Diário de um viciado em álcool — A vida sem um gole
Diário de um viciado em álcool — A vida sem um gole
Oi, meu nome é Marcos Paçoca e eu estou a uns trocentos dias sem beber. Ok, a introdução é irônica, mas não deixa de ser verdade. Desde o último porre que tive realmente se passaram muitos dias, acredito que por volta de 4 meses, e acredite quando digo que é mais complicado do que parece. Esse post então vai ser sobre o que é o álcool para mim e porque a necessidade dele é tão forte em alguns momentos e em outros nem tanto.
Já existe algum tempo que trato a depressão e um possível burnout que tive ano passado com um psiquiatra. Em um determinado momento desse tratamento, eu não consumo bebida alcoólica para evitar qualquer tipo de reação que isso possa ter no meu tratamento. Contar isso importa porque meu vício tem como pai e mãe diretos obviamente a depressão.
Ao contrário de pessoas que consomem o álcool para degustar do sabor, comigo nunca foi assim, era sempre para ficar alterado. A bebida sempre foi uma forma de me permitir sentir ou jogar emoções para fora. Apesar de parecer uma pessoa que expressa tudo o que quer, eu sou exatamente o contrário disso. Eu não me permito sentir ou expressar muita coisa por medo do que isso pode acarretar aos que me rodeiam, o álcool era uma válvula de escape para isso já que eu conseguia me expressar sem muito filtro (Mas não se engane, ainda havia MUITO filtro) e isso era muito reconfortante para mim.
Um outro motivo que me leva ao álcool, e esse é particularmente é o que me joga em crises de dependência fortíssima, é quando eu estou me sentindo vazio por assim dizer. Um dos meus ápices como pessoa depressiva é quando eu não consigo sentir absolutamente nada (Ao contrário do que pensam ser depressivo não é só chorar). É como se o mundo não tivesse nada a oferecer, não tem cor, não tem graça, tem apenas você se mover como se fosse um zumbi porque você está vivo. Nesses dias é que o suicídio me parece mais atraente porque se a vida não tem o que te oferecer, apenas um nada infinito, ela não tem um pingo de valor então não parece lógico viver. E aí entra ela, linda e gostosa, e pronta para potencializar a enésima potência qualquer sentimento desde a alegria até a profunda tristeza.
Quero também esclarecer um outro mito que vejo por ai, os remédios para depressão não te tornam uma pessoa feliz de uma outra para outra gente. Embora no começo das minhas doses mais altas (Atualmente minha dose diária é bem alta) eu tivesse tido um barato e tenha ficado lesado, após me acostumar os remédios de fato mostraram para o que vieram, no meu caso eles barram o meu pensamento que na maioria das vezes não é só acelerado demais como também um amontoado de possibilidades que posso calcular no momento.
Você se pergunta: Mas Marcos, no que tanto você pensa? E eu te digo contando uma curiosidade levemente íntima, por anos quando eu ia transar, eu analisava e calculava cada minúsculo passo que eu ia fazer no processo e várias possibilidades do que eu poderia ou não fazer. “Se eu fizer isso vou obter resultado X, Y, Z ou A?” “Talvez se eu aplicar a variante W eu consiga resultados A, K, L ou até os três juntos”. Se no sexo, que deveria ser um ato mais instintivo eu era assim, imagina no dia a dia?
Já deu para ver o quão o remédio me ajuda tirando por essa experiência, porém ainda assim em alguns dias o vazio me ataca, e junto com ele o desejo quase incontrolável pela bebida, em alguns dias ele é tão grande que até minha racionalidade fica comprometida. As pessoas me impedirem de beber é uma afronta a mim e um desejo que eu morra ou coisa pior, que eu pare em uma eterna roda de violão ouvindo Legião Urbana e Capital Inicial, isso é o inferno!!!! Eu quero retaliar, agredir, mesmo isso sendo irracional. Esses são os piores dias é claro, mas eles passam e resta a mim as reverências e pedidos de desculpas para as pessoas. Felizmente nos dias que se seguem, esses dias tem ficado cada vez mais para trás, embora o desejo ainda apareça algumas vezes.
Atualmente eu me mantenho sóbrio. Tem dias que eu quero muito beber uma garrafa inteira de vodka com sabor ou umas 3 de corote para ficar muito doido, mas procuro voltar minha atenção para outras coisas e vou superando. As pessoas ao meu redor vem me apoiando incondicionalmente, mesmo em dias tenebrosos, e isso ajuda muito também. No dia que escrevo isso me sinto forte para enfrentar o vício, mas dias ruins virão e eu espero ter forças para não me jogar e passar dois dias de ressaca ruim na cama de tanto beber. Ao final desse texto só posso dizer uma coisa, MARCOS FIGHTING ❤ HAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHA
Ps: Escrevo esse texto ouvindo Blame it (On the Alcohol) e o título da música não poderia ser melhor.
메타데이터
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