NA NOITE PASSADA, UM DJ SALVOU MINHA VIDA, MAS JÁ HOUVE NOITES EM QUE FOI UM PASTOR: uma…
Meu ponto de partida é uma foto. Uma imagem impressa em papel fotográfico e posteriormente digitalizada, um arquivo familiar, uma lembrança…
NA NOITE PASSADA, UM DJ SALVOU MINHA VIDA, MAS JÁ HOUVE NOITES EM QUE FOI UM PASTOR: uma autoetnografia sobre clubbers e evangélicos
Meu ponto de partida é uma foto. Uma imagem impressa em papel fotográfico e posteriormente digitalizada, um arquivo familiar, uma lembrança de uma comunidade específica, uma imagem estática de um grupo de crianças vestidas com túnicas vermelhas, com um laço branco na altura da gola, projetando suas vozes em forma de coral. Trata-se de um arquivo de uma igreja evangélica, em comemoração ao Natal de 1997. Eu sou uma das crianças que aparece na fotografia e, com ela, proponho uma “viagem ao fundo de mim”, como a canção de Rita Lee, que soa agora aqui no meu computador e que pode soar também para você, leitor, que, usando do seu livre-arbítrio, procura a canção em uma plataforma de streaming qualquer. A gente sempre parte de algum lugar, e meu ponto de partida vem da minha infância. Sim, com algum medo de quebrar a cara, eu desejo mergulhar de ponta para dentro da minha experiência terrena, que, por mais banal e privada que seja, cabe a mim — e a você também — já que isso me conecta com todo o resto. Meu desejo é tentar compreender como as relações das comunidades/cenas musicais que participei e participo são mediadas pela música, e como essa categoria de arte molda, organiza e incita comportamentos corporificados e atos performativos. Um espaço-problema cheio de mim e repleto de outros humanos, que vivem em comunidades musicais.
Minha relação com a dona música, essa senhora multifacetada, começa na infância. Escolho partir da cantata de Natal, da Igreja Presbiteriana, de Boa Esperança, minha cidade natal localizada no sul de Minas Gerais, uma das regiões mais conservadoras do Brasil e repleta de belezas naturais. Eu sou uma das crianças deste coral. Mesmo eu tendo uma boa voz para as exigências de uma voz infantil, meu corpo aparece na imagem em um lugar pouco privilegiado. Sempre notei essa organização por parte das monitoras e professoras de canto da igreja. Hoje vejo que isso era uma forma de me proteger do deboche, por eu ser uma criança afeminada, uma criança viada, e também uma forma de proteger a imagem da Igreja e da vergonha que era manter um corpo tão inaceitável para os olhos de Jesus. “(…) posso ter sido colocado no armário por alguém numa atitude de amor, para que estivesse protegido da homofobia. (…) proteger não é defender, nem emancipar” (DIAS, 2023, p.81). Eu olho novamente para essa foto, em um zoom pixelado e vejo que minha boca desejou cantar: “Eu tenho medo da igreja e a igreja tem medo de mim”. Ainda assim, eu estava ali correndo bravamente para participar do pacto do cristianismo, do binarismo, da heterossexualidade, e da divisão e organização dos corpos (PRECIADO, 2020) desta “imaculada” igreja Presbiteriana. A foto que ilustra meu ponto de partida é do Natal de 1997 e foi enviada por Whatsapp, por uma amiga, uma das crianças que cantou neste coral comigo, além de minha irmã que aparece na primeira fila. Para localizar você leitor, eu sou a criança que está na última fila, no canto esquerdo da imagem. Sim, estou um pouco afastado dos meninos e de todo o resto. Não posso evitar a metáfora clichê, mas eu sou a ovelha prestes a se desgarrar do rebanho. Conto com esse documento e o que está nele inscrito, para “ancorar e mobilizar minha memória corporal” (DIAS, 2023, p.80).

