Capítulo 1: O Despertar do Nada
Frase do Desvão: “A imperfeição é a única perfeição, e a perfeição é uma ilusão. Forsan.”
Capítulo 1: O Despertar do Nada
Frase do Desvão: “A imperfeição é a única perfeição, e a perfeição é uma ilusão. Forsan.”
Elias acordou com o som dos cânticos. Ou melhor, com o som de algo que tentava ser cânticos, mas soava mais como um grupo de gatos sendo estrangulados em uníssono. Eram vozes graves e roucas, entoando palavras em uma língua que ele nunca conseguiu decifrar — e, francamente, nem queria. Afinal, quem em sã consciência iria querer entender frases como “Nihil est omnia, et omnia est nihil”? Parecia o tipo de coisa que alguém escrevia depois de uma noite bebendo vinho barato e lendo Nietzsche pela primeira vez.
Ele virou na cama, tentando ignorar o ritual matinal que acontecia no salão principal do templo. A luz do sol entrava pela fresta da cortina, desenhando uma linha brilhante no chão de madeira gasto. Elias olhou para o vão entre as tábuas e pensou, não pela primeira vez, que aquele espaço vazio era a única coisa que fazia sentido ali. Pelo menos o vão não tentava cantar.
— Elias! — a voz de Mestra Zilá ecoou pelo corredor, seguida por batidas firmes na porta. — Você vai perder o café da manhã sagrado de novo!
Ele suspirou. O “café da manhã sagrado” era, na verdade, um pão velho que parecia ter sido amassado por alguém com raiva e um suco de laranja que provavelmente fora diluído com água benta — ou, mais provavelmente, com água de chuva coletada de um telhado sujo. Mas ele sabia que não adiantava reclamar. No templo, reclamar era considerado uma “afronta ao Vazio”, o que, na prática, significava que você tinha que ouvir um sermão de duas horas sobre como a insatisfação era a única certeza da vida. E Elias já tinha ouvido esse sermão tantas vezes que poderia recitá-lo de trás para frente.
Ele levantou-se da cama, vestiu a túnica branca que todos usavam no templo — uma peça que parecia ter sido costurada por alguém que odiava cores e estilo — e olhou-se no espelho. O reflexo que o encarava era o de um jovem comum, com olheiras de quem dormia mal e um corte de cabelo que parecia ter sido feito por alguém de olhos fechados. “A imperfeição é a única perfeição”, ele pensou, repetindo mentalmente a frase do Livro do Desvão. “Mas e se a imperfeição for só… imperfeita? Tipo, muito imperfeita?”
Ao sair do quarto, Elias passou por alguns seguidores no corredor. Havia um homem de meia-idade com uma barba desgrenhada, vestindo um roupão surrado e chinelos — o que, aparentemente, era o uniforme oficial dos “iluminados”. Uma mulher jovem, de pijama e cabelo despenteado, carregava um caderno cheio de anotações e desenhos estranhos que pareciam feitos por uma criança de cinco anos sob o efeito de açúcar. E, no final do corredor, um homem idoso com óculos grossos e uma bengala encarava Elias com um olhar tão intenso que ele quase tropeçou. “Ou talvez ele só esteja tentando ver alguma coisa através daqueles óculos”, pensou Elias.
Ao entrar no salão principal, Elias foi recebido pelo olhar severo de Mestra Zilá, uma mulher de cabelos grisalhos e olhos que pareciam sempre estar julgando algo que ninguém mais via — provavelmente a qualidade dos cânticos, que, convenhamos, eram realmente ruins. O salão era amplo e mal iluminado, com paredes de pedra desgastadas e janelas altas que deixavam entrar raios de sol poeirentos. O chão de madeira rangia a cada passo, e o ar cheirava a incenso velho e café requentado. Havia poucas pessoas no salão — talvez umas dez — , todas sentadas em bancos de madeira dispostos em círculo. Algumas vestiam as túnicas brancas tradicionais da seita, enquanto outras usavam roupões, pijamas ou roupas simples, como se tivessem acabado de sair da cama. Ou como se tivessem desistido da vida há muito tempo.
Elias pegou uma bandeja e se juntou à fila do café, onde Lino, o garoto de quinze anos que trabalhava no templo, servia o “café da manhã sagrado”: pão velho e suco de laranja diluído. Enquanto esperava, ele começou a cantarolar baixinho um trecho do Cântico do Nada:
— “Nihil est omnia… et omnia est nihil…”
Lino olhou para ele com um sorriso e continuou o trecho:
— “In vacuo veritas, in veritate vacuum. Forsan, forsan, forsan.”
