O Exorcista é uma história sobre fé
“O filme mais assustador de todos os tempos”, “aquele da menina dos jumpscares na internet”, “aquele que eu vi o comercial no SBT e fiquei…
O Exorcista é uma história sobre fé
“O filme mais assustador de todos os tempos”, “aquele da menina dos jumpscares na internet”, “aquele que eu vi o comercial no SBT e fiquei sem dormir de noite”. Muitas são as formas usadas para descrever esse clássico do cinema que ainda faz parte do imaginário popular desde seu lançamento em 1973. Continuações horríveis (O Exorcista 3 é o único bom), prequel’s desnecessárias, uma promessa absurda de remake… nada conseguiu manchar a honra da história original.
Contudo, assim como tudo o que entra na cultura e por lá permanece por décadas, existe muito ruído quando tentamos analisar a obra por si só. Garanto que muita gente não viu o filme mas comenta sobre o que aparenta ser, enquanto outros só foram assistir após anos de exposição fracionada ao seu conteúdo, ou munidos de análises e opiniões já formadas, o que gera até mesmo o famoso efeito “Mas é só isso? Esse é o tal filme mais assustador?” em audiências cada vez mais acostumadas a violência gráfica exacerbada de produções atuais.
Porém, eu ainda mantenho que O Exorcista é um dos melhores filmes já feitos (não apenas do gênero de terror), e estendo a mesma definição ao seu livro, cujo autor foi o mesmo que ajudou a trazer a adaptação para as telas do cinema. O motivo de tudo isso é o que está nas entrelinhas dessa história, aquilo que ela quer demonstrar, e não aquilo que ela é na superfície.
Pois O Exorcista é um exercício e uma observação sobre a fé, em seu mais puro e universal significado.

Pela primeira vez na televisão…
Uma história lenta?
Definitivamente, a primeira crítica que alguém terá ao ver essa história pela primeira vez é a de que ela é “lenta demais”. Novamente, culpo a fama e o status cultural do filme por essa definição, e não apenas a época em que ele foi feito. O que é confundido como lento é, na verdade, uma das partes mais importantes e uma das melhores do filme.
Após o início inesperado em um sítio arqueológico do Iraque, onde somos apresentados ao padre e arqueólogo Merrin descobrindo a sua missão e o mal que estava por vir, chegamos finalmente nos Estados Unidos, onde uma atriz tenta conciliar a vida ocupada, a cidade estranha, cuidar de sua filha e ainda ser sociável, como é esperado de alguém com sua profissão.
A cidade de Georgetown é representada aqui de forma fria e indiferente, sem muita cor ou calor, e ao longo do filme essa atmosfera opressiva vai ficando cada vez mais presente. Nos é explicado por meio de detalhes que essa família está sozinha por ali, com pouquíssimos amigos aos quais eles podem confiar de verdade, além da mãe ter de lidar com o peso claro de ser uma mãe solteira e ter que equilibrar o trabalho e a maternidade.

Uma mãe que vai ser colocada a prova pela vida.
Além da mãe e da filha, somos também apresentados a mais uma figura importante: o padre Damien Karras. Sabemos que ele é um homem que está aos poucos perdendo a sua fé e cada vez mais duvidando da presença do divino em nossas vidas. Os motivos são apresentados aos poucos: A doença terminal de sua mãe, a pobreza em evidência em todos os lugares, a corrupção social, a vontade de estudar para desmistificar o que antes não entendemos, tudo isso é posto sem julgamentos e nos leva a entender os motivos do padre, concordando com as suas conclusões ou não.
Dado esse pano de fundo, é fácil perceber que cada uma dessas partes e cada uma dessas pessoas precisa de seu tempo de tela e seus diálogos para estabelecer a dinâmica de cada um e justificar as suas formas de lidar com o que estava por vir. E o que viria não seria apenas mais um monstro de filme de terror, e sim, seria um teste de fé.

Um teste bem frio, como visto aqui.
Até onde vai a sua fé?
O aspecto mais fascinante a se observar tanto no filme quanto no livro (embora esse segundo, pelo formato, trabalhe com muito mais detalhes), é o quanto essa história tenta ao máximo se manter ambígua.
Quando as atitudes da menina Regan começam a se tornar estranhas, acompanhamos bem de perto o quanto sua mãe passa por vários estágios de negação. Já nos foi estabelecido, a essa altura, que essa mãe não é uma pessoa muito religiosa, e preza pela ciência e por explicações plausíveis, ao mesmo tempo em que, como figura materna, ela é a primeira a perceber que sua filha não está bem.
O que se segue são dias e mais dias exaustivos de exames, uma miríade de médicos consultados, e aos poucos vamos percebendo (em um trabalho sensacional da atriz Ellen Burstyn) o quanto ela vai aos poucos se cansando e sendo derrotada pela falta de conclusão. Imagine você, como uma mãe ou pai, sabendo que tem algo errado com sua filha e, simplesmente, nenhum médico de nenhuma área consegue descobrir o que é.
Se o filme corresse e partisse logo para a mãe buscando um padre e o exorcismo, essa história perderia completamente sua essência. O que acompanhamos aqui é uma mãe desistindo de tudo uma derrota a cada vez, até que lhe sobra somente uma opção: acreditar que algo sobrenatural está acontecendo.

