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Discos que parece que só eu e você gostamos: V, da Legião Urbana

Todo mundo tem um disco desses.

Rodrigo Moia · 2026-06-03 20:28 · 0 claps · 3.6 min read
#legião-urbana #música #rock-brasileiro
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Discos que parece que só eu e você gostamos: V, da Legião Urbana

Todo mundo tem um disco desses.

Aquele álbum que você ama, mas que parece ter sido esquecido pelo resto do mundo. Você comenta sobre ele e recebe olhares estranhos. Defende suas qualidades e logo aparece alguém para dizer que a banda já fez coisa melhor.

Mas a verdade é que nenhum disco é amado por apenas uma pessoa. Sempre existe alguém do outro lado que também guarda um carinho especial por ele.

Por isso resolvi começar uma série sobre discos que parecem que só eu e você gostamos.

E vou começar por um dos mais incompreendidos do Rock nacional: V, da Legião Urbana.

Para entender esse disco, é preciso olhar para o contexto.

Se As Quatro Estações já foi gravado em meio a turbulências, a saída de Renato Rocha, o agravamento dos problemas de dependência química de Renato Russo e uma série de conflitos internos, V surge como uma continuação desse processo.

Mas não apenas isso.

Ele também é um retrato de um país em crise.

O Brasil havia saído da ditadura carregando uma enorme esperança de transformação. Só que a realidade foi diferente. O governo Sarney trouxe incertezas, a hiperinflação corroía o dia a dia das pessoas e, pouco depois, o governo Collor pisaria de vez em muitos sonhos que a redemocratização havia prometido.

É nesse ambiente que nasce V.

Um disco longo.

Denso.

Complexo.

Talvez o mais complexo da carreira da Legião Urbana.

Não porque a banda tenha se transformado em um grupo de rock progressivo. Não estamos falando de uma mudança radical de linguagem musical. Mas existe aqui uma vontade clara de expandir os limites da própria banda.

Se “Faroeste Caboclo” já parecia uma ousadia em sua duração e estrutura, V vai ainda mais longe com “Metal Contra as Nuvens”, uma composição de mais de onze minutos que se tornou uma das maiores obras da carreira de Renato Russo.

E o disco já começa deixando claro que não será fácil.

Existe um peso emocional atravessando todas as faixas.

“Metal Contra as Nuvens” talvez seja o melhor exemplo disso.

Ao mesmo tempo em que carrega uma enorme desesperança, ela também fala sobre resistência.

Quando Renato canta:

“Eu vejo tudo que se foi e o que não existe mais”

ele parece descrever um país inteiro.

Mas logo depois surge a vontade de continuar lutando.

“Esta é a terra de ninguém e sei que devo resistir.”

É como se a música oscilasse constantemente entre o desânimo e a esperança.

Entre a derrota e a necessidade de seguir em frente.

Entre o desencanto e a luta.

Essa dualidade atravessa o álbum inteiro.

“A Montanha Mágica” mergulha diretamente nos problemas de dependência química. Renato praticamente transforma suas próprias experiências em poesia.

Já “Teatro dos Vampiros” se tornou um retrato quase definitivo da crise econômica brasileira.

Quando ele canta sobre amigos procurando emprego e sobre a sensação de que o país voltou dez anos no tempo, não está falando apenas de si mesmo. Está falando de uma geração inteira.

E talvez seja por isso que a música continue tão atual.

Porque a sensação de estagnação ainda nos acompanha.

Mas V não vive apenas de seus momentos mais pesados.

Existe espaço para delicadezas.

“Sereníssima” é uma canção pop belíssima.

“Vento no Litoral”, apesar de ter se tornado quase um clichê para falar sobre términos, continua sendo uma das músicas mais doloridas da banda.

Ali está Renato lidando com perda, abandono e decepção de forma extremamente humana.

E então surge “O Mundo Anda Tão Complicado”.

Uma das músicas mais bonitas e menos comentadas da Legião Urbana.

Porque enquanto o disco inteiro olha para os problemas do país, essa canção faz algo diferente.

Ela olha para a vida cotidiana.

Para as pequenas discussões de casal.

Para as contas que precisam ser pagas.

Para as preocupações simples.

Para o desejo de viver uma vida comum em meio ao caos.

E isso a torna ainda mais especial.

Talvez o grande problema de V tenha sido justamente ter vindo depois de As Quatro Estações.

O público esperava outro conjunto de canções imediatas, emocionais e facilmente identificáveis.

Esperava algo como “Pais e Filhos”.

Esperava respostas rápidas.

Mas V não queria olhar para dentro.

Ele queria que você olhasse para fora.

Para o país.

Para a crise.

Para os seus amigos.

Para as pessoas ao seu redor.

Enquanto Pais e Filhos perguntava o que acontecia dentro da sua casa, V perguntava o que acontecia do lado de fora da sua janela.

E talvez por isso ele tenha sido tão incompreendido.

Mas também é por isso que ele continua tão fascinante.

Para mim, é um dos grandes discos da Legião Urbana.

E um daqueles casos em que o tempo acabou sendo mais generoso do que a crítica e parte do público foram na época.

Então, se você torceu o nariz para ele nos anos 90, faço um pedido.

Dê mais uma chance.

Assim como Renato Russo encontra esperança em meio ao caos de “Metal Contra as Nuvens”, talvez exista uma pequena chance de você mudar de opinião.

E descobrir que esse disco era muito melhor do que parecia.


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