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Cinco críticas a Dado Cavalcanti

As armadilhas do ego no comandante do time do Bahia.

Victor Moreno · 2021-07-19 14:48 · 3 claps · 7.2 min read
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Cinco críticas a Dado Cavalcanti

As armadilhas do ego no comandante do time do Bahia.

Salvador, 19 de Julho de 2021.

O mundo do futebol apresenta constantemente ironias acachapantes. Na minha dissertação onde eu apresento motivos para se apoiar Dado Cavalcanti, o principal motivo que eu citei é o resgate de uma identidade de jogo ofensiva que é marca histórica do clube. Mas, como eu sou apenas um corneteiro e entendo de futebol o mesmo que Thaciano entende de cabelo, eu não percebi naquele ponto a armadilha que é a construção de identidade.

A maior armadilha da identidade é o calabouço de ideias que o indivíduo, às vezes, se aprisiona e que afeta invariavelmente a forma como este ser interage com o mundo. A maior prisão é a que é criada por si mesmo. No futebol, isso é letal. Refiro-me ao ego.

O ego inflado causa orgulho, arrogância. E como diria o conterrâneo do Profº Eduardo Cavalcanti, o grande mestre Chico Sciense — ‘‘O orgulho, a arrogância, enche a imaginação de domínio… ’’ — em seu Monólogo ao Pé do Ouvido. A coletiva do treinador no pós-jogo de ontem deixou em entrelinhas que ele caiu numa malha fina que, geralmente, indica o declínio do trabalho de um técnico no Bahia.

‘’Das duas uma: Ou entramos com o que temos de melhor,

Ou entramos para jogar só se defendendo com a bundinha na parede.

Hoje optamos pela primeira opção.

Falar depois do jogo é fácil’’.

Dado Cavalcanti em coletiva pós-jogo contra o Flamengo.

Felipe Oliveira / ECBahia

Felipe Oliveira / ECBahia

Dado tem um ponto, falar depois do vexame realmente é fácil. Porém, a responsabilidade de se antever a essas situações é do treinador. A leitura de jogo que o demarcou no comando técnico do Bahia quando em um Atlético-MG x Bahia com uma ruma de desfalques e enfrentando um time excelente com o técnico mais bem pago do futebol brasileiro, tem faltado ultimamente. E justo num mês de decisões milionárias.

“Há algo sobre você mesmo que você não sabe. Algo que você nega existir. Até ser tarde demais para fazer alguma coisa a respeito. É o único motivo pelo qual você levanta toda manhã. O único motivo pela qual você agüenta o chefe intragável, o sangue, o suor e as lágrimas. É porque você quer que as pessoas saibam o quanto você é bom, atraente, generoso, engraçado, maluco e inteligente. Tenha medo de mim ou me reverencie. Mas por favor, me considere especial. Compartilhamos um vício: a necessidade de aprovação. Todos nós queremos um tapinha nas costas e o relógio de ouro, o grito da torcida. Olha só o garoto inteligente com o brasão polindo o troféu. Continue brilhando diamante maluco! Afinal somos macacos de terno, implorando pela aprovação dos outros. Se soubéssemos disso, não faríamos isso tudo. Alguém está escondendo isto da gente e, se tivéssemos uma segunda chance, você perguntaria: por quê?”.

(Filme Revolver, 2005).

Não é difícil entender o que Dado tentou nessa partida do Flamengo. O Bahia está completamente desfigurado. Ele identificou os atletas que, teoricamente, seriam capazes de oferecer características similares aos titulares e mandar a campo. Só que o jogo não podia ter como estratégia a trocação contra o melhor XI do Brasil. E ele fez isso por orgulho, por estética.

Sem mais delongas, farei cinco críticas construtivas (ou sugestões) ao trabalho de Dado, antes que se aprofunde na curva descendente e que a crise seja efetivada no clube e o trabalho venha a ser interrompido, para ele não dizer que não avisei antes (quanta presunção). E são críticas de um completo leigo, pra mostrar que até um mero apaixonado consegue enxergar, por dispor da tranquilidade de olhar de fora e da hibridez de estar sempre do lado da pedra e nunca do telhado.

1 — Estratégia para jogos como azarão

“Primeira regra dos negócios: proteja seu investimento”. (Etiqueta do banqueiro, 1775).

Eu sei que é contraditório em relação ao meu último texto, mas eu sou torcedor e minha classe se contradiz o tempo todo. Tem jogo que simplesmente não dá para ser ofensivo e ser competitivo ao mesmo tempo. Se para o treinador do Bahia, as opções de estratégia são tão binárias, talvez existam partidas que é melhor colocar a bundinha na parede mesmo. Não era tão difícil ser mais competitivo neste último jogo. Muitos se perguntam por que o Bragantino e o Fortaleza são destaques deste campeonato e a resposta é simples: eles possuem times intensos e rápidos. Já o Bahia que foi a campo ontem, se juntar Galdezani, Thonny Anderson e Rodriguinho e colocar para correr lado a lado com um cágado manco, eles perdem por 2 segundos de diferença para o réptil.

Invista em mais saúde no meio de campo, mais pegada, mais velocidade. Simplifique. Tentar primeiro encurtar os espaços, oferecer mais proteção aos seus laterais com jogadores mais vivos. Tem sido um erro recorrente do professor. Não dá para ficar o tempo inteiro se apoiando nessa tábua de salvação de dizer que o Bahia não tem elenco e ficar tentando manter a mesma tática todo jogo como se fosse enfrentar a Chapecoense toda semana. Faltou leitura, faltou humildade. Faltou se enxergar. E tinham alternativas que poderiam oferecer mais intensidade sim. Cometeu o mesmo erro que Roger Machado cometeu no campeonato passado contra o mesmo adversário. Não abriu mão das convicções, não protegeu seu investimento.