Elias levantou uma sobrancelha, surpreso. — Você conhece o cântico?
— Claro! — respondeu Lino, derramando suco em um copo. — É o Cântico do Nada, meu preferido. Mas eu gosto mais do Cântico do Caos. Aquele que diz: “Ordo ex chaos, chaos ex nihilo.” Acho que combina mais comigo.
— Ah, sim, o clássico “Ordem do caos, caos do nada”. Realmente poético — disse Elias, com um tom sarcástico que passou completamente despercebido por Lino. — Quem escreveu isso? Um adolescente em crise existencial?
Lino apenas riu e entregou a bandeja a Elias, que seguiu para o círculo de bancos. Ele se sentou ao lado de uma mulher que parecia estar dormindo, mas que acordou com um sobressalto quando Mestra Zilá começou a falar.
— Irmãos e irmãs — ela disse, erguendo uma colher torta como se fosse um cetro sagrado — , hoje é um dia especial. Hoje, celebramos a imperfeição, pois é nela que encontramos a verdadeira perfeição. Lembrem-se: “A única certeza é a dúvida, e a única verdade é o nada. Forsan.”
Todos repetiram em coro:
— “Forsan.”
Elias olhou ao redor e percebeu que algumas pessoas estavam realmente emocionadas, enquanto outras pareciam tão confusas quanto ele. Uma mulher ao fundo do salão chorava silenciosamente, segurando um lenço com a mão trêmula. Elias não conseguia tirar os olhos dela. Ela não era bonita — tinha um rosto comum, com olhos inchados e um nariz vermelho de tanto chorar — , mas havia algo nela que o perturbava. Talvez fosse o fato de ela sempre estar chorando, ou talvez fosse algo mais profundo, algo que ele não queria admitir. “Por que ela chora tanto?”, ele pensou. “Será que ela finalmente percebeu que os cânticos são ruins demais para aguentar?”
Mestra Zilá continuou:
— Hoje, Elias será nomeado como o próximo Buscador. Ele encontrará o novo texto sagrado e trará a luz do nada para todos nós.
Elias quase engasgou com o gole de suco que estava tomando. Ele olhou para Mestra Zilá, esperando que fosse uma piada, mas ela estava completamente séria.
— Eu? — ele perguntou, levantando a mão como um aluno em uma sala de aula.
— Sim, você — ela respondeu, com um sorriso que não chegava aos olhos. — O Grande Vazio escolheu você, Elias. Ou talvez não. Forsan.
Todos repetiram:
— “Forsan.”
Elias olhou para o pão velho em sua bandeja e para o suco de laranja diluído, que agora parecia ainda mais insípido. “Isso é um erro”, ele pensou. “Eu não sou o Buscador. Eu sou só… Elias. O cara que odeia cânticos e café da manhã sagrado.”
Mas Mestra Zilá já estava se movendo, saindo do círculo e se aproximando dele. Ela colocou uma mão em seu ombro, e ele sentiu o peso daquela mão como se fosse uma âncora.
— Você partirá hoje mesmo — ela disse, com uma voz que não deixava espaço para argumentos. — O caminho já está traçado. O Vazio o guiará. Ou talvez não. Forsan.
— “Forsan”, murmuraram os outros.
Elias olhou para o chão, para a linha de luz que entrava pela fresta da cortina. Ele pensou no vão entre as tábuas de madeira, naquele espaço vazio que sempre parecia fazer mais sentido do que tudo ao seu redor. “Talvez seja isso”, ele pensou. “Talvez o Nada esteja ali, entre as tábuas, esperando por mim. Ou talvez seja só um buraco no chão. Forsan.”
Ele não sabia se aquilo era uma epifania ou apenas mais uma dúvida, mas decidiu que não adiantava resistir. Se o Vazio o havia escolhido — ou talvez não — , ele não tinha muita escolha a não ser seguir em frente.
— Está bem — ele disse, levantando-se. — Eu vou. Mas só se eu não tiver que cantar.
Mestra Zilá sorriu, mas novamente o sorriso não chegou aos olhos.
— Boa sorte, Buscador. Que o Nada esteja com você. Ou talvez não. Forsan.
— “Forsan”, repetiram todos, enquanto Elias pegava sua bandeja e se dirigia para a porta.
Ele parou na entrada do salão e olhou para trás, para o círculo de pessoas que agora o observavam com uma mistura de esperança e ceticismo. A mulher que chorava ainda o encarava, e ele sentiu um frio estranho ao perceber que ela estava sorrindo, como se soubesse algo que ele não sabia.