De longe, as cenas mais pesadas do filme antes do final.
Só então é que o padre Karras, aquele que acompanhamos em suas dúvidas e anseios em paralelo, é finalmente colocado na trama principal. E ele aceita o exorcismo e o filme se encaminha para o final, certo? Negativo, isso não faria sentido com esse personagem. O que se segue é o padre explicando, agora sob a ótica da igreja, o porque esse negócio de exorcismo é coisa do passado e hoje em dia tudo pode ser explicado com ciência.
Mas isso são palavras que vem do coração? Não. No fundo, padre Karras é uma pessoa boa, e basta ele perceber o desespero daquela mãe para que ele não deixe de ao menos tentar ajudar. Sua fé abalada num misto de desconfiança e raiva o levam a confrontar o que ele não consegue mais explicar.
E você, como espectador, é bombardeado com argumentos de todos os lados, sejam esses puramente científicos e baseados em dados ou não, e isso causa outro efeito bem interessante: é deixado, por muito tempo, em aberto qual é a explicação. Você é uma pessoa de fé? Então você logo acredita que ali existe um demônio. Você é uma pessoa cética? Então você consegue passar 90% do filme (ou até 100%, dependendo do nível) acreditando que aquilo tudo não é nada mais do que um quadro psicológico desafiador e mal diagnosticado.
Independente da resposta, o clímax do filme não podia ser outro.

Sim, um exorcismo. Está no nome do filme, afinal!
O exorcismo
Mesmo tendo dúvidas até o final, o padre Karras decide ajudar aquela mãe e pede um exorcismo à igreja. Mal sabia ele que um outro padre já estava de prontidão, apenas esperando para cumprir a sua missão. É nesse momento onde apenas os mais fortes de fé poderiam atender o chamado sem se abalar que retornamos ao personagem do começo do filme.
Padre Merrin é tratado aqui como um homem de fé inabalável. É impossível não sentirmos que o filme e o livro o tratam com uma reverência digna. Acreditando ou não no fator espiritual dessa história, o fato é que o padre Merrin é simplesmente uma pessoa… boa. Ele é calmo, acolhedor, mas não perfeito. Ele recolhe com o mesmo carinho a mãe desesperada, o seu colega de profissão em dúvida e a missão que lhe foi designada. Pela fé, esse é um homem que está em paz com a sua vida e sua convicção.
Não é à toa que o enquadramento mais famoso do filme, aquele que serve de pôster principal, é esse homem do bem sendo iluminado pela luz da janela de Regan, onde se encontra o seu destino.

Outra cena maravilhosa: dois homens cansados, mas com um único objetivo. A fé está em vencer na adversidade.
É no retorno de Merrin que até mesmo o mais cético de nós se comove com a sua simplicidade e nos diálogos incríveis e muito bem atuados, e tudo o que queremos é que a menina fique bem, seja aquilo o demônio ou não.
O que se segue é uma verdadeira batalha e um show de efeitos especiais que deixam boquiaberto qualquer um até hoje. Mas o que mais abala nessa história não é apenas isso, e sim o seu final surpreendente. O padre tranquilo, inabalável e calmo acaba falecendo. Se foi o demônio? Se foi apenas a idade avançada? Se foi uma doença para a qual as pílulas que ele tomava serviam? Não sabemos, e o filme, ambíguo como é, deixa para nós essa interpretação.
O que temos no final é o derradeiro sacrifício de Karras. Um homem falho, um homem que duvidou, um homem… que era apenas humano, no fim. Karras foi aquele que teve coragem e nos mostrou que atitudes são as que mais valem no fim. Ele salvou a menina dando a sua própria vida em troca, a redenção final para aquele que julgava não ter mais nenhuma fé.

Apenas um homem comum que foi até o fim para ajudar quem precisava.
Somos formados de caos e sonhamos com a ordem
No fim, o que acompanhamos com cada personagem são as mais diversas faces dos seres humanos, e nada mais. Todos eles tinham seus erros e acertos, suas dúvidas e seus pecados, mas todos escolheram tomar uma atitude diante daquilo que ameaçava uma pessoa inocente.
O que é fé, no fim? Qual a definição de fé? É essa a pergunta que O Exorcista deixa para todos nós. Claro, ele não nos dá a resposta, pois a lição aqui é a de que ela depende unicamente de cada um.
No fim, se você tenta ser uma boa pessoa, na medida do possível, e tenta ajudar aquele que precisa e busca por sua ajuda… não realmente importa qual o formato da sua fé, não é verdade?
Sempre seremos falhos, mas lembre-se que todos temos escolhas. Se puder, um dia, veja ou reveja esse filme e leia o livro também, caso nunca tenha lido. E tente, ao fazer isso, observar as entrelinhas e observar a sua própria fé. Garanto que você sairá melhor no fim da jornada.
(Além de ser um filme maravilhoso, a trilha sonora não fica muito atrás. Ouçam Mike Oldfield!)
메타데이터
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- 2026-07-20 20:37:08