2 — Estratégia para jogos como favorito

Outro problema desse time de Dado Cavalcanti é a dificuldade de quebrar defesas bem postadas. Por mais que se povoe a área, que se utilize uma variedade de atletas, quando o Bahia enfrenta um time que povoa o meio de campo ou que fecha uma linha de cinco na defesa, simplesmente o Bahia não consegue finalizar em gol. Esse problema, ao menos, o treinador já reconhece. Sofremos contra o Corinthians e penamos contra o Internacional. Quase deixamos escapar dois pontos contra o Juventude. Não chegaremos a lugar algum sendo uma equipe que só tem valentia para times que jogam e deixam jogar.

3 — Dificuldades com equipes que marcam em pressão alta

“Em cada jogo ou golpe, tem sempre um oponente, tem sempre uma vítima, o truque é saber se a vítima vai ser você, assim, você se torna o oponente”. (Filme Revolver, 2005).

Outra dificuldade que o Bahia tem enfrentado é com as equipes menores, mas que jogam com intensidade, pressionando a saída de bola. O CSA deu o caminho lá no início da temporada quando meteu 2 a 0 no Bahia com um verdadeiro baile com jogadas oriundas de uma marcação pressão. O América, com um pouquinho menos de intensidade, mas com janelas específicas da partida, criou uma quantidade exorbitante de chances com o mesmo perfil. Ontem o Flamengo fez um jogo-treino com o Bahia só utilizando destes mecanismos. O Bahia simplesmente só possui uma alternativa de saída de pressão: Daniel acertar uma mudança de direção arriscada e conseguir acionar um atleta livre. É muito pouco. E os adversários sabem disso. Ainda enfrentaremos Atlético-GO e Fortaleza que apertam o tempo inteiro. Cheirinho de tragédia anunciada.

4 — Definir o que fazer com Rodriguinho

Dado deve muito a Rodriguinho. Foi o cara que livrou o Bahia do rebaixamento na derradeira da temporada 2020, foi o cara que chamou a responsabilidade na final da copa do Nordeste. Mas, tá difícil, Dado. Tem jogo que simplesmente não dá. Rodriguinho, além de não ser rápido, não possui intensidade. Vai na linha do primeiro ponto supracitado, mas esse se atenua por ser algo recorrente nessas 12 rodadas iniciais do Campeonato Brasileiro. Não me lembro da última vez que a torcida e a crônica esportiva não fez essa crítica. E para piorar, o jogador que foi contratado para ser o seu reserva, segue sendo utilizado em várias outras posições e quase nunca como uma alternativa para o nosso capitão. Parece intocável.

A minha sugestão não é sacar o meia-atacante, longe disso. Temos um time mediano para fraco e não podemos nos dar ao luxo de tirar de campo um dos melhores jogadores do time tecnicamente. Mas, tem que melhorar o timing de substituição da camisa 10. E, se o artilheiro do time pode sentar no banco visando uma estratégia, como foi contra a Chapecoense, por que Rodrigo não pode?

5 — Viver de lampejos

Uma das maiores características desse time do Bahia no Campeonato Brasileiro é a de se aproveitar de momentos da partida para definir o jogo. Foi assim contra o Santos, Chape, Ceará, o pontinho suado contra o Bragantino. É bom quando funciona. Nas 12 partidas do Bahia no campeonato, somente uma não foi nessa tendência: A derrota para o Palmeiras. E foi justamente a melhor partida do time no campeonato.

Pontuo essa crítica para mostrar que, mesmo nas partidas onde o Bahia venceu (ou ao menos pontuou), conseguimos por aproveitar momentos de lapsos do adversário. Dentre os triunfos, teve o jogo contra o Athlético que vencemos com arbitragem polêmica (que acertou nos lances). É para se ligar o sinal de alerta. Time que depende de lampejos, de jogadinhas específicas, de intervalos temporais de baixa concentração do adversário, de atuação individual de um atacante, quando o milho acaba, costuma acabar a pipoca também.

Felipe Oliveira / ECBahia

Felipe Oliveira / ECBahia

Dado Cavalcanti outrora utilizou de situações na NBA para pontuar lições que são importantes para sua identidade de jogo e seu crescimento profissional. Ele bem que poderia utilizar da fala de Giannis Antetokounmpo em entrevista coletiva quando perguntado sobre como lidar com o próprio ego:

‘’Geralmente, com base na minha experiência, quando penso ‘’eu fiz isso’’, ‘’sou tão bom’’…geralmente no dia seguinte você vai ir mal. Simples assim, nos próximos dias você vai ser terrível. Eu descobri isso, que quando você foca no passado, isso é o seu ego. ‘’Eu fiz isso’’…Quando você foca no futuro; ‘’No próximo jogo vou fazer isso, isso e isso’’, ‘’vou dominar’’, isso é o seu orgulho falando. Ainda não aconteceu, você está bem aqui. Eu tento focar no momento, no presente. Isso é humildade, isso é ser humilde. É não criar nenhuma expectativa. É aproveitar o jogo, competir em alto nível. ’’

Hoje é a realidade que você pode interferir. Entrar nesse caminho de convicções exacerbadas é arapuca. Roger caiu assim. Mano quase leva o Bahia para a B com essas limitações. Podemos acabar sendo derrotados de qualquer forma, mas vamos tentar ser o competitivos ao máximo. Modifique. Parar um pouquinho com essa celeuma de clamar por reforços o tempo todo e não cair nessa armadilha de se achar o mais esperto, atirando contra os que te lançam críticas, se fechando. Semana que vem tem um time do mesmo nível do que enfrentamos e logo em seguida vem à seletiva da Copa do Brasil contra o mesmo Atlético. É bom tirar a folga de segunda para refletir.


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