O disco se encerra com a caótica Skunk (Sonicly Speaking) que começa com um groove de bateria cheio de percussão, até que entram em ação as guitarras e o vocal, nesta que é uma faixa irmã de Borderline, do primeiro álbum. A música cresce de forma hipnótica até culminar em uma massa sonora com instrumentos de sopro soando de forma dissonante no final da música.
E assim termina o disco e a carreira desta banda que, junto aos Stooges e o Alice Cooper Group, colocou Detroit no mapa do rock and roll e lançou as bases do que viram a ser o hard rock, o punk e o heavy metal nos anos seguintes.
Ficou curioso? Eu recomendo muito a audição da discografia toda do grupo, mas para quem quiser ter um primeiro contato com o som do MC5, logo abaixo tem o link de uma playlist com as principais músicas do quinteto.
메타데이터
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- 2026-06-28 14:26:31