Cristo da rua
Nós fomos comunicados que mamãe sairia da UTI naquela tarde e passaria para o quarto. Como meu irmão precisava voltar para sua casa em Rio…
Cristo da rua
Photo by Cassiano Psomas on Unsplash
Nós fomos comunicados que mamãe sairia da UTI naquela tarde e passaria para o quarto. Como meu irmão precisava voltar para sua casa em Rio Preto, trocou comigo e eu fiquei acompanhando a mamãe.
As horas foram passando e a pressão arterial da mamãe não se estabilizava. A noite foi chegando devagarinho, e quando foi por volta das 21h00 a médica disse que mamãe não iria mais para o quarto, pois precisava estabilizar a pressão arterial antes.
Naquele momento ficamos entristecidos com a notícia, pois a médica disse que então eu deveria sair da UTI. Quando eu estava me despedindo da mamãe para deixar a UTI, a médica voltou e disse que a equipe havia conversado e resolveram me deixar até a meia noite.
Nossos olhos brilharam novamente e mamãe e eu começamos a rezar o terço, depois começamos uma brincadeira que eu inventei naquele momento que era de falar nomes de santos. Eu dizia o nome de um santo, mamãe dizia outro e não podíamos repetir nenhum nome ao longo da brincadeira.
À meia noite eu finalmente saí, mas confesso que muito triste, pois estava achando a mamãe muito quietinha. Como já estava tarde, pedi ajuda para voltar para casa. A pessoa bondosa que me ajudou, chegou à meia noite em ponto para me apanhar.
No intervalo entre minha saída da UTI e a chegada de minha carona, eu saí do hospital e fiquei na calçada aguardando. E foi quando um rapaz, morador de rua, que estava passando do outro lado da rua parou e ficou me olhando.
Depois de me observar por um tempo ele atravessou a rua e veio em minha direção. Ao se aproximar de mim, ele logo me alertou dizendo que não era do mal, mas de Cristo.
Em seguida estendeu a mão para me cumprimentar. Por um instante eu confesso que fiquei sem saber o que fazer, mas logo decidi retribuir e o cumprimentei fazendo encontrar nossas mãos, onde uma, a minha, estava limpa por demais por conta de toda a higienização que fazemos dentro de um hospital; e a outra, a dele, completamente suja, encardida. E eu deixei então que aquele cumprimento fosse o mais verdadeiro possível de minha parte, porque da dele, já estava sendo desde o início.
Terminamos de nos cumprimentar, ele olhou para os meus olhos e me perguntou se eu era cristão. Eu respondi que sim, em seguida veio uma pergunta que jamais alguém houvera feito a mim em toda a minha vida. Ele me perguntou se eu daria a minha vida por Cristo. Eu respondi que sim, que daria. Essa resposta foi observada por ele a cada letra que saia de minha boca, como que se ele quisesse ter certeza de que eu estivesse sendo o mais sincero e verdadeiro possível.
Quando terminei, ele me disse alguma coisa que eu não compreendi direito, até que, por fim, ele completou exortando-me: “então confie no Cristo até o final!”
Ficamos em silêncio. Ele parecia já estar lendo a minha mente. Isso era real para mim naquele instante, ele estava lendo a minha mente!
Mas como eu iria entrar no carro de minha carona eu tive que fazer algo que me deixou confuso, inquieto e arrependido depois, mas não tive escolha: despedi-me dele e entrei novamente para dentro do hospital e purifiquei minha mão com álcool.
Se este meu gesto foi escandalizador, peço perdão a Deus e a ele!
Chegando em minha casa, assim que finalmente fui dormir, confesso que suas últimas palavras não saiam da minha mente e assim a repeti praticamente pela noite toda, entre dormir e acordar, acordar e dormir; eu só conseguia repetir: “eu confio no Cristo até o final!”
Hoje, mamãe está de volta para casa. Meu coração está feliz. E minha obrigação aumentou um tantinho mais, pois prometi a Deus que a partir de então eu rezaria por todas as pessoas que recebem notícias que partem o coração.
Jesus era aquele rapaz!
Ou aquele rapaz era Jesus!
Disso, hoje, não tenho dúvida alguma!
Hoje, em minha lembrança daquele rosto sujo, vejo uma face nada comum, mas naquele momento eu não me atentei a isso, outras preocupações acometiam o meu peito naquele instante. Mas aquele rosto, aquele olhar, aquela mão estendida não eram normais, era tudo muito diferente. Havia um brilho; havia uma energia singular; havia uma plenitude sem igual…
Senhor, eu te louvo e te agradeço por tanta ternura, tanta atenção, tanto zelo por mim! Um dia eu sei que vou compreender por que o Senhor apareceu para mim assim, como o Cristo da rua.
Amém.
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