Imagem da Cantata de Natal, no ano de 1997, na Igreja Presbiteriana de Boa Esperança/Minas Gerais. Fotografia analógica (arquivo de família)
Anos mais tarde, na pré-adolescência, minha relação com a música ganhou outra camada. Minha mãe, que na época era esteticista, foi convidada a participar de uma entrevista na rádio local, falando sobre cuidados de beleza. A entrevista foi um sucesso, os ouvintes adoraram a vibração da sua voz e, dias depois, minha mãe recebeu um convite para ser locutora de um programa de love songs, canções românticas, no horário da noite, cinco dias por semana. Minha mãe recebeu o convite com muita alegria. O programa denominado “Bye Night”, durou quase uma década, e eu acompanhei minha mãe na rotina quase diária da rádio, sendo seu assistente na busca por LPs e/ou CDs com os pedidos dos ouvintes. Nesta época totalmente analógica das rádios, tive acesso a um gigantesco acervo musical. Foi nesse período que nasceu minha paixão por bandas como Kid Abelha, Metrô, Blitz, Gang 90, e pela estética efusiva dos anos 1980. Eu nunca atendia ao telefone, era sempre minha mãe que se ocupava disso. Ela anotava os pedidos em um bloquinho impresso e eu percorria o longo acervo da rádio em busca das músicas pedidas pelos ouvintes. Ainda posso sentir o cheiro de poeira dos LPs, o peso dos discos duplos e das caixas de CDs que se desencaixavam com frequência. Esses materiais carregavam imagens dos artistas, pôsteres, as letras das canções e, claro, as músicas. O mundo material é realmente delicioso.
Em 2006, ingressei no curso de graduação em Jornalismo, na Universidade Federal do Tocantins. Sim, fui para o lugar mais distante da minha família. “(…) para ser, se é que fosse ser, era preciso ir embora” (DIAS, 2023, p.92). O objetivo era sair da igreja, sair do armário e me aventurar a, quem sabe, ser “eu”. Como enfatiza Juarez Dias (2023), o “armário é arranjo de práticas e saberes, uma peça do dispositivo da cisheteronormatividade” (p.80), e era desse arranjo que eu tentava me desvencilhar. “Eu sabia precisamente do que precisava: espaço para desdobrar os meandros da minha homossexualidade ainda em conflito. Era minha maneira de buscar a felicidade sendo eu mesmo”. (TREVISAN, 2017, p.49). Nesses anos em Palmas/Tocantins, vivi minhas primeiras experiências afetivas e sexuais com homens, um primeiro namoro desastroso como manda o figurino, além de outras paixões e desilusões. Nessa época, o indie rock estava em alta e eu virei uma espécie de proto-DJ das festinhas do meu grupo de amigas. Como ainda não haviam plataformas de streaming, eu fazia longas playlists, que eu gravava em um pendrive e somente dava play nas festas. A comunidade musical que eu fazia parte aqui era uma bolha dentro da bolha que era a comunidade universitária. Nós — eu e minha amigas — nos considerávamos muito alternativas à estética musical da época, e por isso fazíamos nossos encontros à parte do campus. Hoje vejo como éramos pedantes, os ditos “alternativos” daquele lugar.
De volta a Minas Gerais, em 2010, me mudo para Belo Horizonte, onde trabalhei como assessor de imprensa em uma organização cultural. Tive colegas de trabalho muito queridos e próximos, um em especial, Alexandre de Sena, que já era DJ e sempre elogiava meu gosto musical, quando compartilhávamos alguma música ou link de videoclipe. Esse tipo de interação e mediação pela música nos levava a longas conversas e, em uma certa vez, ele me convidou para tocar com ele em uma festa. Para isso, previamente ele me ensinaria a usar uma controladora (hardware de mixagem) e um software de mixagem e posteriormente eu tocaria em uma festa na Gruta, um espaço cultural muito importante para as artes performáticas da capital mineira. Lembro da sensação de ver pessoas dançando, da timidez gritando dentro de mim e da euforia dos meus amigos e do meu ex namorado enquanto eu manuseava essas primeiras máquinas. Anos mais tarde, mais precisamente em 2014, nasce meu nome de DJ: supololo, que em espanhol chileno significa “seu namorado”, “o namorado de alguém”. Lembro que escolhi esse nome depois de uma viagem ao Chile, em 2013, pois amei a palavra “pololo” e o verbo “pololear”. A palavra de origem mapuche significa besouro verde, algo que se agarra à pele, e é usada nesse país como sinônimo de namorado, diferenciando do tradicional “novio, novia” do restante da América Latina e Espanha.