Elias saiu do salão e seguiu pelo corredor, passando pelos seguidores que agora o olhavam com um novo respeito. Ele sentiu o peso daqueles olhares, mas também uma estranha sensação de liberdade. Ele não sabia para onde estava indo, mas sabia que, pela primeira vez em muito tempo, estava se movendo.
Ao chegar ao seu quarto, ele começou a juntar suas coisas. Não tinha muito: algumas roupas, um caderno velho com anotações sobre os cânticos — que ele planejava queimar assim que possível — e um pequeno amuleto que ele havia encontrado no chão do templo há alguns anos. Ele olhou para o amuleto, uma pequena peça de metal com um símbolo estranho gravado, e se perguntou se aquilo poderia ser uma pista. “Ou talvez seja só um pedaço de metal”, ele pensou. “Forsan.”
Ele colocou o amuleto no bolso e olhou para o espelho mais uma vez. O reflexo que o encarava ainda era o de um jovem comum, mas agora havia algo diferente em seus olhos. Algo que ele não conseguia nomear.
— “Forsan”, ele murmurou para si mesmo, e então saiu do quarto, pronto para enfrentar o Nada. Ou talvez não.
Capitulo 1 — Parte Vão: A Lenda do Texto do Gato
“No ano de 1997, o grande cientista Fartis Clunis tentou clonar seu gato sem pata, Sir Pateta, mas o clone nasceu igual ao original. Anos depois, o sábio Manfuduro decifrou o código oculto no DNA dos gatos com a ajuda de um macaco mudo chamado Caco. O computador de Manfuduro explodiu após a descoberta, e Caco desapareceu, deixando apenas uma banana e um bilhete que dizia: ‘Forsan.’”
O renomado cientista Fartis Clunis, um homem tão genial quanto emocionalmente desapegado, decidiu que seu gato Sir Pateta — que perdera a pata esquerda em um incidente bizarro envolvendo uma briga de bar e uma máquina de pinball — precisava ser “consertado”. Afinal, quem quer um gato manco quando você pode ter um gato completo? Com a confiança típica de alguém que acha que a ciência pode resolver tudo, Fartis mergulhou de cabeça no projeto de clonagem. O resultado? Sir Pateta II, uma cópia geneticamente idêntica que, para o desespero de Fartis, também nasceu sem a pata esquerda. “Ótimo, agora tenho dois gatos defeituosos”, deve ter pensado ele, enquanto se perguntava se deveria culpar a genética, o universo ou simplesmente seu péssimo gosto por bares.
Sem perder tempo, Fartis decidiu que dois gatos mancos eram demais para sua sofisticada existência. Então, com a delicadeza de quem descarta um móvel velho, ele “reposicionou” Sir Pateta e Sir Pateta II em um local não especificado (provavelmente algo entre um abrigo de animais e um buraco no quintal). Afinal, para que serviria a ciência se não para nos livrarmos de problemas inconvenientes? Ele ainda teve a audácia de publicar suas descobertas na renomada revista Errognose — um nome que, convenhamos, soa como um grito de desespero de um cientista que percebeu que a vida é uma grande piada cósmica.
Anos depois, o excêntrico decodificador de códigos Manfuduro, um homem que claramente não tinha nada melhor para fazer, encontrou o artigo na Errognose e decidiu que aquela história de gatos clonados e patas perdidas era digna de investigação. Com a ajuda de um macaco mudo chamado Caco — que, segundo rumores, entendia linguagem de programação melhor do que a maioria dos estagiários de TI — e um computador que parecia ter sobrevivido à era dos dinossauros, Manfuduro passou meses decifrando o DNA dos gatos. E, claro, ele descobriu algo incrível: uma sequência codificada que revelou um dos textos mais enigmáticos do Livro do Desvão: “A imperfeição é a única perfeição, e a perfeição é uma ilusão. Forsan.”
Mas, como toda boa história de descobertas científicas, o final foi digno de uma comédia absurda. O computador de Manfuduro explodiu — porque, é claro, nada diz “fim de experimento” como uma explosão — , e o macaco Caco desapareceu, deixando para trás apenas uma banana meio comida e um bilhete com a palavra “Forsan.” Talvez o macaco tenha finalmente entendido que a vida é uma piada sem graça e decidido se aposentar. Ou talvez ele tenha percebido que trabalhar com humanos é um esforço inútil. Quem sabe?
Enquanto isso, Sir Pateta e Sir Pateta II, onde quer que estejam, provavelmente estão rindo da ingenuidade humana e da nossa obsessão por consertar coisas que nunca estiveram quebradas. Afinal, quem precisa de quatro patas quando você tem uma lição filosófica para ensinar?
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