Dou mais algumas braçadas para dentro de mim, nunca fui bom em natação, mas consigo ver o ano de 2015. Um amigo recente chamado Vitor Lagoeiro criou um grupo na plataforma Facebook chamado Masterplano. A proposta do grupo online era organizar um “grande plano” de uma “Rave Doméstica”, uma pequena festa de música eletrônica em sua casa, em Ouro Preto/Minas Gerais, em um feriado. Eu fui convidado a participar desse grupo e da festa, e chegando lá, eu e toda essa gente descobrimos que tínhamos muitos desejos em comum e um tédio absurdo em relação a diversão noturna e LGBTQIAP+ de Belo Horizonte, da época. De lá para cá, foram 10 anos de coletivo, descobertas, portas na cara, problemas com a polícia militar, achados, pistas, beats, samples, memórias musicais, alucinações, suor, cerveja e interações de corpos com espaços: uma gama de afetos, que toca a mim e a uma cena de música eletrônica de pista, que faço parte. Como escrever, mergulhar e desenvolver algo que é sobre mim e sobre tanta gente, nessa ecologia cheia de emaranhados?
“Cenas musicais” são modos de organização de um determinado gênero musical ou movimento artístico dentro de um mesmo território (JANOTTI; SÁ, 2013). Apesar de serem sempre mediadas pela música, vejo que frequentei e frequento o que Bauman (2001) chamou de comunidades éticas e estéticas. Éticas, como a Igreja Evangélica, que compartilha um conjunto de valores, credos e compromissos a longo prazo, em que, se corrompidos, há quebra de contrato, castigo e desligamento do grupo. Estéticas, como a cena de música eletrônica de pista, enquanto grupo que compartilha identidade por um tempo determinado, em prol de um modo de vida, entretenimento, gostos estéticos e diversão.
O tempo aqui não tem linearidade, por isso me apego a uma segunda fotografia. No ano de 2024, recebi uma foto por Whatsapp enviada pela minha tia, Frida Reis. A foto dos anos 1970, tem como figura central, meu bisavô materno, Mário Lopes, um pastor da Igreja Assembleia de Deus, na mesma Boa Esperança/Minas Gerais. Um homem, o qual não conheci, pois ele faleceu em 1986 e eu nasci em 1988. Apesar do desencontro temporal, existe um fio familiar que nos une e que costura: a igreja, a comunidade evangélica, a música que organiza, mobiliza e também oprime e imobiliza corpos como o meu.
Na foto, meu bisavô parece ser DJ, parece operar uma certa controladora ou CDJS, talvez uma bíblia mixer. Na imagem que vejo, ele parece transcender com as frequências graves emanadas pelo grande DJ, Jesus Cristo, o headline, o artista principal daquela noite. Há outros DJs atrás do meu bisavô, esperando a vez de tocar, há também uma pequena pista de dança formada por três mulheres em silêncio e em posição de inferioridade. No canto inferior à direita, há uma cabeça de criança. Há flores de plástico na mesa do DJ. Há um ventilador que demonstra calor na pista, fervor na igreja pentecostal e um gritante recorte de classe. Na noite passada, um DJ salvou minha vida, mas já houve noites em que foi um pastor.

Imagem do pastor Mario Lopes, na Igreja Assembleia de Deus, em Boa Esperança/Minas Gerais, na década de 1970.
REFERÊNCIAS
DIAS, Juarez Guimarães. Do armário que habito aos armários de todes nós: um relato pela verdade de ser. In: MENDONÇA, Carlos Magno Camargos; DIAS, Juarez Guimarães (orgs.). Em primeira pessoa: escritas afetivas e performativas de si [livro eletrônico]. Belo Horizonte: Fafich/Selo PPGCOM/UFMG, 2023. p. 73–107. Disponível em: https://seloppgcomufmg.com.br/produto/em-primeira-pessoa/. Acesso em: 22 jul. 2025.
JANOTTI JUNIOR, Jeder; PEREIRA DE SÁ, Simone (orgs.). Cenas musicais. Guararema, SP: Anadarco Editora & Comunicação, 2013. (Coleção Comunicações e Cultura). ISBN 978–85–60137–51–0.
LEE, Rita. Viagem ao fundo de mim [vídeo]. Universal Music Group. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=OvcskIJIzSw. Acesso em: 22 jul. 2025.
MIRANDA, Camila Fontenele de. A autoetnografia como prática contra-hegemônica. Teoria e Cultura, Juiz de Fora, v. 17, n. 3, dez. 2022. Dossiê Autoetnografias: (In)visibilidades, reflexividades e interações entre “eus” e “outros”. Disponível em: https://periodicos.ufjf.br/index.php/TeoriaeCultura/article/view/38100. Acesso em: 22 jul. 2025.
PRECIADO, Paul B. Um apartamento em Urano: crônicas da travessia. Tradução de Jorge Leal. São Paulo: Todavia, 2020.
TREVISAN, João Silvério. Pai, pai. São Paulo: Companhia das Letras, 2017.
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